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| 18 de Fevereiro de 2000 |
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O objecto do lúgubre entusiasmo foi, já se vê, o marxismo, o leninismo, os comunistas, até o próprio socialismo. Nem as ideias nem o discurso são novos, mas apresentam alguns traços insólitos, vindos de quem vêm. Tenho para mim que a escrita nos jornais, visando naturalmente públicos diversos e alargados, não deve confundir as exigências formais da acessibilidade e clareza - ou da acutilância interventora, se se quiser - com destrambelhos plausivelmente impensáveis noutras circunstâncias. Chamar ao leninismo "mero folclore adjacente" ao marxismo, dizer que "já ninguém pensa a partir [do marxismo] algo que mereça dois minutos de atenção" ou que "aquilo que foi o núcleo essencial do projecto socialista perdeu hoje toda e qualquer pertinência" são, pelo menos, formulações que sem dúvida EPC evitaria se tivesse de as confrontar directamente com exigências de rigor intelectual. Será, por exemplo, que, ao declarar que o socialismo "tem hoje um estatuto meramente afectivo, ou funciona como etiqueta meramente agregadora não se sabe bem de quê", EPC conclui e conforma-se com a vitória global e definitiva do capitalismo? Ou, para contornar esta inevitável conclusão do que escreveu, opta por registo de conveniente e deliberado confusionismo e socorre-se de elípticas "economias de mercado", "sistemas de mercado" ou idênticos eufemismos? Por variadíssimas razões, EPC não pode ignorar que identificar, simplesmente na sua dimensão filosófica, a obra de Marx com as de Spinoza, Heidegger ou Kant é ignorar o facto fulcral que nenhuma destas últimas (e de outras que cita ou poderia citar) apresenta a originalidade histórica de ter dado origem a impetuosos e massivos movimentos políticos e transformadores que actuaram sobre a realidade do mundo e profundamente o alteraram e alteram. Todo o pensamento acaba, de uma forma ou doutra, a influenciar a realidade, é mesmo possível afirmar que a sua importância histórica se traduz na dimensão da concretização social e humana que atingiu, mas o marxismo assumiu no seu próprio eixo a pulsão transformadora social, económica e política. A formulação das teses sobre Feuerbach é apenas a mais conhecida síntese desse traço essencial que percorre todo o pensamento de Marx. Sucede que a dimensão de massas, a acutilância política e revolucionária, a dimensão histórica do nível de concretização atingido neste século pelas propostas marxistas não podem, em nome do rigor histórico e cultural, ser separadas do contributo de Lenine, não apenas na reflexão sobre as novas realidades de então como também na teorização sobre a prática política requerida pelo marxismo. Convém não misturar alhos com bugalhos nem confundir tudo isto com vulgatas dogmatizantes, de tristes resultados. Elas contribuíram, aliás, mais para adulterar e tornar estéril o património de pensamento do socialismo e do comunismo do que para efectivamente o aplicar. Com os resultados que se conhecem. Mas, por tudo isto e ainda pelas gavetas, voltaremos ao tema.
Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras |