Dentro de poucos anos, qualquer pessoa que por acaso consulte este Comunicarte vai concerteza sorrir. «Olha, há quatro anos isto era grande novidade...». Terá, provavelmente, reacção idêntica à que hoje temos quando nos vêm parar às mãos recortes dando conta dos espantos da Imprensa com os maravilhosos primeiros computadores.
Bom, isto é a questão vista pelo lado optimista. A história das novas tecnologias mostra-nos que muito boas ideias acabam, por vezes, em rotundos e indigestos fracassos para as empresas. Veja-se o que aconteceu com o mini-disc, cujo objectivo era substituir o imbatível compact-disc.
Nada disto, no entanto, abala a confiança dos donos do diário Mainichi Shimbun. Eles esperam ganhar 200 novos leitores digitais todos os dias. Em meados de Março passado, contavam já com 1500.
O jornal electrónico de bolso propriamente dito é um computador, baptizado com o nome Zaurus. Trata-se de uma máquina pequena, com ecrã monocromático, do tamanho de um filofax, onde são lidas as notícias.
Para ir buscar as últimas novidades do Shimbun, o sr. Juang Xian, empresário muito apressado e sempre a saltitar de um lado para outro, terá de ligar o seu Zaurus a um modem, pequeno aparelho de conexão do computador à rede telefónica. Desta forma, o sr. Juang Xian pode actualizar e mesmo guardar, à hora que mais lhe convier, o noticiário.
Imaginemos que o empresário é fanático por informação sobre a bolsa e por corridas de cavalos. Neste caso, pode dar instruções ao seu Zaurus para actualizar apenas e só notícias relativas a estes dois assuntos.
À semelhança do que acontece actualmente com alguns jornais disponíveis na Internet, o sr. Juang Xian pode ter uma edição, consultável no metro, na cama ou no WC, feita à sua medida.
O Mainichi digital é actualizado duas vezes por dia, às 5 e às 17 horas, ou com maior frequência se a actualidade o exigir.
O objectivo dos editores é poderem chegar a jovens assalariados de colarinho branco, o público-alvo deste produto jornalístico inovador.
Através de uma base de serviços informáticos, a Nifty Serve, o Mainichi electrónico oferece, diariamente, entre 150 a 200 artigos curtos. O Zaurus precisa de três minutos para descarregar uma selecção de 18 textos.
Como em todas as histórias engraçadas, também nesta não há Mainichi sem senão. Fica bem mais caro ao sr. Juang pegar no Zaurus em vez de comprar a versão em papel.
Apesar disso, há especialistas em comunicação optimistas. Para eles, o novo produto não deixará de despertar a curiosidade do resto da Imprensa japonesa, atenta ao facto de quase um milhão de japoneses possuir um Zaurus. A tecnologia, acrescentam, poderá mesmo vir a ser adoptada em países europeus, como a Grã-Bretanha, onde existe um número considerável de computadores de bolso.
«Não há dúvidas que os magnatas da Imprensa estrangeira vão seguir de muito perto os hábitos de leitura dos utilizadores do metro de Tóquio», escrevia, recentemente, o Financial Times. E vão estar tanto mais atentos quanto é preocupante a crise pela qual quase todos estão a passar.
De ano para ano, os diários japoneses, europeus e norte-americanos perdem leitores, tal como foi reafirmado, há dias, em Washington, pelo director-geral da Federação Internacional dos Editores de Jornais.
Não espanta, por isso, a busca de soluções alternativas por parte das empresas jornalísticas. Neste momento, no entanto, a aposta destas está a ser concentrada com uma força avassaladora na Internet. Terá o Mainichi Shimbun de bolso chegado cedo demais?