«A louca história dos multimédia - Os novos senhores do mundo» (1) é o título de um livrinho lançado há pouco tempo no mercado nacional.
Da autoria de um jornalista do diário francês Libération, Renaud de Le Baume, e de um consultor na área dos novos «media», Jean-Jérôme Bertolus, a obra, apesar de ter apenas 200 páginas, quase nos deixa sem fôlego, tal o ritmo a que nos é relatada a actual corrida ao eldorado digital.
Os autores partem do princípio que o próximo século será o da comunicação, na mesma medida em que o século XX foi o do transportes.
A «cultura do amanhã» assentará em auto-estradas da informação, na TV interactiva digital, no «pay-per-view» e no «video-on-demand», palavrões sinónimo de uma grande autonomia de escolha por parte dos consumidores. «O Homo Interactivus do terceiro milénio há-de ver o que deseja no momento em que o deseja».
Tudo indica que assim será. Os primeiros a perceberem isso já há muito preparam o terreno, posicionando-se para tomar conta dos muitos milhões de dólares a gerar pelo negócio dos «multimedia» à escala planetária.
A batalha pela conquista da informação já começou. E ela será travada a vários níveis, envolvendo satélites, redes por cabo, bem como os apetecidos computadores pessoais.
Trata-se de um bolo gigantesco irresistível. Já para 1996, são feitas previsões alucinantes. Por exemplo, o sector da edição de CD-ROM e CD-I renderá, só nos Estados Unidos, 12 mil milhões de dólares. Por isso, não é de estranhar a febre dos grandes grupos multinacionais.
Como referem os autores do livro, é hoje pura perda de tempo ir ter com um industrial ou financeiro para lhe falar em investir nos seguros. Mas basta meter na conversa palavras mágicas como «programas», «jogos», «novos meios de comunicação», «virtual», «digital», enfim, «multimedia», para até os olhos do potencial investidor se rirem.
«Acertadamente ou não, o crédito está aberto ao digital».
Apesar de ainda ninguém saber ao certo onde estão os sucesso do amanhã, os gigantes atiram-se de cabeça. E quem são esses senhores? São nomes como Bill Gates, «citizen» Rupert Murdoch, Robert Hersant, empresas como a Microsoft, News Corp., Bertelsmann, CLT, Havas, Sony, Time Warner, Sega e Nintendo, Philips, Matsushita, AT&T, Deutsche Telekom.
Todos têm em comum um ponto: não se deixam limitar por fronteiras geográficas. E todos se lançaram freneticamente em fusões e alianças de toda a espécie para a conquista de mercados.
São muito poucos os «donos» da futura comunicação planetária. Por isso, há quem esteja bastante preocupado.
Para Ben Bagdikian, professor de jornalismo e autor de um clássico sobre os monopólios dos «media», os donos dos meios de comunicação «exercem um poder de homogeneização das ideias, da cultura e do comércio, cuja influência sobre as populações não tem paralelo na história. Nem César, nem Hitler, nem um papa possuem tais meios de moldar a informação de que tantas pessoas dependem para tomarem as suas decisões».
La Baume e Bertolus, no entanto, consideram, nas conclusões de «A louca história dos multimédia», que a inquitação de Bagdikian tem de ser mitigada. Porque «já lá vai o tempo dos programas uniformes».
Se a difusão digital é propícia à concentração ela é, ao mesmo tempo, intrisecamente individualista: os produtos e serviços a oferecer pelos novos senhores do mundo já não se destinam a um mercado ou um segmento de mercado, têm como destinatário o indivíduo.
Com as auto-estradas da informação, cada um pode ir buscar o que quiser, conforme os seus apetites ou fantasias. E, nesta matéria, toda a imaginação é pouca.
(1) «A Louca história dos multimédia», Renaud de La Baume e Jean-Jérôme Bertolus, Editorial Teorema, Lisboa