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| 7 de Abril de 2000 |
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Ao princípio é o verbo
É impossível imaginar a política sem a palavra. Ao sublinhar a importância da reflexão e da imaginação no acto político, Aristóteles introduzia inevitavelmente nele a palavra enquanto instrumento de pensamento, de estudo, de definição, de comunicação. E a importância da palavra é tanto maior quanto, em condições normais, ela precede a acção. É através dela que se definem os objectivos e os meios que a acção política visa concretizar, ou, dizendo doutra forma, ela formula as ideias que a política pretende tornar realidade. A democracia alargou a dimensões que a humanidade jamais conhecera o diálogo entre os homens. A palavra política deixou de ser o exclusivo daqueles que possuíam os meios materiais da acção política para passar a ser um factor que se constituiu ele próprio como elemento real de poder ao adquirir uma dimensão à medida do povo. Marx definiu-o ao escrever que as ideias se transformam em força material quando as massas delas se apoderam. Armas perigosas, portanto, as ideias e as palavras. É uma batalha quotidiana impedir que o seu abuso, seja na verborreia mistificadora, seja na mistificação deliberada, prive o cidadão de um instrumento essencial não apenas para compreender - para reflectir e imaginar - a política, tanto quanto para nela intervir. Porque a palavra precede a acção, o discurso do político anuncia o seu agir. E anuncia não apenas no que semanticamente organiza, mas em cada um dos termos que usa. Milénios decorridos, as palavras não são apenas os elementos isolados de discursos organizados, contêm cada uma delas uma autonomia com significado próprio, paralelo, mas coincidente ou contraditório com o discurso em que se articulam. Tiveram os últimos dias portugueses palavras e frases que, diferentes sem dúvida, têm em comum o não necessitarem dos discursos de que fizeram parte para merecerem atenção. Os delegados a um congresso partidário ergueram-se histéricos perante um discurso labrego para que será difícil encontrar paralelo na história política portuguesa. Se o néscio engravatado que o pronunciou o tivesse dito face ao espelho, o chorrilho de baixezas revelaria sem dúvida a sua política, seria grave porque seria uma miséria, mas não seria perigoso. Mas houve quem assim propusesse ao CDS/PP que adoptasse o ignóbil como programa e o abjecto como discurso. E ele aceitou. Mas não deixa de ser também interessante saber o que irá o PS fazer com conceitos que, de forma menos tonitruante, mas igualmente pública, o deputado Barros Moura lhe propõe no seu artigo no Diário Económico. Fica-se sabendo que no seu actual entender o "buzinão" contra o aumento dos combustíveis decretado pelo Governo que agora apoia foi um "apelo arruaceiro" (sic) e que o protesto contra ele é "o caminho da arruaça e da agitação social" (sic). Por enquanto é só o verbo. Mas percebe-se a acção se para tanto houvesse meios. Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras[email protected]
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