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| 3 de Dezembro de 1999 |
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Em primeiro lugar, verifica-se, com uma dimensão invulgar nos últimos anos, uma acção política de rua e de massas em protesto contra uma reunião internacional. Em segundo lugar, é relevante o facto de milhares de pessoas recorrerem ao que os clássicos designariam por uma forma de luta convencional face a uma organização e a uma problemática tecnicamente sofisticadas, cujas implicações não são fácil e imediatamente assimiláveis por grande parte da população e têm sido objecto de gigantescas campanhas de mistificação. Terceiro, as manifestações resultaram de um invulgar conjunto de convergências orgânicas e ideológicas (ONG dos mais variados tipos e nacionalidades, movimentos ecologistas, sindicatos, formações políticas de esquerda, etc.) e que por si só indicia duas mutações relevantes: a capacidade de coordenação evidenciada (a que as novas tecnologias de comunicação não são, já se vê, alheias) e o que se poderá designar por uma informal plataforma política comum definida em torno, por um lado, da defesa de princípios democráticos contra a crescente decisão oligárquica dos destinos do mundo, e, por outro, da defesa de direitos políticos e sociais adquiridos, contra as tentativas de impor uma lógica puramente mercantil e de lucro à economia mundial, o que obviamente configura uma crítica frontal ao sistema capitalista. Como numerosos comentadores têm indicado, a cimeira de Seattle foi apresentada e promovida na base de duas totais mistificações: a de que a liberalização do comércio constitui um factor de desenvolvimento, nomeadamente para os países mais pobres, e que a Organização Mundial de Comércio é um modelo de democracia, traduzido no facto de as decisões serem consensualmente tomadas pelos seus 134 membros. Um especialista tão insuspeito de desconfianças face às economias de mercado como o conselheiro da Comissão Europeia Riccardo Petrella, escreve no Libre Belgique que "estudos empíricos de todo o rigor demonstram que não existe qualquer relação de causa e efeito evidente entre comércio e desenvolvimento económico", acrescentando mesmo que "no decurso dos últimos vinte anos, marcados por uma forte aceleração e expansão do comércio mundial, as desigualdades económicas e sociais entre países e entre grupos sociais dentro de cada país aumentaram de forma considerável". Quando à "democraticidade" da OMC, basta recordar que não há quem ignore que o essencial das directrizes da organização são previamente discutida pelo chamado grupo Quad (Estados Unidos, o Canadá, a União Europeia e o Japão) e é ainda Ricardo Petrella quem escreve que o alargamento de competências do órgão para resolução de disputas entre países membros, o muito técnico ORD, "proporcionou ao capital mundial um poder jurídico e executivo com um peso único no conjunto das organizações internacionais vocacionadas para a governação das questões mundiais". Seattle revelou novidades importantes: há consciência dos riscos do domínio dos destinos do mundo pelo grande capital e há quem não apenas entenda que, afinal, a História ainda não acabou, como se disponha a intervir para a fazer diferente.
Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras.
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