Demasiada areia...

Hélder Bastos, JN, 27 de Abril, 1996
Já muito antes de as redes mundiais informáticas, como a Internet, se terem tornado numa moda estrondosa se falava nos problemas gerados pelo excesso de informação ao dispor dos cidadãos. Se estes já consumiam diariamente uma enorme quantidade de dados, hoje em dia sujeitam-se a apanhar verdadeiras congestões.

Imagine-se um pacato cidadão do final do século passado. Nos melhores casos, a sua dieta diária informativa incluiria a leitura saboreada de um jornal, complementada de uma amena cavaqueira com cavalheiros esclarecidos.

Imagine-se um ainda pacato cidadão dos anos 30 do século XX. Contentar-se-ia com a imprescindível vista de olhos pelas notícias compactas do jornal, mas ficava também de ouvido nos noticiários da telefonia, à mistura com as mensagens propagandísticas dos regimes em vigor.

Imagine-se, agora, o sortudo habitante do planeta Terra nos idos anos 60. Não satifeito com a absorção dos títulos das primeiras páginas logo pela manhã e das notícias de abertura relatadas via rádio, guardava tempo à noitinha para se sentar em frente ao televisor, espreitando o mundo através da caixa.

Anos 90. O sujeito mais info-dependente acorda com o despertador em cima do noticiário das 7. Corre para o emprego com o rádio do carro ligado e distrai-se a mudar de estação nas intermináveis filas de trânsito. Dá uma vista de olhos no diário do costume quando chega ao escritório. Lê uma revista enquanto almoça de pé numa confeitaria. Folheia uma publicação especializada na sua área profissional ao lanche. Consulta a Internet sempre que os colegas não estão a utilizar o mágico terminal de computador ligado a mais de 30 milhões de outros cibernautas. À noite, entretem-se a «zappar» de canal em canal à procura das últimas. E, finalmente, adormece, info-empanturrado, ao som da promessa: «Fique por aí, voltamos à uma com mais informação».

Se, de repente e por artes mágicas, o pacato cavalheiro do século passado fosse submetido a uma dose destas, por um dia que fosse, o seu cérebro fundia como uma lâmpada carregada com excesso de corrente.

O homem pura e simplesmente não está preparado para dominar os volumes de informação com que diariamente se confronta, frisava, esta semana, por outras palavras, o procurador-geral da República, Cunha Rodrigues, ao dirigir-se a uma plateia de estudantes da Escola Superior de Jornalismo do Porto.

Questão um pouco à margem do tema central da sua conferência, centrada na relação entre a justiça e os meios de comunicação social, a sobreinformação é, no entanto, uma área de estudo fulcral.

Cunha Rodrigues falou no caso específico da Internet, rede de redes onde é avassalador o volume de informações, sobre as mais diversas áreas do conhecimento, a que se pode aceder através de um terminal de computador mais ou menos sofisticado.

Para os futuros jornalistas que o ouviam, o procurador tocou, pois, num ponto importante, já que tem a ver com desafios com os quais os profissionais da Imprensa se vão defrontar. A capacidade de selecção e síntese destes será posta à prova de uma maneira sem precedentes e de forma crescente num mundo submerso por biliões de fontes geradoras de informação.

Estarão os jornalistas em vias de se transformarem nos sinaleiros deste tráfego imenso?


A equipa de Joaquim Furtado está de Parabéns. Teve a coragem de ir para a frente com a inofensiva e divertida rábula do Herman sobre a Última Ceia e soube dar a volta, nomeadamente com o debate que anteontem promoveu na RTP1 sobre o assunto, à campanha inacreditavelmente anacrónica levada a cabo por meios de comunicação social ligados à Igreja, cuja hierarquia teima em não acertar o relógio pelos ponteiros do final do século XX. 1
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