25 de Fevereiro de 2000

 

Ele h� mais mundos...

 

 

           A sempre bem vinda resposta de Eduardo Prado Coelho �s observa��es que fiz h� uma semana  parece permitir tr�s conclus�es: (i) Prado Coelho mant�m a sua desvaloriza��o da componente filos�fica da obra L�nine; (ii) aceita a especificidade do marxismo enquanto arquitectura de an�lise e reflex�o que visa n�o apenas uma interpreta��o do mundo, mas assume uma vontade de transforma��o no sentido, naturalmente, de maior justi�a e felicidade; (iii) entende que a concretiza��o pol�tica desse projecto, no qual L�nine assume papel determinante, se traduziu por um �balan�o tr�gico� que de toda a desvaloriza, o que conduz a que �os verdadeiros defensores da dimens�o cr�tica e ut�pica do marxismo s� tenham um caminho a seguir: tentar salvar Marx do marxismo-leninismo que o destroi ou desfigura de uma forma quase fulminante�..

            Em rela��o ao ju�zo do contributo directamente filos�fico de Lenine, n�o me parece a quest�o essencial. N�o subscrevo, de todo, a condena��o universal de EPC, mas, por um lado, a obra de L�nine reflecte a necessidade de uma interven��o polemizante orientada pela necessidade do momento, e, por outro, �, a meu ver, substancialmente menos importante que a mais directamente pol�tica, na teoriza��o do Estado, da org�nica e ac��o partid�rias, da estrat�gia bolchevique em 1917, da condu��o do Estado sovi�tico, etc.

            Quanto ao resto, h� duas raz�es essenciais que me levam a manter inteira a discord�ncia com o fun�reo diagn�stico inicial de Prado Coelho.

            Ningu�m ignora que o conceito de marxismo-leninismo, enquanto um todo insepar�vel e estanque, n�o resulta directamente de L�nine, mas sim do enquadramento que foi feito do seu patrim�nio ideol�gico, e do de Marx, ap�s 1924. A obra Os Princ�pios de Leninismo, de St�line, constitui uma pedra angular desse processo. Ou seja, admitindo-se a exist�ncia de um contributo te�rico espec�fico de L�nine no seguimento de Marx, aceitando que se lhe aplique a designa��o de leninismo, � um facto hist�rico que o conceito de marxismo-leninismo � cunhado sem qualquer contributo directo de qualquer dos autores invocados.

            Significa isto, como pretende Prado Coelho, que para �salvar� Marx � indispens�vel separ�-lo de L�nine? A meu ver, de forma alguma.

            Em primeiro lugar (e independentemente do julgamento que o tempo imp�e a an�lises e propostas cuja perenidade sofre de terem constitu�do audaciosos empenhamentos nas realidades de ent�o), L�nine continua Marx em aspectos determinantes da interven��o pol�tica. Em segundo lugar, o leninismo � insepar�vel do �mpar processo triunfante de 1917, na qual L�nine teve o apaixonante papel tanto de unificador quanto de cr�tico de um vasto e criador n�cleo de revolucion�rios, de Rosa Luxemburgo a Zinoviev, de Plekhanov a Trotsky. Interventores todos eles e das mais diversas formas (incluindo, claro, as mais frontalmente cr�ticas). Tudo no quadro de uma org�nica partid�ria em constru��o, cujos tra�os delineou, que fez frutificar a conjuga��o dessa agitada e colectiva cria��o te�rica e ac��o militante com a mobiliza��o concreta da classe oper�ria e do povo.

