26 de Novembro de 1999



Uma questão de cultura

 


A polémica em torno do Porto 2001 parece ter entrado em fase de acalmia, o que só é positivo. Ninguém desejará maus resultados à Capital da Cultura, muito pelo contrário, e alguma tranquilidade é seguramente indispensável.

Seria entretanto estranho evitar algumas conclusões que os factos impõem.

Não há, evidentemente, receitas para fazer bons ministros, da Cultura ou qualquer outro. Há contudo alguns critérios básicos que o bom senso indica e a experiência confirma.

A política é uma actividade apaixonada, vive de contradições, alternativas, opções, conflitos. Mas exactamente porque assim é, ao interventor e decisor político tem de se exigir equilíbrio, discernimento, serenidade de forma a que não seja ele próprio e os seus comportamentos a agravarem o tenso universo de diferenças e interesses que atravessam o corpo social e para o qual a política é exactamente chamada a encontrar soluções e percursos tão construtivos e abrangentes quanto possível.

Se falamos de política cultural, esta tensão tenderá mesmo a viver de forma mais apaixonada e verbalizada. As grandes tensões económicas e sociais possuem os seus ciclos, sofrem fluxos e refluxos, mas a cultura, a criação artística, o quotidiano lidam com as práticas, mitologias e sentimentos que estruturam a consciência colectiva das sociedades, são campos onde as diferenças de pontos de vista, o apaixonado empenhamento pessoal, a insatisfação tão permanente quanto a constante busca por mais verdade, mais beleza, maior conhecimento não são apenas reflexos, mas elementos constitutivos da própria prática cultural.

Não se pretende do decisor político que seja um asséptico explorador de constantes compromissos ou de cinzentos projectos, antes se lhe pede empenhamento, determinação, capacidade criadora. Mas o que, talvez mais do que em qualquer outra área, é indispensável sublinhar é a finalidade colectiva da sua acção.

A ambição pessoal desmedida pode prejudicar um ministro das Obras Públicas sem que isso prejudique fatalmente a edificação de infra-estruturas de ferro e betão - mas é fatal para a própria cultura quando é no seu ministério que se manifesta.

Aqui, a cultura política é rigorosamente indispensável. Nas últimas semanas Manuel Maria Carrilho novamente reagiu como um polemista de perfil caceteiro, quando se lhe exigia que reagisse como um ministro. Embebido no seu espelho, não compreendeu que não era a sua pessoa que estava em causa, mas um acto cultural a que as funções que desempenha o ligam. Se as críticas pessoais poderão aqui e ali ter assumido tom demasiado contundente, a todas deu razão ao esquecer que politicamente o seu dever era assegurar da melhor forma a resolução da crise de um projecto colectivo, e não verter óleo sobre as chamas num desvairamento infantil de protagonismo ofendido.

Como filósofo, talvez o seu trabalho possa sobreviver a esta desmesurada vaidade. Como ministro, não.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
E-mail: rubencarvalho@mail telepac pt









Hosted by www.Geocities.ws

1