Por causa dela, uns governantes exultam, outros exasperam e censuram, como é o caso dos turcos e dos chineses. Os cidadãos discutem. Dizem cobras e lagartos da pornografia virtual ou simplesmente assumem não perceberem patavina desta novidade que envolve 35 milhões de utilizadores em mais de 16O países.
Se a coisa tem assim tanto impacto a nível planetário, por que motivo os investigadores da área da comunicação, habitualmente interessados na pesquisa sobre os efeitos dos media, continuam olimpicamente a passar por cima deste fenómeno?
Até há bem pouco tempo, eles praticamente ignoraram, não apenas a Internet, mas também todo o campo da comunicação mediada por computador, ficando-se pela análise dos meios tradicionais, como a televisão e as publicações impressas.
Para os autores Merril Morris e Christine Ogan, da Universidade de Indiana, Estados Unidos, isto acontece porque os media tradicionais encaixam melhor nos modelos necessários à investigação dos tópicos e teorias da comunicação de massas.
Num artigo publicado no último número do Journal of Communication, Morris, candidato ao grau de doutor, e Ogan, professora na Escola de Jornalismo da Universidade de Indiana, defendem uma tese interessante.
Ambos argumentam o seguinte: se os investigadores continuarem a passar ao lado do potencial de investigação em torno da Internet, as suas teorias vão tornar-se menos úteis. Não só esta disciplina perderá terreno, como desperdiçará uma oportunidade de explorar e repensar respostas para algumas questões centrais neste campo.
Por isso, Morris e Ogan propõem que se conceptualize a Internet precisamente como meio de comunicação de massas. Nesse sentido, revêem algumas ideias sobre o que constitui uma audiência de massas e uma tecnologia de mediação.
Na opinão destes autores, «o computador enquanto nova tecnologia da comunicação abre aos investigadores um espaço para repensarem as suas teses e categorias, e talvez mesmo para encontrarem novas perspectivas em relação às tecnologias tradicionais da comunicação.»
O que Morris e Ogan sustentam, no fundo, é uma ruptura com os modelos com que habitualmente abordam os media. Os estudiosos desta área sempre se organizaram à volta de um meio específico, como os jornais.
O jornal é uma área de estudo precisa, bem delimitada. A par da rádio e da TV, sempre foi objecto de análise por razões económicas, políticas e sociais. Mas, à medida que a tecnologia muda e os meios de comunicação convergem, como acontece no caso da Internet, os teóricos têm de ser mais flexíveis quanto às suas categorias de investigação.
Em parte, a Internet passou-lhes ao lado por, no início, ter sido construída, aos poucos e poucos, por carolas, estudantes e mesmo académicos. Outros, mais radicais, conhecidos pelo nome de «hackers», foram aparecendo pelo meio.
Por isso, a rede não se enquadrava na ideia que os investigadores tinham de «mass media». A telemática foi relegada para outros domínios do conhecimento, mais ligados à educação e aos negócios. Alguns chegaram mesmo ao ponto de, em manuais teóricos, compararem o computador ao telefone, pondo de lado a hipótese de encararem a comunicação por computador como fenómeno de comunicação de massas.
Pois bem, a prática está a demonstrar que os teóricos precisam de fazer uma revisão urgente das suas ideias.