TRABALHO E
EXCLUSÃO
Entre
universalização da guerra e universalização dos direitos.
by Giuseppe Cocco[1]
Na virada da
década, os impasses sociais dos planos de estabilização econômica estão se traduzindo
na volta poderosa das preocupações com as políticas públicas ativas de
desenvolvimento. As reuniões das maiores instâncias de governo supranacional do
mundo globalizado se tornaram, aos poucos, ocasiões de mobilização global de
sujeitos novos e múltiplos, portadores de novas reivindicações e de novas
práticas de luta. Entre Seattle e Gênova, um verdadeiro movimento dos
movimentos se constituiu: em julho de 2001, dezenas e até centenas de
milhares de manifestantes enfrentaram uma dura repressão policial para criticar
a reunião do G8 e o governo bizantino[2]
do Império[3].
No Brasil, as recentes eleições municipais foram um marco expressivo da vontade
popular para uma “guinada social” da política econômica. O primeiro
Fórum Social de Porto Alegre lhe forneceu um eco, uma visibilidade e
articulação em níveis mundiais.
Mas, por trás dos
horizontes novos que se abrem, os desafios que esta “inflexão social” enfrenta
para se tornar espaço concreto de políticas públicas de desenvolvimento[4]
constituem-se em enormes quebra-cabeças. Não poderíamos deixar de
enfatizar as dimensões dramáticas desta fase e destes desafios.
O quadro
internacional está sendo profundamente marcado pela tragédia do 11 de
setembro de 2001[5] e uma guerra
de dimensões e impactos dificilmente previsíveis está ocupando o horizonte de
um mundo globalizado onde “a política se reduz à polícia” e, pois, “a diferença
entre Estado e terrorismo tende a desaparecer”, formando “um sistema mortífero
no qual eles justificam reciprocamente suas ações”.[6]
Desenha-se um cenário de “oscilações caóticas” do sistema mundial sob os
impulsos de uma guerra que “não pode ser ganha nem perdida, mas que apenas pode
continuar”.[7] No nível
nacional (e até regional), a acentuada instabilidade financeira mundial
acelera o esgotamento das políticas de ajuste de tipo neoliberal que o
dramático impasse argentino já evidenciava, anunciando um novo ciclo de
constrangimentos econômicos e financeiros sobre a dinâmica industrial e as
políticas públicas. Mas não se trata apenas disso. Aqui no Brasil, as
apressadas análises das presumidas lógicas “criminosas” do PCC[8]
não conseguirão escamotear o fato de que o Estado de São Paulo (maior região
industrial do continente latino-americano, que já foi o berço das lutas operárias
que sustentaram e sobretudo qualificaram o processo de abertura democrática do
país[9])
hoje em dia é o teatro de movimentos de massa que têm suas bases materiais e
sociais numa população e num drama carcerários assustadores.[10]
Nesta situação,
feita de uma grande janela de oportunidades e de novos e velhos
constrangimentos, precisamos não descaracterizar o diagnóstico da
situação social (a exclusão) e dos desafios econômicos (as transformações do
trabalho e a integração dos mercados) que caracterizam o Brasil em face das
novas dimensões políticas de um mundo globalizado marcado, por um lado, pela
redução geral do papel dos estados e, por outro, por um aprofundamento das
dimensões unilaterais das políticas norte-americanas.
Podemos
esquematizar este diagnóstico da situação brasileira da maneira
seguinte: décadas de finalização autoritária e tecnocrática da economia aos
interesses do Estado deixaram em herança um país recordista mundial pela
desigualdade social e pela inflação. Uma década de finalização da sociedade aos
imperativos econômicos juntou às gritantes desigualdades geradas pela gestão
estatal dos interesses particulares as geradas pela gestão privada dos
interesses públicos. A construção da esfera pública da cidadania, condição
essencial para a redução das desigualdades e para a recomposição entre
dinâmicas econômicas e emancipação social, fica (no caso do desenvolvimentismo)
subordinada à constituição material das elites tecnocráticas de Estado ou (no
caso da desregulamentação e privatização neoliberais) relegada às suas
dimensões formais e ao jogo do poder de compra sancionado pelo mercado. Desta
maneira, a gestão centralizadora, autoritária, tecnocrática do desenvolvimento
pelo Estado constituiu-se paradoxalmente num custo pago pelas suas vítimas. A
truculência do interesse nacional justificou qualquer meio para alcançar um fim
que na realidade coincidia com os interesses dos corpos sociais que ocupavam e
controlavam o Estado. O formalismo acético do mercado, de suas técnicas e de
sua volatilidade submete e substitui os meios (de gestão dos grandes agregados
macro-econômicos e financeiros bem como de gerenciamento das grandes firmas)
aos fins. Num caso como no outro, setor Estatal e setor privado aparecem
como as duas faces de uma mesma moeda, duas constituições materiais
distintas de uma mesma apropriação privada do bem público. Nesta identidade
monstruosa de Estado e mercado reconhecemos a urgência de uma abertura e
de uma alternativa, além de um espaço público reduzido à lógica do mercado (quer
dizer, do poder de compra) ou estilhaçado pelas lógicas corporativas (e
muitas vezes criminosas) do centralismo estatal.
A incapacidade do
Estado, em todos os seus níveis, de gerar e gerir reais processos de universalização
dos direitos encontra hoje a incapacidade do mercado de se constituir numa
dinâmica universalizadora alternativa ao passo que, no nível mundial, o
movimento dos movimentos precisa saber colocar-se como a verdadeira alternativa
à guerra que um poder imperial unilateral e seu duplo teocrático estão impondo
ao mundo.
Em
suma, dramaticamente, está aparecendo um tempo novo, feito de grandes
incertezas e de grandes oportunidades. O que precisamos pensar é,
exatamente, a transformação das incertezas em oportunidades. Isso significa,
antes de mais nada, conseguir colocar uma série de questões adequadas às
mudanças e aos conflitos em curso. Neste sentido, as reflexões sobre as
relações ambíguas entre trabalho e exclusão num país cada vez mais
intensa e violentamente inserido nos fluxos da globalização podem ser de grande
utilidade.
* * *
Se
o projeto neoliberal está em crise, as políticas neoliberais permanecem e
atravessam o tempo dos ciclos políticos e os espaços das diferentes coligações
governamentais e/ou das diferentes trajetórias nacionais. Neste paradoxo, de um
projeto neoliberal esgotado em face da continuidade das políticas neoliberais,
cabe avançar algumas perguntas. Não será que, justamente no momento de
esgotamento do neoliberalismo, estará se menosprezando a profundidade da crise
do Estado? Não será que, desta maneira, perdemos de vista a correlação que liga
a crise do Estado à crise da relação salarial moldada no chão fabril? Não será,
enfim, que pela subestimação da crise do Estado e de sua ligação com a crise da
relação salarial está se perdendo a capacidade de entender o papel que o novo
regime de acumulação (baseado no conhecimento e na informação) está atribuindo
ao mercado?
Nossa hipótese é que, por
trás da velha retórica liberal (a sede de ganho individual como motor da
produção de riqueza e a racionalidade pública como fruto dos egoísmos privados:
a mão invisível de Adam Smith), o “neo” liberalismo tem objetivos e urgências
de tipo novo, profundamente fincadas na materialidade do novo regime de
acumulação. Em particular, o neoliberalismo constituiu-se numa resposta
pertinente (fortemente menosprezada pela crítica) à crise do Estado. Uma
resposta cuja potência estava (e ainda está) no entendimento das origens desta
crise. Neste sentido, podemos dizer que “por trás do mercado do liberalismo
(precisamos enxergar) a marcha da liberdade”.[11]
Ao
longo dos anos 80 (primeira onda da ofensiva neoliberal nos países centrais) e
dos anos 90 (período neoliberal no Brasil) a oposição de esquerda (incluindo as
organizações sindicais) se juntava, paradoxalmente e mecanicamente, às
tradicionais defesas do Estado[12]
para, no fundo, defender o futuro do trabalho em função de uma impossível
sobrevivência do emprego industrial e da relação salarial. No entanto, o
pragmatismo neoliberal conquistava uma vantagem considerável apreendendo, em
primeiro lugar, que a crise do emprego apenas constituía o fenômeno mais
superficial da crise irreversível da própria relação salarial e, em
segundo lugar, que esta determinava a crise do Estado e não vice-versa.
Com
efeito, a tradicional crítica de esquerda ficou presa por mais de duas
décadas (e ainda não dá para dizer se esta armadilha está sendo superada) em um
duplo viés ideológico: trabalhista e “estatalista”. O Estado continuou
a ser indicado como único ator capaz de regular o mercado, ao passo que as
conquistas sociais do trabalho na sua forma assalariada se tornaram um
horizonte insuperável das lutas sociais. O Estado do trabalho,
codificado às vezes nas cartas constitucionais na forma de “direito ao
trabalho”, em vez de ser encarado como o maior instrumento da ordem capitalista
do trabalho, da disciplinarização da sociedade como um todo sob o regime de
fábrica, tornou-se o baluarte de resistência. Da mesma maneira, o emprego
industrial, forma mais sofisticada de controle (e da redução) da liberdade do
trabalho vivo pelo seu assalariamento, tornou-se um valor em si.
Os
paradoxos das posturas políticas derivadas destas posições ideológicas e
cada vez mais absorvidas pela defesa de interesses corporativos são evidentes.
O primeiro deles tem a ver com a “defesa do emprego” como emprego
assalariado da grande indústria. A “maldição do trabalho assalariado” é desta
maneira transformada, na melhor das hipóteses, num mal necessário, e, na pior
das hipóteses, em uma “virtude”. O segundo, correlato deste, é a defesa da
grande indústria, em seguida da grande indústria nacional e, algumas vezes,
em tomadas de posição extremamente ambíguas sobre os fenômenos das migrações
internacionais.[13] O terceiro
paradoxo, mais geral, tem a ver com o fato de toda uma série de organizações da
esquerda ser fortemente comprometida com a defesa de privilégios
corporativos que, nas economias periféricas e no Brasil em particular, nem
chegaram a ser objeto de um processo de universalização negociada. A partir do
postulado de que tudo que é estatal é bom, defendem-se as empresas estatais
pelo seu estatuto formal de propriedade, e não pelo que elas materialmente são.
Em vez de denunciar na privatização uma mudança superficial do modo de
apropriação privada do bem público, defende-se o estatuto do controle estatal
das empresas porque haveria uma identidade imediata entre público e estatal. No
mesmo sentido, mas de maneira ainda mais grave, mistura-se a defesa dos
direitos adquiridos com a prática plurissecular de privilégios que o Estado
desenvolvimentista soube manter e hibridar a partir da herança dos períodos
colonial, imperial e republicano.
A crise da relação salarial como causa da crise do Estado
Como antecipamos, nossa hipótese é
que a crise do Estado veio para ficar e não foi o fruto das políticas
neoliberais. Ao contrário, essas encontraram sua força na crise do Estado e na
interpretação correta de suas causas. Isto significa que a relação salarial não
entra em crise por causa das reformas neoliberais de redução da regulação
estatal do mercado, pois a crise do Estado é o fato da crise da relação
salarial de tipo fabril.
Sabemos
que, nos países centrais, as primeiras manifestações da crise do Estado keynesiano
e fordista, nos anos 70, tinham a ver com os déficits estruturais e crescentes
dos orçamentos públicos (dos Estados centrais bem como dos estados e/ou regiões
provinciais e das grandes cidades). A análise pioneira de James O’Connor sobre
a “crise fiscal” do Estado se tornou, justamente nessa época, uma referência.[14]
A partir desta evidência, pareciam inevitáveis duas posições, opostas mas
fundamentalmente atreladas a este mesmo diagnóstico: em face dos crescentes
desequilíbrios das contas públicas era preciso fazer algo, ou no sentido de
reduzir os gastos públicos (a posição de direita) ou de adequar a pressão
fiscal de maneira a sustentar com recursos crescentes a expansão desses gastos.
Mais de 30 anos depois, sabemos que as tentativas neokeynesianas dos anos 70
(de aprofundamento dos déficits para alavancar um novo ciclo de crescimento)
terminaram abrindo um longo período de hegemonia neoliberal. Sabemos também
que, contrariamente ao que prometiam, os governos de Mrs. Thatcher (na
Grã-Bretanha) e de Ronald Reagan (nos Estados Unidos) não conseguiram reduzir
os desequilíbrios das contas públicas. Isso porque os neoliberais trabalharam
a crise do Estado do ponto de vista das transformações das relações entre
capital e trabalho e tentaram construir um novo consenso social contra o
pacto social corporativo de origem fordista. Indubitavelmente, eles
conseguiram mobilizar neste sentido novas camadas sociais de classe média e de
trabalhadores não estruturados dentro da relação salarial da grande fábrica, mas
não conseguiram traduzir a extensão desta nova base social em uma força
expressiva capaz de realmente comprimir os gastos públicos. O sistema de welfare
mostrou seu chão de irreversibilidade e substituiu o conceito keynesiano de
“rigidez dos salários a diminuir” por uma material “rigidez do sistema de welfare
a diminuir”.[15] Com efeito,
da mesma maneira que sua crise não era uma questão de equilíbrio contábil,
apareceu com clareza que a própria mecânica do kenesianismo-fordismo não estava
assentada em nenhum equilíbrio das contas públicas, mas na sua capacidade de
encontrar, na relação salarial da grande fábrica, o padrão de referência para
manter gastos e receitas proporcionais. Com outras palavras, podemos dizer que
o keynesianismo era, pois, uma máquina de proporcionar (no sentido de tornar
comensurável) a sociedade inteira em torno da relação salarial da grande
fábrica.[16]
A
crise do fordismo-keynesianismo é, pois, crise de proporções pela incapacidade
da relação salarial em reproduzi-las. Em última instância, a crise é crise
da relação salarial. A incapacidade da relação salarial para reproduzir as
grandes proporções do welfare se traduziu na crise da constituição
material que lhe era própria. Nesta, o fato de “ter direito aos direitos”
estava completamente subordinado à integração produtiva dentro da relação
salarial. A integração cidadã era segunda e derivada com relação à integração
produtiva. Ter clareza com relação a isso permite desmontar um outro mito:
a crença de que os desníveis em termos de universalização dos direitos entre as
economias centrais e as periféricas fossem a conseqüência dos desníveis de
democracia formal que caracterizariam os países do Norte (desenvolvidos) com
relação aos do Sul (subdesenvolvidos). Muito pelo contrário, a universalização
dos direitos era, antes de tudo, universalização da relação salarial e a
clivagem entre o “Norte” e o “Sul” está inscrita, muito antes que na forma
Estado, nas constituições materiais produzidas pelos processos de
assalariamento constrangido que caracterizaram os países do Sul, e em
particular o Brasil.
