10 de Março de 2000



Carnaval


Nem a espectadores nem a críticos passou despercebido o brutal contraste entre as simultâneas imagens das folias em todo o mundo (e em Portugal também) e as que revelavam a tragédia moçambicana. Tal como o facto de cada vez mais o Carnaval português ser um esforço patético de imitação do Brasil.

Nada há de novo no facto de simultaneamente uma parte da humanidade viver uma tragédia e outra dar largas a folguedos e alegrias.

Até há relativamente poucas décadas, o problema dificilmente se tornava chocante: era impossível a sua rápida e massiva revelação através dos meios de comunicação social. O incómodo ou a indignação de hoje advém não tanto dos factos, mas do seu conhecimento e, particularmente, da constatação da sua simultaneidade. A crítica que baseia nesta modificação uma postura indignada e denunciadora talvez erre, contudo, o alvo.

O facto de a humanidade passar a conhecer ao mesmo tempo as suas tragédias e as suas festanças nada tem, em si próprio, de condenável. Reflecte o desenvolvimento técnico da comunicação - e nada mais. A simultaneidade sempre existiu, o seu conhecimento é que é novo.

Já é, claro, polémico o que os homens fazem desse conhecimento. Mas então a responsabilidade vai para os homens, para as estruturas que os governam e para os padrões morais e éticos que adoptam - aqui se incluindo os media.

O que é verdadeiramente chocante não é a sucessão das trágicas imagens dos vales moçambicanos e do menear de ancas no Rio ou em Loulé: é, sim, verificar a já denunciada lentidão da comunidade internacional em acorrer às vítimas e não encontrar nos mesmos meios de comunicação social uma postura de intervenção activa e mobilizadora. Não se pode criticar uma televisão por informar sobre a realidade, mas deverá ser criticada por ignorar a realidade. E a realidade quanto a Moçambique não é apenas a tragédia, é também a necessidade da ajuda. E aqui o próprio contraste deveria servir de estímulo à tomada de consciência.

Esta passividade, esta anomia social que parece ser alimentada pela catadupa de informação, particularmente da televisão, não resulta do acaso. Pelo contrário, quando querem, a TV e os seus pares mediáticos são capazes de desencadear sobressaltos colectivos de indignação ou solidariedade. O que os determina pode ser casual e imprevisto, mas é raro: longe vai o tempo - se alguma vez o houve - em que os profissionais dos media corriam os riscos de aprendizes de feiticeiros e desencadeavam processos que lhes fugiam do controlo. Hoje, pelo contrário, fazem parte do próprio profissionalismo a previsão do impacte da informação e o desejo de o procurar e moldar.

Talvez exactamente por isso, a televisão tende para esta bastarda e medíocre monotonia que alimenta a passividade, apenas agitada aqui e ali pelo estímulo a uma cúpida ambição de enriquecimento rápido ou de desfrutar uma emoção desprovida de paixão e consequências.

A importação dos padrões do Carnaval brasileiro é filha directa desta situação. No ainda pudibundo Portugal, é possível gerar a tão esclarecedora quanto inócua controvérsia de um casal entre os talentos futebolísticos de Jardel e as qualidades do corpo da sua mulher...

E amanhã continuam a faltar barcos em Moçambique e a manter-se a taxa de desemprego.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
E-mail: rubencarvalho@mail telepac pt









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