21 de Julho de 2000

Factores de insegurança

 

 


Os assaltos da madrugada de ontem e outros incidentes verificados na área da Grande Lisboa requerem particular atenção, três aspectos merecendo destaque.

1. É evidente que qualquer aumento de criminalidade tem causas sociais, nem sequer de difícil identificação. O reconhecimento desta verdade e da incontornável decorrência de que apenas a solução dos problemas de exploração, pobreza e exclusão que lhes dão origem constitui parte essencial do problema - mas não a única.

A recusa liminar do discurso populista e perigosamente xenófobo do PP não pode fazer ignorar, antes requer que se encare atentamente a componente de repressão, o papel dos aparelhos de segurança e do sistema judicial. As políticas de segurança não são todas iguais nem têm reflexos puramente quantitativos. O problema não é apenas de quantos agentes da PSP ou da GNR existem: é urgente reequacionar a política cavaquista das superesquadras e os seus resultados, é urgente encarar com coragem a dúvida sobre se o aparelho de justiça está a exercer o papel que a sociedade lhe requer.

2. Em poucas realidades sociais os órgãos de comunicação têm um papel tão relevante como face à violência e ao crime. O problema situa-se ao nível das grandes questões da contemporaneidade, como a inacabada polémica sobre o papel contagiante, ou pelo contrário condicionante, da exibição de violência nos ecrãs. Mas tem expressões muito mais quotidianas, muito mais directamente ligadas aos critérios deontológicos e à inteligência e razoabilidade dos profissionais.

O que aconteceu ontem na CREL terá plausivelmente sido obra de um único grupo criminoso: pesem os antecedentes, transformar isto numa vaga de crimes não incorre na deontologicamente inaceitável categoria da mentira?

À comunicação social impõe-se a complexa conciliação entre o direito à informação numa sociedade democrática e a sua responsabilidade face a ela. O que jamais será conseguido com sensacionalismo apelando às emoções, em detrimento do estímulo à compreensão e inteligência onde nascem as soluções.

3. As responsabilidades que cabem à comunicação social advêm de efeitos que se situam no campo da subjectividade de comportamentos individuais e colectivos. Mas ao Estado não cabem apenas responsabilidades de ordem objectiva, administrativa. O Estado também tem responsabilidades democráticas no domínio da subjectividade, dos padrões de cultura, dos comportamentos que fomenta ou contraria.

O ministro da Administração Interna é, evidentemente, um caso de escandalosa incompetência para o cumprimento das tarefas políticas de segurança que lhe estão cometidas. De resto, não se vislumbra em que é que seja competente. Mas o dr. Fernando Gomes não é apenas um caso de inépcia funcional: é um factor de insegurança social.

De um ministro com a responsabilidade desta área requer-se - mais talvez que a qualquer outro - seja, ele próprio, um elemento de tranquilidade, uma expressão da autoridade do Estado e da sua atenção face aos problemas dos cidadãos.

Ora as tão frequentes quão enfatuadas aparições e declarações públicas do ministro só não saturam pelo ridículo porque indignam pela inépcia.

Ontem, numa estação da linha de Cascais, o dr. Fernando Gomes dizia a portentosa baboseira: "...claro que estou preocupado. Por isso, vim aqui."

Para tranquilidade de todos nós, seria bom que definitivamente não fosse a mais parte nenhuma. Excepto para sua casa.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras

[email protected]

 









Hosted by www.Geocities.ws

1