Isso
significa que, para ter acesso ao conjunto de bens que constituíam a
materialidade dos direitos (moradia, saúde e ensino públicos, bens de consumo
duráveis e serviços públicos: o telefone por exemplo!), era preciso ser um
trabalhador assalariado, antes nas camadas de trabalho intelectual de controle
e, depois (isso apenas nos países centrais), no trabalho operário de produção.[17]
Era porque se estava integrado a esta relação de produção que se tinha acesso
aos bens e aos serviços. No Brasil (de maneira emblemática), houve sim um
processo de industrialização e, com ele, a edificação de um complexo sistema
estatal de serviços que abasteceram um consumo cada vez mais sofisticado por
parte das classes médias e, no período mais recente, de porções restritas do
operariado (que, aliás, chegou a constituir-se em maioria social apenas em
algumas regiões da Grande São Paulo). Desta maneira, ao contrário dos países
centrais onde o acesso a esses bens se universalizou, no Brasil eles ficaram
restritos às classes médias e, às vezes, como no caso do telefone[18],
às camadas mais privilegiadas da sociedade. A relação salarial de tipo fordista
(formal, da grande fábrica, com negociação sindical) estruturava, pois, o acesso
à cidadania material. Quando ela era limitada a uma porção da sociedade, seu
sistema de consumo também se encontrava restrito e a intensa intervenção do
Estado (na regulação dos mercados pela proteção da indústria nacional e pelo
controle da produção e distribuição dos serviços) não mudava o quadro em
absolutamente nada. Ou seja, o que fazia diferença não eram a constituição
formal e o nível de intervenção estatal, mas a constituição material (as bases
sociais da dita intervenção estatal).
A
crise do Estado é crise desta constituição material e ela é o fato, antes de
mais nada e para além das diferentes constituições formais (e dos níveis de
desenvolvimento), das transformações do trabalho. Não devemos deixar que
os neoliberais a interpretem melhor do que a crítica. A crítica da crítica se
torna de extrema urgência.
Crise e nova centralidade do trabalho vivo
A
“crítica da crítica” se torna urgente, em particular, no que diz respeito ao debate
brasileiro sobre transformações do trabalho. Na realidade, este debate sobre
reestruturação produtiva e globalização se faz no marco geral de uma crítica do
trabalho bastante estanque e, paradoxalmente, “conservadora”. No Brasil, as
causas destas resistências à inovação das ferramentas teóricas da crítica do
trabalho são múltiplas. Boa parte delas é de origem ideológica, e outras – mais
legítimas – estão inscritas nas específicas dimensões estruturais do mercado do
trabalho e da relação salarial no Brasil.
No
plano ideológico, há diferentes tipos de “resistências”, mas podemos facilmente
atribuí-las (sem com isso querer reduzi-las a essa) à hegemonia de uma visão
teórica, herdada de um certo marxismo ortodoxo e de uma certa tradição do
“movimento operário organizado”, que vê a emergência da classe (e de suas
organizações) como uma conseqüência da relação de capital e, pois, identificando
os destinos dos trabalhadores com os da relação salarial, hipotecando a
vitalidade das lutas ao andamento da curva do emprego (formal e preferivelmente
de tipo industrial!). Como apontamos acima, de maneira paradoxal e grotesca, um
batalhão de críticos ferrenhos do neoliberalismo acaba postulando que o
horizonte das lutas precisa e depende da submissão à “maldição do trabalho
assalariado”. Se esse é o pano de fundo geral, que obscurece qualquer
possibilidade de pensar a constituição do trabalho (e portanto de sua crítica)
“fora” da relação de capital (que tornaria a “maldição” do trabalho assalariado
“dispensável”), há também outros vieses ideológicos que fazem do trabalho
material um valor em si. Estes recusam a possibilidade de apreender a
transformação da própria substância do trabalho pelo simples fato de que
continuam repetindo o enredo de um “desenvolvimento das forças produtivas (que)
possibilitou a ruptura com as antigas concepções religiosas”[19]
e de uma noção de trabalho que, embora reivindicando-se do método marxiano (a
centralidade ontológica do trabalho), o submete à instrumentalidade da dinâmica
da técnica (e de sua “transformação da natureza”[20]).
No
plano mais estrutural, o desenvolvimento “constrangido” (ou periférico) da
relação salarial de tipo canônico[21]
fez com que, no Brasil, o mercado do trabalho formal sempre convivesse com
importantes bolsões de miséria e com um trabalho informal que lhe era (e ainda
é) profundamente correlato. Ao mesmo tempo, a explosão da informalidade e de
toda forma de precarização do trabalho (e da vida) acontece numa situação de
ausência de um verdadeiro sistema de welfare e, pois, dos diversos
dispositivos de cobertura social dos quais os trabalhadores precários podem
dispor na Europa Ocidental (e também, embora em menor medida, nos EUA). Com
efeito, a mistura de antigas e novas formas de informalidade e flexibilidade
(e de exclusão) impõe, no caso brasileiro, oportunas traduções das
contribuições teóricas baseadas nas transformações materiais das economias
centrais.[22] Mas estas
restrições soam de maneira ainda mais problemática para os defensores de uma
centralidade do trabalho fundamentalmente ligada a seus moldes fabris: por um
lado, porque a relação salarial de tipo fabril só envolve porções restritas da
população brasileira; por outro, pelo fato de que, menos no caso
(importantíssimo, porém restrito) do pólo automobilístico do grande ABC
paulista, o acesso à relação salarial de tipo fabril não foi garantia de acesso
material aos direitos, ou seja, de uma verdadeira inserção cidadã dos
“trabalhadores”[23]. Enfim, a
modernização dos processos de trabalho (acelerada de maneira irreversível pela
abertura econômica do país ao longo dos anos 90) já aponta de maneira
dramaticamente clara a divergência entre dinâmica industrial e dinâmica do
emprego industrial.[24]
O
desafio é, pois, o de ultrapassar estas limitações ideológicas e/ou
estruturais, alcançar um novo patamar na reflexão crítica sobre as
transformações do trabalho e enfrentar da maneira mais aberta possível o debate
sobre a força de fragmentação social que o novo regime de acumulação acarreta.
Isto significa abandonar, ao mesmo tempo, todo o saudosismo pelas grandes
homogeneidades da época taylorista e todo o determinismo implícito nas análises
que apontam, na emergência dos paradigmas produtivos do pós-fordismo, apenas os
determinantes da reorganização, especializada e flexível, do capital e de suas
firmas.
A
reestruturação industrial, a emergência de um regime de acumulação globalizado,
baseado na produção de conhecimentos e num trabalho vivo (cada vez mais
intelectualizado e comunicativo) podem (e devem) ser pensados como processos
contraditórios, nos quais a contradição não é a que os opõem ao passado das
homogeneidades fabris, mas a que se encontra no presente das novas formas de
exploração e da composição técnica do trabalho, nas novas lutas do proletariado
e, em particular, do proletariado urbano. Isto passa, justamente, pela
recuperação das dimensões constitutivas, e por isso revolucionárias, do
trabalho vivo.
