| 12 de Novembro de 1999 |
Ou seja, o simbolismo do muro que "separava" a "democracia" do "comunismo" começa por ser uma arriscada hipérbole: se tal muro existisse, não só ele teria que percorrer o meio milhar de quilómetros entre as duas Alemanhas, mais sensivelmente outro tanto que separava a RFA e a Áustria da Checoslováquia, mais cerca de outros 500 quilómetros fronteiriços entre a Áustria e a Hungria, devendo ainda, em rigor, serem contemplados os 800 quilómetros que separam a Grécia da Albânia e da Bulgária. A existência do muro não pode, na verdade, ser compreendida sem ter em conta a situação gerada no pós-guerra com o território alemão em geral e Berlim em particular. No seguimento das conferências de Ialta e de Potsdam, a Alemanha foi dividida em zonas de ocupação, correspondentes no essencial ao ponto onde as ofensivas de cada um dos exércitos havia parado. Situando-se a zona soviética grosso modo entre os rios Óder e Elba, significava isto que Berlim ficava praticamente no centro geométrico desta área. Entretanto, dada a relevância política da antiga capital do Reich, a cidade foi igualmente dividida em zonas de ocupação dos quatro Aliados. A URSS manteve sempre a sua posição sobre a reunificação da Alemanha, sendo confrontada em 1949 com a constituição da República Federal da Alemanha, reunindo as áreas americana, francesa e inglesa. Somente depois se constituiria a RDA na zona soviética, com capital em Berlim. Entretanto, a situação quadripartida da cidade manteve-se, o que gerou uma situação sem paralelo no relacionamento entre países: o simples atravessar de uma rua berlinense fazia uma pessoa passar da zona americana para a capital da RDA - e inversamente. Sendo evidentemente verdade que tal situação permitia sair da RDA sem respeitar as normas elementares então requeridas em qualquer país do mundo (passaportes, controlos fronteiriços, alfândegas, etc.), é igualmente claro que Berlim, nos anos duros da guerra fria, se transformou num verdadeiro paraíso da espionagem onde se podiam infiltrar os agentes que se entendesse para os fins que quisesse no campo socialista apenas - atravessando a rua. Nas circunstâncias completamente anómalas que Berlim viveu desde 1945, a construção do muro foi apresentada como visando essencialmente estabelecer uma fronteira com as características de qualquer outra fronteira entre as duas Alemanhas, estados soberanos que mutuamente se reconheciam como tal. Foi uma solução correcta? Os custos políticos e simbólicos que teve prejudicam definitivamente qualquer justificação que para ele tivesse havido. Mas a História foi assim. Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras |