A Internet como meio de massas

Hélder Bastos, JN, 14 de Setembro, 1996
Já não se passa um dia sem que se fale da Internet. Na televisão, nos jornais, nas revistas, nas rádios, a rede de todas as redes cresce e aparece.

Por causa dela, uns governantes exultam, outros exasperam e censuram, como é o caso dos turcos e dos chineses. Os cidadãos discutem. Dizem cobras e lagartos da pornografia virtual ou simplesmente assumem não perceberem patavina desta novidade que envolve 35 milhões de utilizadores em mais de 16O países.

Se a coisa tem assim tanto impacto a nível planetário, por que motivo os investigadores da área da comunicação, habitualmente interessados na pesquisa sobre os efeitos dos media, continuam olimpicamente a passar por cima deste fenómeno?

Até há bem pouco tempo, eles praticamente ignoraram, não apenas a Internet, mas também todo o campo da comunicação mediada por computador, ficando-se pela análise dos meios tradicionais, como a televisão e as publicações impressas.

Para os autores Merril Morris e Christine Ogan, da Universidade de Indiana, Estados Unidos, isto acontece porque os media tradicionais encaixam melhor nos modelos necessários à investigação dos tópicos e teorias da comunicação de massas.

Num artigo publicado no último número do Journal of Communication, Morris, candidato ao grau de doutor, e Ogan, professora na Escola de Jornalismo da Universidade de Indiana, defendem uma tese interessante.

Ambos argumentam o seguinte: se os investigadores continuarem a passar ao lado do potencial de investigação em torno da Internet, as suas teorias vão tornar-se menos úteis. Não só esta disciplina perderá terreno, como desperdiçará uma oportunidade de explorar e repensar respostas para algumas questões centrais neste campo.

Por isso, Morris e Ogan propõem que se conceptualize a Internet precisamente como meio de comunicação de massas. Nesse sentido, revêem algumas ideias sobre o que constitui uma audiência de massas e uma tecnologia de mediação.

Na opinão destes autores, «o computador enquanto nova tecnologia da comunicação abre aos investigadores um espaço para repensarem as suas teses e categorias, e talvez mesmo para encontrarem novas perspectivas em relação às tecnologias tradicionais da comunicação.»

O que Morris e Ogan sustentam, no fundo, é uma ruptura com os modelos com que habitualmente abordam os media. Os estudiosos desta área sempre se organizaram à volta de um meio específico, como os jornais.

O jornal é uma área de estudo precisa, bem delimitada. A par da rádio e da TV, sempre foi objecto de análise por razões económicas, políticas e sociais. Mas, à medida que a tecnologia muda e os meios de comunicação convergem, como acontece no caso da Internet, os teóricos têm de ser mais flexíveis quanto às suas categorias de investigação.

Em parte, a Internet passou-lhes ao lado por, no início, ter sido construída, aos poucos e poucos, por carolas, estudantes e mesmo académicos. Outros, mais radicais, conhecidos pelo nome de «hackers», foram aparecendo pelo meio.

Por isso, a rede não se enquadrava na ideia que os investigadores tinham de «mass media». A telemática foi relegada para outros domínios do conhecimento, mais ligados à educação e aos negócios. Alguns chegaram mesmo ao ponto de, em manuais teóricos, compararem o computador ao telefone, pondo de lado a hipótese de encararem a comunicação por computador como fenómeno de comunicação de massas.

Pois bem, a prática está a demonstrar que os teóricos precisam de fazer uma revisão urgente das suas ideias. 1

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