Nesta
perspectiva, a literatura sobre emergência da nova centralidade do trabalho
vivo e sobre trabalho imaterial representa uma contribuição de peso.
Inicialmente limitada a círculos políticos e acadêmicos restritos, a abordagem
em termos de trabalho imaterial acabou desbordando-os e se tornou, na virada
desta década, um referente obrigatório.[25]
O peso de suas implicações políticas se encontra no eco provocado pelo último
livro de Antonio Negri sobre o “Império”[26]
e na apresentação de suas teses na terceira página do Le Monde Diplomatique
dedicado ao Fórum Social de Porto Alegre.[27]
À
medida que a noção de trabalho imaterial encontra sua legitimidade de
importante contribuição crítica ao novo regime de acumulação capitalista, esta
literatura que finca suas origens no “operaismo”[28]
italiano dos anos 60 começa a chegar ao Brasil e à América Latina. Muitas vezes
se trata de uma abertura bem superficial, pois o imaterial é integrado só
para reduzi-lo ao material.[29]
É a operação que faz Ricardo Antunes: a apresentação das teses sobre
desmaterialização do trabalho é finalizada à manutenção das duplas tradicionais
que opõem “trabalho e interação, (…), práxis laborativa e práxis interativa
ou intersubjetiva”[30]
e, por final, destinada a poder afirmar que o “estranhamento (…) do trabalho
encontra-se, em sua essência, preservado”.[31]
No fundo, estes autores nos dizem que, na medida em que “a internet só é
virtual até a venda das mercadorias, cuja produção e entrega seguem se dando no
campo da <<velha economia>>”, podemos continuar confiando nas “leis
básicas do sistema capitalista”.[32]
Mas,
apesar destas resistências e destas operações, as contribuições teóricas em
termos de trabalho imaterial estão se tornando cada vez mais importantes.
A
passagem para o pós-fordismo indica, antes de tudo, a instalação de novas
relações entre a fábrica e o território, entre as forças de trabalho e a sociedade,
entre os serviços e os usuários. O paradigma fundamental do pós-fordismo como
modo de produção largamente socializado, baseado portanto sobre a comunicação
social (esta é que alimenta a inovação, as tecnologias da informação e a
chamada economia do conhecimento) de atores flexíveis e móveis, é o do trabalho
imaterial. O trabalhador do imaterial aparece como uma força de trabalho
com novas características. Trata-se de um trabalhador dotado de uma capacidade
de gestão das relações sociais que supera o perímetro da empresa; suas
qualificações dependem diretamente da sua capacidade de desenvolver, ao mesmo
tempo, atividades culturais (informacionais) e de tipo gerencial. Enquanto o
trabalhador taylorista executava em silêncio as ordens hierárquicas encravadas
no barulho da maquinaria, o trabalhador pós-fordista trabalha falando,
comunicando. O trabalhador imaterial produz, inova, coordena e consome. Ele
produz o conteúdo cultural e informacional da mercadoria e seu ciclo de
produção e reprodução. A gestão da produção just in time, por exemplo,
não depende de questões técnicas, mas dos resultados de uma gestão adequada da
informação na produção e, fora dela, nas redes de distribuição-comercialização.
O trabalhador imaterial produz também as condições de produção.
A emergência do trabalho imaterial
determina, portanto, uma transformação radical dos papéis, das relações e das
hierarquias que caracterizam e estruturam o sistema industrial e sobretudo sua
inserção no espaço metropolitano. Pois é a tradicional separação entre produção
e reprodução que entra em crise. O paradigma pós-fordista define-se como
“paradigma social” exatamente porque o novo modo de produção integra estes dois
momentos e faz com que a circulação e a comunicação se tornem imediatamente produtivas.
O trabalho imaterial tira sua centralidade de sua ambivalência, ou seja, de seu
funcionamento como interface entre esses dois momentos. Nele é que encontramos
os elementos de superação da crise do modelo estético que a integração dos
momentos de concepção, produção e consumo automaticamente implica.[33] O trabalhador imaterial é ao mesmo tempo
produtor e consumidor das soluções estéticas. Ele é que pode e sabe, pelo agir
comunicativo que sua socialização permite, produzir e reproduzir os estilos ao longo
de uma trajetória infinita de hibridações[34] e proliferações[35] criativas. E, para que o trabalhador
imaterial possa chegar a ter esse papel central na expansão da produção de
riqueza, é preciso que ele consiga lidar com as dinâmicas de desterritorialização
(e universalização) dos mercados. Figura de um intelecto que, generalizando-se,
tornou-se público, o trabalho imaterial organiza sua potência criativa nos
processos de reterritorialização que fazem das metrópoles (onde proliferam as
Bacias de Trabalho Imaterial) os elos estratégicos das novas realidades
produtivas e, ao mesmo tempo, dos novos conflitos sociais (como foi o caso da
primeira grande greve metropolitana em Paris, em dezembro de 1995[36]). Como elemento qualificante e
estruturador dos novos modos de produção, o trabalho imaterial envolve um
processo de subjetivação do trabalhador imaterial[37] que só pode acontecer no quadro de um
entrecruzamento do tempo de trabalho e do tempo da vida, cujo espaço é a
cidade. A passagem de uma produção de grande escala e de um consumo de massa de
produtos estandardizados a uma produção flexível como resposta a um consumo
rearticulado (e diferenciado) pela comunicação implica a transformação da
sociedade disciplinar e de suas balizagens institucionais. No fordismo, a
valorização visava aos corpos disciplinados na fábrica taylorista (bem como nas
outras instituições totais: escolas, hospitais, quartéis...) e implicava uma
separação conseqüente da estrutura produtiva em face do território. Na
sociedade pós-fordista, é a alma que se mobiliza no trabalho; a valorização não
conhece mais limites, nem espaciais (a fábrica, o ateliê, o escritório...) nem
temporais (pois ela envolve o tempo de vida como um todo). Nesta perspectiva é
que temos que trabalhar as dinâmicas dos novos conflitos sociais e as novas
figuras da subjetividade.
Trabalho
imaterial, capitalismo cognitivo e espaço público
Em função desta centralidade do
trabalho vivo, de “trabalho não materializado mas vivo, que existe como
processo e como ato”, como dizia Marx, podemos entender a força do projeto
neoliberal, bem como a lógica do capitalismo cognitivo e/ou da chamada economia
do conhecimento. Não se trata de negar a retórica da New Economy, mas
sim de ver se há algo novo do lado do antagonismo. O novo não está do lado do
comando, mas nas conseqüências de uma centralidade do trabalho vivo que acaba
recompondo tempo de vida e tempo de trabalho e tornando a cidadania uma
condição a priori da mobilização produtiva.[38]
Isso significa que a “constituição material” (o fato de “ter direito aos
direitos”) pode virtualmente emancipar-se da subordinação à relação de capital
e que a “maldição do trabalho assalariado” pode enfim se tornar “dispensável”.