            EPC assaca ao leninismo todos os problemas e erros derivados do que �lvaro Cunhal chamou em adequada s�ntese �a cristaliza��o de princ�pios e conceitos que impossibilita a interpreta��o da realidade actual�, traduzida na �sacraliza��o dos textos dos mestres do comunismo, a substitui��o da an�lise das situa��es e dos fen�menos pela transcri��o sistem�tica e avassaladora dos textos cl�ssicos como respostas que s� a an�lise actual pode permitir� (O Partido com Paredes de Vidro, p�g. 22). Quadro que consabidamente acabaria a caracterizar grande parte da produ��o ideol�gica sovi�tica posterior aos anos 20 e se associa � cria��o do conceito marxismo-leninismo. Assim, segundo EPC, fazendo a abla��o do leninismo, libertar-se-ia o marxismo de tal cristaliza��o e dos resultados dela decorrentes.

            O problema � que, ao faze-lo, estar�amos a cometer um erro pela inversa.

N�o foi apenas o pensamento de Marx a v�tima dessa cristaliza��o � o  de L�nine foi-o igualmente. Pretender arrumar toda a contribui��o leninista em nome dos problemas da mais variada �ndole enfrentados pela Uni�o Sovi�tica e pelo campo socialista ao longo do meio s�culo seguinte � t�o absurdo quanto condenar Diderot pelo 9 Termidor. E, essencialmente, � privar o universo te�rico revolucion�rio de uma reflex�o essencial.

Resumindo, faz muito menos diferen�a conservar o h�fen do que perder L�nine!

            A segunda raz�o � a recusa frontal de um artif�cio t�pico nestas controv�rsias, t�o aborrecidamente banal quanto inaceitavelmente mistificador.

N�o resultar� mais do simplismo das an�lises do que da simplicidade das situa��es o ignorar que a vida do campo socialista n�o � uma traject�ria linear e un�voca, que nela se entrecruza, com todas as suas grandezas e todas as suas trag�dias, tudo quanto constr�i as encruzilhadas da Humanidade? Levar tudo � conta de �cat�strofe� � intelectualmente s�rio? O Imp�rio Romano, que acabou como acabou, foi �uma cat�strofe�?! A democracia grega foi �uma cat�strofe�?! A Revolu��o Francesa foi �uma cat�strofe�?!

Mas h� mais: porventura o contributo dado pelo marxismo e pelo leninismo �s transforma��es pol�ticas, sociais, econ�micas, culturais do �ltimo s�culo e meio reduzem-se � constru��o, ascens�o e queda da Uni�o Sovi�tica e do campo socialista?!

De Jos� Carlos Mariategui a Nelson Mandela, de Ho Chi Minh a Am�lcar Cabral, o marxismo-leninismo � inexistente e saldou-se por fracassos? Da constru��o efectiva das democracias ocidentais, dos direitos dos trabalhadores � imposi��o de um papel de solidariedade social ao Estado, do derrubamento das ditaduras fascistas e dos regimes coloniais � emancipa��o da mulher, a luta pol�tica dos comunistas � inexistente e saldou-se por fracassos? Na poesia de Neruda, Gomes Ferreira ou Langston Hughes, na pintura de Malevich, de Pomar, de Rivera, na literatura de John dos Passos, de Vittorini, de Saramago, os comunistas s�o inexistentes ou meros protagonistas do fracasso? No pensamento e na cria��o de Walter Benjamim ou de Lucien Febvre, de Eisenstein ou de Brecht, de Woody Guthrie ou de Bartok, a luta pol�tica dos comunistas � irrelevante?

            N�o h� acto libertador, direito conquistado, imagina��o libertada nas sociedades do s�culo XX que n�o comporte no seu seio o esfor�o, o contributo, o empenho, a criatividade dos comunistas. Ningu�m ignora ou esconde a gravidade do fracasso do modelo sovi�tico; mas a verdade n�o autoriza que se amortalhe nesse drama doloroso o patrim�nio que ele pr�prio inclui, mas sobretudo o contributo exaltante e vitorioso que em todo o mundo, em todas as sociedades foi dado por homens e mulheres que se identificaram e identificam com Marx e L�nine na militante consci�ncia de que n�o basta explicar o mundo � � preciso transform�-lo.












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