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| 28 de Abril de 2000 |
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Vietname
Entre tiros de armas pesadas e ligeiras, o ruído das hélices dos helicópteros norte-americanos fazia-se ouvir um pouco por toda a cidade, nomeadamente na área da embaixada dos EUA. O aeroporto de Tan Son Nhut fora tornado inoperativo pelos bombardeamentos e, às quatro horas da madrugada, hora local, fora transmitida de Washington a ordem para iniciar a operação "Frequent Wind", nome de código para a retirada final, recorrendo aos helicópteros baseados nos navios estacionados ao largo da cidade. A utilização dos helicópteros revelou-se problemática, uma vez que os de maiores dimensões, os Chinook, capazes de transportar meia centena de pessoas, eram demasiado pesados para aterrar sobre os telhados das casas onde se encontravam cercados os americanos, bem como os vietnamitas ligados ao exército e aos serviços de segurança, nomeadamente à CIA. Duas fotografias transformaram-se em símbolos definitivos do descalabro da maior potência militar do planeta face à determinação de um povo em armas durante mais de 35 anos. Uma, a de uma das principais estradas de acesso a Saigão, coberta, a perder de vista, de botas abandonadas: os soldados do exército sul-vietnamita abandonavam na retirada tudo quanto pudesse identificá-los junto das tropas vietcong, das espingardas M-15 ao o fardamento, incluindo essas botas que se haviam transformado num quase emblema face às sandálias guerrilheiras, retrato de vitoriosas capacidades de sacrifício e de austeridade. Uma segunda apresenta um cenário daqueles que a realidade se encarrega de criar com o talento por que anseiam realizadores e artistas: no telhado de um dos edifícios da CIA, nas proximidades da embaixada, uma frágil escada cobre-se de uma fila de figuras que sobe do terraço para o topo da caixa do elevador onde estaciona um helicóptero. A milhares de quilómetros de distância, na Sala Oval da Casa Branca, Gerald Ford assistia à transmissão televisiva em directo da evacuação, último e significativo episódio do papel que a televisão desempenhara na denúncia da intervenção americana e no alargamento do protesto em todo o mundo. No seu pequeno helicóptero CH-46, com capacidade para 24 passageiros, o tenente Darryl Brown conseguiu amontoar 36 pessoas e levantar voo. A maioria era constituída por vietnamitas e Brown narrou que, no desespero da situação, pensou no menor peso desses combatentes de baixa estatura que, após os bombardeamentos brutais dos B-52, pareciam renascer de uma terra de que faziam parte. Na última Newsweek, o homem que, sentado ao lado de Ford, assistira às últimas imagens emitidas de uma cidade que, fotograma a fotograma, deixava de se chamar Saigão para ganhar o seu nome de hoje, Ho Chi Minh, Henry Kissinger, escreve: "Um julgamento equilibrado sobre o Vietname mantém-se como um desafio para nós - não por uma questão de justiça histórica face à figura individual dos presidentes, mas de verdade histórica sobre uma tragédia nacional." Um quarto de século decorrido, Henry Kissinger fala ainda da tragédia americana - não da tragédia vietnamita. Talvez porque há 25 anos o Vietname foi a prova concreta que não se pode derrotar a vontade de luta de um povo e talvez porque hoje, apesar dos "colapsos das economias dos tigres asiáticos", da repressão na Indonésia, das ditaduras na Birmânia, a economia do Vietname independente e socialista tem crescido entre 4 e 8 % ao ano, o rendimento da agricultura cresceu 60 % desde 1992, o país é o maior exportador mundial de arroz e uma potência na área das pescas. Entre outras coisas. Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
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