No meado dos anos 80, tudo isso
podia aparecer como uma antecipação extrema da tendência. Muito pelo contrário,
na noção de trabalho imaterial já tínhamos todos os elementos para apreender as
novas contradições e as determinações antagonistas e sociais dos processos de
inovação ligados ao uso intensivo e extensivo das novas tecnologias da
informação e da comunicação. Na figura do trabalhador imaterial, a máquina
aparecia claramente como uma “máquina social”, ao passo que a produção de
informação fugia a toda redução quantitativa ao estatuto de commoditie[39]
para se qualificar em termos de singularidade criativa.
A
dinâmica paradoxal do capitalismo cognitivo[40]
é emblemática desta nova janela de luta e de seus desdobramentos. Com efeito,
na era do conhecimento, a valorização do capital passa por um jogo de constituição
do tempo que os economistas definem como o fato da oposição entre aceleração
da difusão e desaceleração da socialização dos produtos do trabalho
cognitivo. Por um lado, o capital pretende estabelecer o domínio do futuro, de
um tempo constituído pela aceleração da difusão (que aumenta o valor). Pelo
outro, o capital precisa enfrentar a potência do devir, desacelerar e fechar o
tempo constituinte da socialização do trabalho vivo (que diminui o valor). Mais
uma vez, o tempo constituído e fechado do trabalho morto se opõe ao tempo
constituinte e aberto do trabalho vivo. Mas, desta vez, a oposição é
substancialmente diversa, pois ela é improdutiva e implica na metamorfose da
própria substância da riqueza.[41]
Em sua forma tradicional, a riqueza e o valor coincidiam, ao passo que o
tempo de trabalho e o de vida se separavam a até se opunham. O imaterial era um
meio de produzir submetido ao material e constituía um mundo de produção
composto de bens materiais e serviços reproduzíveis e substituíveis. A
valorização alimentava-se pela vigência dos princípios de raridade e de
utilidade marginal. Em sua nova substância, o aumento da riqueza implica
na diminuição do valor. O material (o hardware bem como o software)
é um meio de realização do imaterial (da criatividade livre do trabalho vivo)[42].
E isso na medida em que a aquisição de bens e serviços é um meio de se fruir da
vida, de se criar um excedente de ser. O tempo de trabalho é recomposto em um
tempo de vida, ou seja, na constituição de um “ser” singular e comum capaz
de “criar configurações inusitadas”. A riqueza coincide, pois, com a própria
vida e sua potência. Neste sentido é que podemos realmente “pensar pelo avesso”[43]:
o capital é inútil à mobilização produtiva do trabalho vivo (da vida) e toda
hierarquização deste às suas configurações mortas é, esta sim, fictícia e
parasitária.
A equação capitalista entre
uma difusão cada vez mais rápida em face de uma socialização que deveria ser
cada vez mais lenta se faz a custos incalculáveis. Os produtos do trabalho
cognitivo (ou imaterial) não precisam da relação de capital para ser produzidos
e não pertencem mais ao capital, pois eles coincidem com as próprias relações
sociais de cooperação. A dimensão privada da riqueza como valor se sustenta na
base da afirmação abstrata e arbitrária do direito de propriedade. Esta
“sustentação” privada da riqueza para manter a extração de valor acaba
reduzindo dramaticamente o potencial produtivo de riqueza. Quando a lei do
valor é reafirmada, ela se torna antiprodutiva.[44]
Para se tornar valor, a riqueza deve ser difusa (pública), mas não pode ser
socializada (comum). O público e o comum são mantidos separados. Esta é
a força (o público, a difusão: os celulares para todo o mundo; a internet
grátis; o baixíssimo custo dos hardwares e ainda mais baixo dos softwares)
e a fraqueza (a discriminação na base do poder de compra do uso real dos
serviços; os obstáculos à proliferação criativa dos usos das informações e de
suas ferramentas impostos pela lógica proprietária do copyright) da
proposta de universalização das condições de ter direito aos direitos via
mercado. Mas isso não deve permitir que se esqueça o quanto o capitalismo
cognitivo procura (e precisa) o/do público e como isso pode ser um vetor de
inovação paradoxal naquelas situações, como a brasileira, em que os
dispositivos de distribuição da riqueza e de acesso aos serviços eram e são, na
base da mediação de um estado autoritário, burocrático, racista e tecnocrático,
ainda mais atrasados (menos públicos e em nada comuns) do que os mecanismos que
o mercado oferece.
A equação do capitalismo cognitivo é
paradoxal e se reproduz a custos incalculáveis, pois a produção da riqueza não
pode mais se separar das condições de sua fruição: produzir o mundo é a mesma
coisa que fruí-lo. A substância da riqueza depende da relação íntima e
inquebrável de suas dimensões públicas e comuns: é o que emerge nos
primeiros passos de um novo direito público, em particular na lógica pública da
proteção do trabalho comum (da socialização). A lógica pública (do copyleft[45])
se opõe à lógica proprietária (do copyright) à medida que ela se
qualifica pela proteção do comum, ou seja, dos produtos da atividade humana
(por exemplo, as externalidades positivas e os usos inovadores). Os novos
territórios produtivos são justamente os desenhados pela convergência do
público e do comum.[46]
Estado, mercado e constituição do comum: tornar públicas as
universidades brasileiras
As relações entre Estado e mercado,
bem como a dimensão do projeto neoliberal, aparecem numa luz nova. Não podemos
nos limitar às interpretações exógenas (em termos de financeirização e de
globalização). Devemos, pois, usar a crítica do projeto neoliberal apreendendo
o fato de que ele encontra sua força constituindo-se como resposta a uma crise
do Estado determinada pela crise da relação salarial.
Ou
seja, devemos lembrar que a reorganização neoliberal do Estado (que é muito
mais do que sua mera redução)[47]
está ligada a um duplo fenômeno: por um lado, o esgotamento do processo de
universalização das bases materiais da cidadania fundamentado na
universalização da relação salarial; por outro, a afirmação paradoxal de um
regime de acumulação no qual os serviços se tornam produtivos e, pois, a
cidadania se torna a condição necessária à inserção produtiva. Contrariamente
ao que se diz e ao que se pensa, o projeto neoliberal é muito mais ambicioso de
que a mera procura da “privatização” dos lucros de algumas estatais (por
importantes que eles sejam). A ambição dos neoliberais é de oferecer um
projeto, de afirmar a desregulamentação e a privatização como mecanismos mais
universalizadores do que aqueles que o Estado conseguia produzir. É nesta
medida que o mercado é posto como o melhor mecanismo substitutivo da relação
salarial.
A
competição e a flexibilização pretendem se afirmar como os princípios mais
eficazes de difusão e democratização dos bens que tornam as redes sociais
produtivas. É, aliás,
justamente nos países (como o Brasil) nos quais a relação salarial não tem se universalizado
e a cidadania (para além os privilégios restritos de umas pequenas camadas do
funcionalismo público[48])
é completamente subordinada ao arbítrio do Estado que a proposta neoliberal se
traduz por contundentes políticas de universalização via mercado.[49]
É
neste nível que devemos situar a crítica: entender os novos (e potenciais)
movimentos antagonistas apreendendo as contradições novas que estes
deslocamentos determinam. A nosso ver, isso significa abandonar definitivamente
a velha perspectiva de uma reconstrução do público a partir do reforço do papel
do Estado. Trata-se, ao contrário, de aproveitar as brechas ligadas a seu
enfraquecimento, aprofundar o processo de libertação que os neoliberais tentam
usar e canalizar para constituir o público. Os elementos potentes da nova
contradição estão inscritos, de um lado, numa privatização que promove a
apropriação restrita de bens cuja produtividade é diretamente proporcional ao
nível de sua publicidade; e, de outro, numa desregulamentação que acaba
substituindo aos monopólios estatais os dos grandes grupos multinacionais e
que, pois, se mostra incapaz de sustentar um verdadeiro processo de
democratização, ou seja, de construção do comum.
