11 de Fevereiro de 2000



O 57.� elemento


Conhecendo bem Octávio Teixeira e o grupo parlamentar do PCP, não creio que tenha estado no centro das motivações para a proposta que recentemente apresentaram na Assembleia da República o verdadeiro terramoto político e ideológico que o director do Expresso desencadeou por alturas da passagem do ano. Conforme se recordará, José António Saraiva, ao enfrentar o facto de que o ano ia mudar, tomou notas.

Essas notas destinavam-se a proporcionar ao anotador um panorama dos grandes eixos da realidade do mundo nos idos de 1999, de forma a proporcionar referências (ele explica no texto que o Expresso é um jornal de referência e intervém politicamente), dizia, referências ao povo em busca delas quanto a 2000.

Segundo, coração nas mãos, revelou, tinha notado 56 factos dignos de atenção, o que, convenhamos, é obra. Em rigor, é duplamente obra: porque não se sabe se mais admirar a capacidade de síntese de resumir o cosmos a 56 itens ou apenas conhecer 56 itens do cosmos. A dúvida perde contudo relevância quando, afinal, José António Saraiva viria a escrever sobre o quinquagésimo sétimo item, o que não constava da lista inicial: como, trémula, a opinião pública recorda, o autor verificou que as anteriores notas não incluíam uma única referência ao Parlamento.

O editorial tinha traços cartesianos: não se tratava propriamente de um "penso, logo existo", mas de um "não penso nela, logo ela não existe". O ela, já se vê, era a Assembleia da República. Na história das penas demolidoramente antiparlamentares, o texto conquistou por direito próprio um lugar de destaque. Ao verificar que o Parlamento não cabia nas suas 56 preocupações, José António Saraiva concluiu que o Parlamento não serve para nada, e tanto proclamou urbi et orbi. Como se diz acima, não sei se os deputados comunistas fizeram a aturada exegese requerida por tão profunda análise quanto exaustiva e original conclusão. Mas o que é facto é que, um mês decorrido, ei-los a apresentar à Assembleia um conjunto de propostas visando uma maior capacidade de intervenção daquele órgão de soberania. Desde a obrigatoriedade da presença semanal do primeiro-ministo em São Bento até à possibilidade de alargar a capacidade de inquirição dos deputados a altos cargos da função pública, frequentemente mais relevantes na prática quotidiana do poder que os próprios ministros e secretários de Estado.

Como é hábito nas propostas legislativas do PCP, podem os adversários discordar dos seus pressupostos ou objectivos, mas não podem negar-lhes seriedade e consistência. Após o sobressalto cívico-parlamentar desencadeado pelos 56 pontos de José António Saraiva, trata-se assim de uma iniciativa que não pode ser ignorada.

O País aguarda, pois, que nos próximos números do semanário de referência (que intervém politicamente) seja dada a indispensável atenção a esta iniciativa dos comunistas, a qual, tendo previsivelmente motivações e desígnios mais vastos, é também um contributo para que, quando o milénio passar de facto, lá para Dezembro, o director do Expresso possa acrescentar à sua cosmovisão a hoje para ela tão duvidosa utilidade da instituição parlamentar. Essa que milhares e milhares de homens e mulheres têm considerado ao longo da História como indispensável à democracia.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras rubencarvalho@mail telepac pt









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