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| 30 de Junho de 2000 |
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Informação e violência
A convergência de tratamento de uma temática pela Comunicação Social é frequentemente designada por "campanha". Uma visão mais restritamente política, mais imediatamente ligada aos executores políticos, tende mesmo a considerar que há uma lógica exterior aos media responsável por essas "orquestrações", pela definição em cada momento dos temas de agenda que se multiplicam em jornais e noticiários. É evidente que o puro bom senso e o mais elementar conhecimento da história da comunicação de massas demonstra a existência daquela acção, manifestando-se de forma mais continuada e concisa em regimes totalitários, mais difusa e sofisticada nos quadros democráticos com liberdade de imprensa. Mas é indispensável ter em conta que a própria dinâmica da informação massiva envolve imposições de mimetismo e consolidou padrões funcionais que, a par e passo com difusas mas reais manifestações das ideologia e cultura dominantes, gera por si própria convergências. Aquilo a que os americanos chamam agenda setting function, isto é, a definição do conjunto de temas que num determinado momento constituem o essencial do material a ser noticiado, sofreu ao longo dos anos modificações profundas. A procura da originalidade, da notícia em primeira mão, constituiu durante décadas o elemento de imposição indirecta de temática: revelado por um determinado media, tal notícia, se interessante, tinha capacidade para gerar um interesse público que impunha à concorrência o seu tratamento. A multiplicação de fontes informativas (das agências noticiosas ao marketing, institucional-informativo ao puramente comercial) diminuíram a possibilidade da "cacha", da notícia própria e original, enfatizando em contrapartida o papel dos responsáveis da selecção entre a multidão de informação disponível e das redacções no desenvolvimento e investigação. Este quadro tende a gerar três tipos de situações. Nos casos de evolução positiva, potencia jornais de referência, criteriosamente agendados e profissionalmente desenvolvidos. Simultaneamente, porém, fomenta simétricos critérios sensacionalistas de selecção e tratamento, procurando ocupar outras faixas de público. Finalmente, tem a contraditória consequência de simultaneamente agudizar a concorrência (obrigando a tratar os mesmos temas, embora de formas diversificadas) e uniformizar conteúdos nos vários media, gerando o que efectivamente se apresenta como uma "campanha orquestrada em vários tons". Acrescente-se que, na comunicação social, a necessária criação de parâmetros é mais difícil (os de produção oficinal ou administrativa são sempre de difícil fixação e cumprimento) e insidiosa: no campo temático, a própria pressão do tempo sugere percursos que se repetem, a abordagem de determinados temas tende sempre às mesmas associações. Emigração clandestina, violência, toxicodependência, criminalidade urbana, justiça, situação nas forças de segurança constituem um círculo temático que pode começar num qualquer ponto, mas acaba sempre a ser percorrido sucessivamente, potenciando a dimensão de um problema com a dos outros e gerando processos psicológicos e sociais de grande complexidade e quase sempre negativos. No Verão de 1995, nas vésperas de eleições, o País assistiu a uma "vaga de criminalidade" a que não faltaram mesmo rebates sobre "crime organizado" que roçaram o ridículo. Até banalíssimos crimes passionais alimentaram essa "vaga", que serviu ao PS e ao PP para discursos inesquecíveis. Ou melhor: recordáveis, por quem hoje ouve os drs. Barroso ou Portas. Resta saber se abrir telejornais com incidentes no Carrefour cabe no padrão da objectividade e, sobretudo, da responsabilidade informativa. Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras |