Le Monde Diplomatique, Maio de 1996
Pois é. Não é nada optimista o editorial do Monde Diplomatique deste mês. Fala do apertado cerco à liberdade de Imprensa nos dias que correm. Mas abre uma porta para tentar dar a volta ao problema.
O director da publicação, Ignacio Ramonet, começa por chamar a atenção para pequenos crimes sem importância cometidos, nos últimos tempos, um pouco por todo o Mundo.
Em França, o Eliseu mete cunhas para pôr um homem de confiança política na presidência da agência France Presse.
Nos Estados Unidos, Steve Forbes, ex-candidato à presidência do país e dono da prestigiada revista de economia Forbes, é acusado de violar sistematicamente uma das regras básicas do jornalismo, fazendo com que os artigos publicados na revista sejam reescritos de modo a agradar aos anunciantes.
No Japão, o presidente da estação de TV TBS foi obrigado a demitir-se depois de ter admitido que mostrou a responsáveis da seita Aum, a tal do gás sarin no metro de Tóquio, um documentário sobre esta organização. E fê-lo antes de o programa ir para o ar na TBS. Resultado: a seita da Verdade Suprema não só impôs a não difusão da reportagem como acabou por assassinar uma das pessoas que aparecia a fazer denúncias.
Enfim, por cá ainda não se vai tão longe. As facadas no bom senso jornalístico ainda se ficam por umas perguntitas combinadas com o sr. ministro antes do programa de grande audiência ir para o ar ou por uns passeios com despesas pagas ao Algarve à custa do altruísmo desinteressado das empresas. Coisa pouca, como se vê.
A cada dia que passa, diz Ignacio Ramonet, acumulam-se as provas de que a independência dos «media» é um logro. O valor da informação depende cada vez mais, não da sua relação com a verdade, mas com o número de pessoas susceptíveis de se interessarem por ela. Eis um princípio caro à guerra das audiências.
Considerada como mera mercadoria, está cada vez mais sujeita à lei da oferta e da procura, acentuando-se, deste modo, a sua tendência para o sensacionalismo e espectacularidade.
Tudo isto é por demais conhecido e constantemente repisado. Agora, o que pode um jornal fazer para se constituir uma espécie de ilha de independência? Como conseguir preservar autonomia, linha editorial e tudo o mais que faz a singularidade de um produto jornalístico? Será isso possível? É sim senhor, dizem os donos do mensal Monde Diplomatique.
A solução encontrada por eles passa pela constituição de um grupo forte de afiliados de modo a que o capital do jornal fique nas mãos de apenas três entidades: Le Monde SA (na qual a Sociedade de Redactores é accionista maioritária), a equipa do jornal e os próprios leitores. Todos reunidos na associação Os amigos do Monde Diplomatique.
Pretende-se, assim, garantir que a equipa do jornal e os leitores possuam em conjunto mais de um terço do capital da empresa, de modo a que nenhuma decisão inaceitável, susceptível de pôr em causa a independência do jornal, se consiga impor.
Não é nada fácil concretizar um projecto de tal envergadura. Poderá mesmo parecer, aos olhos de alguns, uma tentativa de intocabilidade algo poética, desesperada ou irrealista. No entanto, tem pelo menos a virtude de nos acordar para uma realidade incontornável: a liberdade de Imprensa está, cada vez mais, entre a espada e o dinheiro.