24 de Dezembro de 1999



Mafias & etc.

 


A apressada passagem por uma livraria parisiense confirmou o contraste entre o elevado número de edições sobre os ex-países socialistas em geral (e a Rússia em particular) e a prática inexistência de traduções no nosso País.

O krach russo de 17 de Agosto do ano passado ocupa, já se vê, uma presença determinante e, entre os três ou quatro livros apressadamente recolhidos, o pequeno e despretensioso Le Krach Russe, de Jacques Sapir (Éditions La Découverte. Paris, 1998), fornece elementos de particular interesse, entre os quais uma curiosa teoria. Sapir sempre foi um violento crítico do sistema soviético, mas sublinha dois aspectos em contra-corrente com a vulgata comum: por um lado, enjeita a visão simplista do generalizado atraso tecnológico da ex-URSS, preferindo enfatizar que a frequente e efectiva sofisticação fabril era ali sobretudo servida por um péssimo sistema comercial que a estrangulava a montante e a jusante da produção; em segundo lugar, aponta que o pseudo-dinamismo do "sector de serviços" da actual Rússia mais não é do que a consequência da situação anterior. Os novos milionários apropriaram-se da infra-estrutura produtiva cercando-a através da criação de empresas comerciais e financeiras que obtiveram estrangulantes exclusivos de distribuição que, pagando barato e vendendo caro, para eles transferiram o essencial das mais valias da produção. Exclusivos obtidos, já se vê, por corrupção e pura violência e que deram o passo final nas privatizações.

Num outro pequeno livro, este do director da revista L'Expansion (pouco suspeita também de simpatias pelo socialismo...), François Roche, sob o sugestivo título "Le hold-up du Siécle" (Seuil. Paris, 1999), aborda exactamente as privatizações e, invocando o parecer de especialistas ocidentais, quase sempre ultra-liberais favoráveis às privatizações, chama a atenção para uma instância habitualmente esquecida: no seu entender, por detrás do desastre a que as privatizações conduziram a economia russa, está bem mais a instância directamente política e o problema do poder do que aspectos técnico-económicos. Fundamentalmente, dizem, a entourage de Eltsine, ciente de que o apoio popular do período do início da década não correspondia a uma opção de fundo da sociedade, mas a um momento volátil (e a evolução político-partidária da Rússia tem vindo a demonstrá-lo), estava essencialmente preocupada em desencadear um processo económico que tornasse politicamente irreversível o desmantelamento do Estado soviético, a tanto sacrificando brutalmente, de forma desastrosa mesmo para os peritos ocidentais, aspectos económicos e financeiros recomendáveis até de uma óptica puramente capitalista.

O livro mais interessante talvez seja contudo o de um autor consagrado, o professor suíço Jean Ziegler, Les Seigneurs du Crime (Seuil. Paris, 1999).

Quem quiser saber como é que o ex-primeiro ministro Victor Tchernomyrdine defende o seu monopólio da Gazprom com um exército privado de 60 mil homens e declara placidamente ao fisco rendimentos de 160 contos por mês, como é que o Afeganistão dos talibans produz actualmente 2 300 toneladas de ópio por ano, qualquer coisa como 40% da produção mundial, ou como é que o Bank of New York lavou biliões de 

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras.

rubencarvalho@mail telepac pt









Hosted by www.Geocities.ws

1