Canudo universitário para ciberjornalistas

Hélder Bastos, JN, 11 de Maio, 1996
Lembram-se do tempo dos primeiros cursos de computadores para jornalistas? A cara que muitos destes faziam perante a possibilidade de terem de largar as suas queridas máquinas de escrever?

Agora imagine-se os esgares perante o seguinte anúncio: o primeiro curso de jornalismo «on line» vai arrancar, no próximo ano lectivo, numa universidade norte-americana.

Até prova em contrário, será a Universidade de Duquesne, em Pittsburgh, Pensilvânia, a arrancar com o diploma de jornalismo «on line», ou seja, apoiado ou feito integralmente em redes de computadores, como a Internet.

O departamento de jornalismo daquele estabelecimento de ensino oferecerá dois diplomas distintos: reportagem e edição «on line» e jornalismo «on line».

Visto deste cantinho pacato e pachorrento à beira mar plantado, dir-se-ia que os rapazes de Pittsburgh estão a pôr a carroça à frente dos bois.

Mas basta ver o número de anúncios de emprego que agora aparecem, por exemplo, nos grupos de discussão da Internet, pedindo jornalistas, editores e grafistas especializados na tal palavrinha «on line», para constatar que não. Estão a fazer uma aposta acertada.

No enorme mercado norte-americano dos jornais e revistas electrónicas já há lugar para disputas e contratos gordos com editores. E as edições electrónicas são mesmo levadas a sério.

Isto é, são encaradas não como um prolongamento ou montra das edições tradicionais, mas como produtos autónomos, com regras e exigências muito específicas. Não é por acaso que começam a dar lucro.

Veja-se um exemplo. A versão electrónica da cadeia televisiva CNN é considerada um dos melhores produtos jornalísticos da Internet. Tem milhões de consultas diárias a informações actualizadas 24 horas por dia.

Disponibiliza textos, fotos, excertos de sons e de vídeo. Tem vários anúncios publicitários que lhe dão bom dinheiro. Invejável.

Por detrás deste sucesso estão: um produtor executivo, dois produtores seniores, três produtores gerais, sete redactores, quatro revisores, sete produtores associados, quatro jornalistas multimedia, cinco designers, três editores de vídeo, um gestor de respostas dos leitores, três coordenadores «on line», três jornalistas da área do desporto, seis gestores de sistema, nove editores, um assistente editorial, dez técnicos e nove programadores. O sucesso da CNN na Internet custa o emprego de quase 80 pessoas.

Tendo em conta que, neste momento, cerca de 1200 meios de comunicação social, de mais de 150 países, têm o seu espaço na maior rede de redes de computadores do mundo compreende-se a necessidade de formar pessoal a nível superior.

Era bom começar a ouvir notícias de cursos nesta área feitos, pelo menos, em universidades europeias.

Caso contrário, é de adivinhar o início, nos próximos anos, de uma correria de estudantes do Velho Continente para universidades norte-americanas, como já acontece noutras áreas.

No curso de jornalismo «on line» de Duquesne os estudantes vão aprender a dominar uma data de coisas com nomes esquisitos, mas todos eles ligados ao mundo do ciberespaço: navegar na World Wide Web (WWW), escrever em programas de hipertexto (HTML), usar scanners e produzir gráficos, recolher e armazenar dados de agências e redigir notícias.

Numa fase mais avançada, aprenderão a fazer reportagens utilizando a Net como ferramenta principal. Além disso, não passarão sem aulas relacionadas com ética e teoria visual, entre outras. 1

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