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| 2 de Junho de 2000 |
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Cavaco Silva escreve artigos irónicos (um talento satírico que se desconhecia...), Pacheco Pereira teoriza, Vasco Graça Moura, qual Zurara cavaquista, defende o que pode e o que não pode, Marques Mendes diz que sim mas talvez, Dias Loureiro diz que talvez mas sim, Santana Lopes diz tudo, Durão Barroso não diz nada, Manuela Ferreira Leite arranja, José Luís Arnaut estraga, Capucho zanga-se com os "jotas", os "jotas" não querem saber de Capucho, Marcelo examina - e etc. O PSD apresenta-se como um partido digno das melhores caricaturas de Bordalo Pinheiro. Mas este exuberante retrato, a justificar a afirmação que a oposição à direita andaria sem rumo e que o PSD atravessa a sua maior crise de sempre, independentemente do que possa conter de verdade, tem de ser encarado com alguma frieza. Nem tudo o que parece é. Evidentemente, assiste-se a uma luta pelo poder e, em última análise, esse é o único aspecto inquestionável e o primeiro responsável pelo clima anavalhado de intrigas e armadilhas. Mas interessa analisar se se está essencial ou mesmo exclusivamente perante a balbúrdia de candidatos atropelando-se ou se tal facto reflecte clivagens estratégicas e tácticas profundas. E aqui a questão exige mais atenção. A leitura das múltiplas intervenções dos protagonistas da babilónia social-democrata revela que, afinal, existe uma substancial convergência de algumas ideias e objectivos políticos e que nem sequer é inteiramente verdade que ao nível das formas para os atingir as opiniões se dividam. Em primeiro lugar, todos os dirigentes PSD, por muito de soslaio que se olhem, convergem na afirmação de que o Governo de António Guterres não governa. O primeiro-ministro não está cá, é indeciso, incapaz de gerir os diferendos entre os seus ministros, adia sistematicamente decisões, etc. Esta linha de argumentação não é, já se vê, inocente. Em rigor, nenhum Governo pode não governar, colocar as coisas desta forma corresponde apenas a afirmar que o Governo em questão está a governar mal - iludindo porém a questão de dizer em quê e como! Esta alegoria da não governação permite, por outro lado, outra falcatrua: segundo o PSD, ao "não governar", o Governo revela-se "fraco" e está a "evitar", a "adiar", a "mostrar-se incapaz de tomar" umas designadas "medidas essenciais", "reformas essenciais do sistema", acerca das quais se diz apenas que "serão impopulares". Quais são, para que servem, quem beneficiam ou quem prejudicam - o silêncio social-democrata é sepulcral. Do ponto de vista do ambiente social e da opinião pública, esta operação nada tem de inocente e comporta, pelo contrário, riscos nada desprezíveis. O descontentamento que cresce na população contra aquilo que o Governo PS efectivamente faz é apresentado pelo PSD não como actos negativos a combater, mas como frutos de uma "paralisia de acção", de algo "inevitável". Não o resultado - como são - de uma determinada orientação e vontade, mas antes resultado da ausência delas. Nestas circunstâncias, o PSD vê-se comodamente liberto de ter de explicar quais as medidas socialistas que estão erradas e porquê, do mesmo passo que também não tem de explicar quais as medidas que propõe e porquê. O discurso sobre a "alternativa" não tem de se basear nas políticas que a concretizariam, mas sim na necessidade de um "Governo forte", de um "Governo com autoridade" que tomasse as tais nebulosas "medidas impopulares". A direita pode atravessar crises - mas não esquece os seus interesses de classe. Ruben de Carvalho assina esta coluna à sexta-feira |