Desta
maneira, a privatização reduz o “público” ao que pode ser comprado (e o
cidadão, ao consumidor dotado de um poder de compra), ao passo que a
desregulamentação limita-se à difusão (como no caso da lógica do copyright)
e, opondo-se à socialização, fragmenta o “comum”. O projeto neoliberal não funciona
porque ele é apenas superficialmente pós-estatal. Na realidade, o mercado
reproduz o Estado pela separação do público e do comum e deve ser criticado
porque se mostra claramente incapaz de produzir um novo regime de
universalização dos direitos. Nele, a cidadania formal fica definitivamente
separada da cidadania material (até porque ela não tem nem aqueles mecanismos
integradores que a própria expansão industrial lhe garantiam) e se reproduz na
forma de um poder transcendente sem mediações.
Só
o movimento do trabalho vivo é capaz de afirmar a relação que liga, de maneira
imanente, o público ao comum, a liberdade à igualdade. É nesta perspectiva que
precisamos romper com a falsa alternativa “Estado versus mercado”
e com sua imagem reflexa, a que opõe as políticas neoliberais às resistências
corporativas.
Um
locus estratégico deste embate é a universidade pública e, mais
em geral, todo o sistema de ensino, geração e difusão do conhecimento no
Brasil. As universidades públicas brasileiras, em geral, e as federais,
em particular, estão atravessando uma fase particularmente difícil nesta virada
de década. A cada ano greves prolongadas – dos professores, bem como dos
servidores – tentam quebrar o arrocho salarial que praticamente vige desde a
implementação do plano real. Mas, apesar de sua duração e repetição, estas
greves nunca se desdobraram em um processo de mobilização expressiva das
categorias envolvidas, ainda menos em mobilizações sociais de massa em torno
das “lutas” das universidades. A cada ano, há um esboço de mobilização
estudantil, mas sempre muito reduzida e fraca. Ela nunca ultrapassa
verdadeiramente o estágio de iniciativa de apoio às reivindicações dos
professores e de uma genérica defesa de uma universidade “pública, gratuita e
de qualidade”.
Muito
além de um rumo alternativo, aparece a desconfortável evidência de que o
conjunto dessas mobilizações, sindicais e institucionais, acaba convergindo na
defesa de algo que na realidade aparece ser um tipo de Status Quo.
Cavando um pouquinho a linguagem superficialmente oposicionista, encontraremos
comportamentos conservadores amarrados a objetivos profundamente não
universalizantes e, o que é mais grave, fortemente aliados a teimosos
privilégios corporativos. No nível dos objetivos, eles se resumem substancialmente
a dois[50]:
reivindicação de aumentos salariais lineares em percentual e de vagas
para novos professores. Agora, o mais elementar dos cálculos aritméticos
permite constatar que todo aumento salarial linear em percentual é
profundamente injusto em si (pois ele privilegia os altos salários) e ainda
mais iníquo numa grade salarial altamente desigual, como é o caso do Brasil em
geral e do sistema público brasileiro em particular. Os aumentos lineares em
percentual não reduzem as desigualdades, mas as confirmam[51]
e aprofundam[52]. Qualquer
seja a justificativa mobilizada[53],
ela não saberá escamotear o fato de que este objetivo é profundamente
corporativo e, pior, subordinado à lógica de segmentação e discriminação que
caracteriza a pirâmide dos salários no serviço público.[54]
Mas, se
analisarmos as plataformas dos sindicatos das universidades públicas do ponto
de vista dos objetivos que faltam, os elementos de corporativismo
aparecerão de maneira ainda mais impiedosa. A primeira série de objetivos
que faltam tem a ver com a mais completa ausência de denúncias (e de
reivindicações conseqüentes) do emaranhado de injustiças e privilégios que
caracteriza a gestão estatal (federal e estadual) do funcionalismo público em
geral e das universidades em particular: incorporação salarial das
gratificações, acúmulo de aposentadoria (na maioria dos casos ainda “especial”)
e outros cargos públicos (inclusive nas mesmas funções e eventualmente em vagas
abertas por essas mesmas aposentadorias) tornam as remunerações salariais iníquas
e absurdas. Mas a segunda[55]
e mais grave série de objetivos que faltam tem a ver com a ausência do
mínimo compromisso com as dimensões públicas da universidade, ou seja, com sua
abertura para a sociedade, para que as populações excluídas tenham acesso
ao ensino superior. É o mundo pelo avesso: o serviço público de qualidade e
gratuito funciona sobretudo para as camadas mais privilegiadas da sociedade,
pois o vestibular constitui uma barreira intransponível para os alunos egressos
do sistema de ensino público secundário.
Em face deste
verdadeiro drama, que aliás alimenta bons negócios para as universidades
particulares,[56] as posições
quase que unânimes dos sindicatos e da “comunidade” acadêmica nas universidades
federais (e estaduais) são de tipo oportunista e conservador. Oportunistas,
pois se escondem atrás das falhas do sistema de ensino público secundário,
quando é evidente que, no curto e médio prazo, essa “dívida” social só pode ser
enfrentada à medida que se mobiliza o que o setor público tem de melhor: suas
universidades (submetidas, sim, a arrocho salarial e a problemas de
infra-estrutura, mas onde os salários dos professores ainda são bons e
sobretudo os níveis de capacitação do corpo docente permitem manter um bom
patamar de qualidade), que deveriam ter programas e metas de aumento do tamanho
das turmas de ingresso ao conjunto dos cursos (sem contar o que as
universidades poderiam fazer para participar de programas de capacitação dos
professores do secundário). Conservadoras, pois continuam usando aquele
típico argumento da direita que consiste muito simplesmente em opor a
quantidade à qualidade, quando todo projeto democrático e universalizador
deveria visar à recomposição desses dois termos: ter o melhor para todo mundo.
Quando passamos estas
avaliações ao crivo dos dados mais básicos sobre a estrutura do sistema
universitário público, temos uma visão ainda mais nítida do bloqueio
corporativo e das ambigüidades que caracterizam a questão do ensino no Brasil.
A relação professor/aluno (1/10)[57]
é baixíssima, ao passo que a taxa de evasão é elevadíssima (entorno de 50%). Se
tomarmos o caso da UFRJ a exemplo (ou seja, da maior universidade federal do
Brasil), os indicadores são assustadores e insustentáveis: em 2000, com 26.117
alunos de graduação (dos quais apenas 22.990 ativos, os outros tendo trancado),
a UFRJ dispunha de 12.291 funcionários, dos quais 3.691 professores: o que
significa uma folha de salário a cada 1,8 aluno ativo, um professor para cada
6,2 alunos ativos (a cada sete se integramos as matrículas trancadas)[58].
Todo esse batalhão de professores (e servidores) produziu, sempre em 2000,
3.691 formados, na proporção de pouco mais de um formado por cada professor![59]
Temos todos os
elementos de um quadro de ambigüidades que se criou abrigando-se nas
arbitrárias identificações entre dimensões estatais e vocações públicas das
universidades federais e estaduais. A dimensão estatal não constitui nenhuma
garantia da vocação pública da universidade, da mesma maneira que a dimensão
privada e o mercado não garantem um acesso restrito a um público definido pelo
seu poder de compra (e um ensino subordinado aos objetivos de lucro). Para o
movimento dos movimentos, a questão é de uma crítica das políticas neoliberais
que não se resolva em nenhum saudosismo da gestão estatal e saiba, pois, abrir
o processo constituinte do espaço público do trabalho comum: no caso de nossas
universidades, isso significa ligar explicitamente e diretamente os objetivos
(igualitários) de seus trabalhadores (professores e servidores) aos dos
excluídos e, nessa práxis, constituir a dimensão pública e comum do
acesso ao conhecimento, universalizando as universidades.
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[1] Professor titular da Escola de Serviço Social e coordenador-geral do Programa Escola de Políticas Públicas e Governo da UFRJ.
[2] Cf. A. Negri & M. Hardt, “What the protesters in Genoa want?”.
[3] Cf. A. Negri & M. Hardt, Empire.
[4] Desenvolvimento entendido como processo material de redução expressiva das desigualdades e de geração e distribuição da riqueza.
[5] Estamos obviamente falando dos quatro seqüestros de aviões e dos ataques contra as torres do World Trade Center em Nova York e contra o Pentágono, em Whashington.
[6] Giorgio Agamben, On security and terror.
[7] Immanuel Wallerstein. September 11, 2001 – Why?.
[8] Estamos falando do Primeiro Comando da Capital, ou seja, da fração organizada de detentos que aparentemente liderou (com sucesso!) o maior motim carcerário da história do Brasil e um dos maiores do mundo nas últimas décadas.
[9] Às quais também a própria equipe de governo e o próprio presidente da República devem sua existência política.
[10] Cf. Larry Rohter, Brazil is getting a new political party: Its base is in state prison.
[11] Cf. Yann Moulier-Boutang. “Derrière le marché du libéralisme, la marche de la liberté”.
[12] O Estado sendo postulado como figura representativa de um improvável interesse geral e mandatário de uma regulação “social” do mercado.
[13] Cabe lembrar aqui, a título de exemplo não exaustivo, as posições mais infelizes do Partido Comunista Francês, nos anos 80, quando tentava defender seus baluartes operários reivindicando políticas que defendessem a produção francesa (“Produisons français!”) e desenvolvia em suas prefeituras municipais iniciativas discriminatórias contra famílias de imigrantes estrangeiros.
[14] James O’Connor, The fiscal crisis of state.
[15] Para uma discussão sobre crise e dinâmica do welfare state, vide Giuseppe Cocco & Maurizio Lazzarato, “Au-delà du welfare state”.
[16] Sobre esta análise do keynesianismo, vide o artigo clássico de Antonio Negri, “John Maynard Keynes e la teoria capitalistica dello stato nel’29”. Sobre a crise das proporções, vide Negri, Il comunismo e la guerra, p. 36 e seguintes.
[17] Fazemos referência ao fato de que só nos países centrais houve aquela dinâmica dos salários reais que uma série de teóricos definiu como “fordismo”. Para uma apresentação desta noção, vide Giuseppe Cocco, Trabalho e cidadania, p. 55 e seguintes.
[18] Até a privatização, uma linha de telefonia fixa tinha um custo superior ao de um computador e indiretamente proporcional à renda: quanto mais pobres os usuários potenciais, mais cara a linha.
[19] Sergio Lessa, “Serviço social e trabalho: do que se trata?”, p. 43.
[20] Sergio Lessa, ibid, p. 52. Nestas mesmas páginas, Sergio Lessa conclui, na mais tradicional das posturas, que o trabalho ligado à reprodução da vida e das relações sociais não é produtivo. O curioso está no fato de que este artigo foi escrito (e publicado) para um público de assistentes sociais de maneira a eles apreenderem que “(…) o Serviço Social não realiza a transformação da natureza nos bens materiais necessários à reprodução social.” E mais: “A práxis dos assistentes sociais (é) incompatível com a centralidade ontológica do trabalho (…)” Grifos nossos.
[21] Ou seja, formal e, justamente no caso do Brasil, com carteira assinada.
[22] No Brasil, “corrosão do caráter” é uma velha realidade e não apenas uma produção recente. Vide R. Sennet, The corrosion of character.
[23] Mesmo que pareça inútil, é preciso lembrar que a “carteira de trabalho” funciona (ainda) como um instrumento de controle (de identidade “caracterizada”: “sou trabalhador”) de populações marginalizadas dos direitos básicos, inclusive, às vezes, o de andar na rua. Sem citar a volumosa produção antropológica e sociológica a este propósito, vide o romance antropológico de Paulo Lins, Cidade de Deus.
[24] Vide Adalberto M. Cardoso, Trabalho, verbo transitivo.
[25] Encontramos o marco da força desta proposta teórica no espaço que lhe foi dedicado em livro de André Gorz, Misères du présent. Richesse du possible. Os artigos de Futur antérieur, de Negri, Lazzarato, Virno, Bologna, são largamente citados ao longo de todo o capítulo 2 (“Derniers avatars du travail”) e destrinchados no parágrafo nº 4 (“Autonomie et vente de soi”), pp. 70 a 77. No mesmo registro, o afresco monumental que Luc Boltanski e Ève Chiappello dedicaram à análise do “novo espírito do capitalismo”: Le nouvel esprit du capitalisme.
[26] Escrito com Michael Hardt, Empire.
[27] Negri. “L'<<Empire>>, stade suprême de l’impérialisme”, p. 3.
[28] Usamos o termo italiano “operaismo” por não querermos confundi-lo com outras experiências tais como as do “ouvrierisme” francês. Por “operaismo” entendemos os trabalhos teóricos intimamente ligados ao neomarxismo italiano do final dos anos 50 e da primeira metade dos anos 70, cuja expressão foram as revistas Quaderni Rossi e Classe Operaia. O operaismo não se limita a uma escola de pensamento, uma vez que sempre contou com um importante envolvimento social e político dos “operaistas” nos movimentos dos anos 60 e 70 na Itália. Para uma apresentação mais aprofundada do “operaismo” italiano, ver Yann Moulier-Boutang, L'opéraisme italien: organisation, représentation et idéologie, ou la composition de classe revisitée; Sérgio Bologna, Qu'est-ce que l'opéraïsme aujourd'hui?; e Napolitano, Tronti, Accornero, Cacciari (a cura di), Operaismo e centralità operaia. Para uma apresentação mais em perspectiva ver também Nick Withford, “Autonomist marxism and information society”, in Capital & Class n° 52, e Paolo Virno and Michael Hardt (ed.), Radical thought in Italy.
[29] Vide Ricardo Antunes, “Material e imaterial”.
[30] Ricardo Antunes, Os sentidos do trabalho, p.134. Antunes dedica o capítulo VII (“Mundo do trabalho e teoria do valor”) à apropriação desta literatura (com citações de Lazzarato, Negri e Michael Hardt). Seja-me permitido anotar que o autor atribui a Francisco de Oliveira (na nota 55 da página 120) “a bela síntese (das) interações existentes entre a potência constituinte de que se reveste o trabalho vivo e a potência constitutiva do trabalho morto”. Não atribuindo o crédito ao verdadeiro autor desta síntese (eu mesmo, candidato a uma vaga de professor titular frente a uma banca composta pelo próprio Antunes, Francisco de Oliveira e outros), Antunes comete o grosseiro erro de uma oposição tautológica: constituinte versus constitutivo. Na minha conferência, eu usava Negri para opor a “potência constituinte do trabalho vivo (ao) poder constituído do trabalho morto”. Vide Giuseppe Cocco, Trabalho e cidadania, p. 54.
[31] Ricardo Antunes, Os sentidos do trabalho, p. 222. Grifos nossos.
[32] José Luis Fiori, “A idiotia da novidade”. No mesmo registro, vide M. Pochmann, “Mitos e realidades da <<nova economia>>”, onde podemos ler que “a expansão da riqueza nos EUA, entre 1984 e 1994, foi sustentada pela força da <<velha economia>>”. Note-se que nestes comentários que descobrem a força da velha economia norte-americana, nos anos 80 e no começo dos anos 90, ficavam, quase todos, empolgados com a decadência da economia dos EUA e o deslocamento de centro do mundo para o Japão e seu modelo toyotista de regime de crescimento neo-industrial. Pouco importa que este modelo, entretanto, tenha ido por água abaixo!
[33] A crise do modelo estético é implícita na superação da relação unívoca emettor-receptor que, ao nível da produção de massa fordista, se definia como separação hierárquica entre, por um lado, uma produção estandardizada e massificada e, por outro lado, um consumo de massa pouco diferenciado.
[34] Interessante a perspectiva aberta por Nestor G. Canclini sobre as hibridações culturais como bases de transformação dos mercados de bens “materiais” e culturais.
[35] Vide Michel de Certeau, La culture au pluriel.
[36] Essas problemáticas são desenvolvidas no paper apresentado na última Anpocs sobre a co-produção da greve e no artigo “Une journée particulière” publicado em Futur antérieur, 1994 (também em italiano).
[37] Cf. Philippe Zarifian, Le travail et l'événement.
[38] Vide Giuseppe Cocco, Trabalho e cidadania.
[39] Vide neste sentido o trabalho de Marcos Dantas, “O valor da informação: trabalho e apropriação no capitalismo contemporâneo”.
[40] Sobre o capitalismo cognitivo e a economia do conhecimento, vide o dossiê sobre “Nouvelle économie politique”. Em particular Yann Moulier-Boutang, “Éclats d’économie et bruits des luttes”, e Enzo Rullani, “Le capitalisme cognitif: du déjà vu?”.
[41] Utilizamos aqui a análise de Yann Moulier-Boutang em sua apresentação “O território e as políticas de controle do trabalho” no Seminário Internacional A mobilização produtiva dos territórios.
[42] Fala-se cada vez mais de netware, ou seja, de um espaço de ação que substitui e absorve o hardware, o software e o wetware (este último definindo a atividade cerebral de vida e de trabalho).
[43] Fazemos referência ao livro de Benjamin Coriat sobre toyotismo, Pensar pelo avesso.
[44] Para uma problematização da crise da lei do valor e da tautologia do capital no pós-fordismo, vide Giuseppe Cocco: “A nova qualidade do trabalho na era da informação”.
[45] O movimento do copyleft (que propõe o livre uso e reprodução dos produtos intelectuais à condição da atribuição do crédito ao original e do uso não comercial dos produtos derivados) representa um avanço significativo e concreto que encontra no software GNU-Linux (que permite sua reprodução e hibridação pelo acesso às fontes) uma experiência concreta (industrial e comercial) de grande porte. Vide R. Stalman, “Biopirataria ou bioprivatização?”.
[46] Interessantes as provocações de Richard Barbrook neste sentido, em particular quando ele reverte a ideologia californiana do “pontocom” na perspectiva do “cyber-comunismo”, ou seja, de uma situação na qual “owned by nobody, the web could come the common property of all”. Vide o paper “Cyber-comunismo” apresentado por Barbrook no Seminário Internacional A mobilização produtiva dos territórios.
[47] O mercado não existe sem o Estado, as firmas multinacionais não gerem sem o Império.
[48] Não estamos dizendo de todo o funcionalismo público, mas de uma parte deste.
[49] O caso das telecomunicações, com a popularização do telefone celular (inclusive como instrumento de organização dos presos), não saberia ser reduzido a um fenômeno marginal!
[50] Em muitos outros. Mas estes dois nos parecem ser com certeza os mais expressivos.
[51] Pensamos em dois salários, um de R$ 1 mil e um de R$ 2 mil. Se um aumento de 50% for concedido, o primeiro terá um aumento de R$ 500 e o segundo de R$ 1 mil, numa proporção igual ao nível de desigualdade inicial.
[52] Mas, sempre tomando o caso da nota acima, o aumento em percentual confirma as proporções de desigualdade e as aprofunda, pois a distância absoluta entre o salário menor e aquele superior aumenta: no caso invocado ela passa de R$ 1 mil para R$ 1,5 mil.
[53] A justificação mais comum invoca o fato de que esses aumentos apenas representariam a reposição das perdas salariais ligadas à inflação: mas, por que uma luta não deveria usar a reivindicação salarial para repor as perdas e também reduzir as injustiças? É nessa prioridade sistemática à reposição linear da posição ex ante que constitui um indicador nítido do corporativismo dos sindicatos das universidades públicas.
[54] E isso é agravado pelo fato de que não há sequer traço de um debate que indique a determinação de reivindicações salariais destinadas a reduzir as desigualdades.
[55] Há outros objetivos ausentes: por exemplo, sobre a qualidade dos serviços oferecidos em geral pelas universidades (no sentido mais amplo do serviço público), que deixa a desejar, em particular em função do baixíssimo nível de capacitação dos técnicos administrativos. O que abre para outro objetivo ausente: a mobilização dos professores para formar os servidores.
[56] O que mostra claramente a cumplicidade do estatal com o particular: é a inércia da universidade federal (e estadual) que alimenta o desenvolvimento das universidades particulares. A posição que consiste em dizer que é a falta de investimento nas universidades “públicas” é, no mínimo, cínica: a ideologia que identifica o público ao estatuto estatal permite não prestar contas quanto ao fato de que a maioria do público (inclusive aquele que tem uma demanda ativa de acesso aos estudos universitários) não tem acesso a um serviço que, pois, não é público!
[57] Dados de 1998. Nesse mesmo ano, esta relação era de 1/29 nas universidades italianas e de 1/17 nas universidades francesas.
[58] Se o indicador alunos/funcionário deveria ser ponderado pela eliminação do cálculo dos servidores dos hospitais universitários, a relação professor/aluno não deixa nenhuma margem de dúvida!
[59] A esta situação devemos em seguida juntar os professores visitantes, os bolsistas recém-doutores e, naturalmente, os aposentados (do serviço público e inclusive da própria universidade) que acumulam aposentadoria e salário. Como é possível que faltem professores para dar aula? Muito simplesmente porque, por um lado, as unidades têm uma política generosa de capacitação (um alto número de professores licenciados para cursar o doutorado ou realizar o pós-doutorado) e, por outro, justificam-se as vagas não na base do número de alunos e das metas de abertura da universidade ao público, mas no número de disciplinas.