17 de Dezembro de 1999



Elogios

 


Já se sabia que nos últimos anos os governadores civis têm merecido uma desvelada atenção dos governantes PS. O crescimento do número de assessores recrutados por esse País fora, a edição profusa de propaganda governamental, a tentativa de intromissão constante na acção de outros órgãos (especialmente dos municípios), a actividade eleiçoeira financiada com dinheiros públicos revelam a importância crescente atribuída a estes comissários governativos.

Os governos civis transformaram-se numa espécie de delegações do PS, com o pormenor curioso de frequentemente a sua acção visar igualmente curto-circuitar as estruturas locais do próprio aparelho partidário socialista, quando estas se manifestam menos veneradoras e obrigadas aos ditames governamentais. Uma delegação do PS, sim, mas essencialmente do PS que está no Governo. Claro que estas coisas não passam sem episódios mais ou menos pícaros e o novo governador civil do Porto protagonizou sem dúvida um dos mais caricatos, mas também dos mais reveladores. O dr. Joaquim Couto foi acometido de "um verdadeiro choque" ao ler num editorial deste jornal (ao qual, em irresistível estilo cortesão, chama "paladino da verdade"...) um reparo crítico aos entusiasmos há algumas semanas manifestados por Fernando Gomes no camarote de honra do Estádio das Antas.

O dr. Couto ficou zangado e, note-se, na sua qualidade de governador civil portuense, escreve este pedaço de prosa de inspiração literária modelo SNI: "Do que conhecemos da personalidade do sr. ministro da Administração Interna e ministro adjunto, sabemos que tais atitudes (isto é, o tal reparo crítico...) apenas reforçarão a sua determinação de bem servir Portugal." E, depois de tão patriótica garantia, o Governo Civil do Porto informa: "Todavia, não podemos deixar de repudiar vivamente este tipo de comportamento jornalístico." Manda, contudo, a verdade que se diga que os elogios e concomitantes repúdios da pena do dr. Joaquim Couto não são inteiramente originais, antes parecem ser uma mimosa característica dos escritos sobre o Governo. Assim, o meu amigo Eduardo Prado Coelho (que, de meu conhecimento, não é governador civil...) escreveu, esta semana, que a política do dr. Carrilho é "coerente, moderna, esclarecida, eficaz e manifestamente de esquerda", que o discurso do eng.� Guterres no Porto foi "corajoso, claro, frontal, voltado para o futuro" e de "extrema elegância", discurso que, qual Infante de Sagres, nada menos do que "defendeu uma política, deu o exemplo de um estilo, traçou um caminho (...), resistiu às pressões (...), instalou um clima de serenidade e diálogo (...), soube voltar a página no momento certo, com as palavras certas e o lúcido diagnóstico dos acontecimentos".

Sem querer parecer excessivamente crítico, descrente, desconfiado, maldizente ou mesmo suspeitoso, acho que estas prosas pomposas, adjectivadas, gongóricas e enfatuadas soam a velho, a bajulação, a submissa cumplicidade com o Poder, a inaceitável conivência com a governamentalização. Isto, para ser lacónico.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
E-mail: Rubencarvalho@mail telepac pt









Hosted by www.Geocities.ws

1