10 de Dezembro de 1999



A fragilidade do bem


Do vasto anedotário atribuído à verve do muito britânico Lloyd George faz parte uma máxima frequentemente glosada na imprensa inglesa. Terá o deveras polémico primeiro-ministro afirmado que "um político é uma pessoa com cuja política se não concorda; se se concorda, é um estadista"...

O curioso da boutade é apontar para uma prática que em Portugal, e não só, conhece um período florescente: em tom de entediada erudição ou de azedo populismo, está definitivamente na moda dizer dos "políticos" o que Mafoma não disse do toucinho. A consequência inevitável - e não parece que se possa invocar que é coisa não desejada - é que, juntamente com os estigmatizados "políticos", vai embrulhada a própria política, transformada em actividade tão nefasta quanto desprezível, objecto da falácia submissa de que nada vale a pena.

Foi lançado o mês passado em Paris um pequeno livro com um título particularmente sugestivo: "A Fragilidade do Bem" (La Fragilité du Bien: Le Sauvetage des Juifs Bulgares. Albin Michel. Paris, 1999). O autor, Tzevetan Todorov, é mais conhecido pelos seus estudos no campo da linguística e da análise literária, mas devem-se-lhe, nomeadamente nos últimos anos, obras que reflectem um interessante percurso no sentido da intervenção mais directa nos destinos colectivos deste final de século.

"A Fragilidade do Bem" estuda e aprofunda, pela primeira vez de forma sistemática, uma realidade para que há quarenta anos Hannah Arendt (presente aliás até no próprio título do livro) chamara a atenção: apesar de durante a Segunda Guerra Mundial ter sido regida por governos de direita colaborantes com o nazismo, apesar de a Wehrmacht ter estado presente no território, a Bulgária foi o único país da órbita hitleriana de onde não saiu um único judeu rumo aos campos de extermínio. Quando, em 1945, o Exército soviético libertou o país, os 46 000 judeus búlgaros que existiam antes da guerra mantinham as suas vidas nas mesmas condições de todo o restante povo búlgaro.

Como foi possível? A obra divulga um interessantíssimo processo político que levou a que, no complexo período de 35 a 45, se tivesse forjado na Bulgária um compromisso nacional, que abrangeu dos comunistas até à direita, passando pela Igreja Ortodoxa e outras confissões religiosas, no sentido de impedir a aplicação da política racista do Reich. Recorda-se no livro que o envio de milhões de homens, mulheres e crianças para os fornos de Auschwitz ou Bergen-Belsen não foi exclusivamente uma tarefa das SS de Himmler e Eichmann: os governos reaccionários que o ascenso nazi gerou ou impôs foram protagonistas diligentes do holocausto, dos ustachis croatas aos peralvilhos de Vichy, passando por Salazar, que sacrificou Aristides de Sousa Mendes.

Esse frágil bem que Todorov pormenorizadamente recorda só se tornou possível porque foi um acto político, um compromisso político politicamente construído, um objectivo político politicamente executado.

Poderá ser frágil: mas há sempre uma política de bem a fazer quando os que a podem concretizar dela se não demitem.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras LINK
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