| 4 de Fevereiro de 2000 |
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As políticas avaliam-se pelo juízo moral sobre os princípios e objectivos que as enformam, tanto quanto coerência e eficácia com a qual actuam para a sua concretização. É evidente que a possibilidade de um homem que entende que os Waffen SS hitlerianas eram "homens de carácter" ocupar um ministério num país de qualquer parte do Mundo é preocupante. Note-se contudo que o ascenso de Joerg Gaider e do seu partido não constitui - ou antes, não deveria constituir - propriamente uma surpresa para ninguém. Não constitui para quem tem consciência dos caldos de cultura perversos que gera a política europeia de desemprego, de desmantelamento dos sistemas de previdência, de agravamento dos desequilíbrios entre ricos e pobres. Não constitui para quem não esquece as ascensões de Le Pen ou Berlusconi. Não constitui para quem igualmente não esqueça que há cantões suíços que aprovaram leis xenófobas idênticas às defendidas por Haider ou que na Alemanha já se lançou fogo a albergues de emigrantes turcos. A política comunitária contribuiu largamente para o sucedido nas últimas eleições austríacas e os 14 governos que subscreveram a declaração de ameaça à Áustria seguramente teriam feito melhor se cuidassem antes das razões que geraram a situação. Dir-se-á que o facto de não se terem tomado medidas antes não impede que se tomem depois. O problema reside no facto que, após não se ter feito o que se devia fazer, faz-se agora o que é completamente errado fazer. Pior que errado, contraproducente. Em primeiro lugar, cria-se o perigoso precedente de instâncias da União Europeia ou um conjunto de estados europeus se arrogarem o direito, ou expressarem a pretensão, de funcionarem como entidade supranacional de tutela de decisões inalienavelmente soberanas de cada povo e cada país. Em segundo lugar, não é de prever que o governo austríaco, e muito menos o povo austríaco, reajam a este ralhete de forma temerosa. Muito pelo contrário, é natural que o considerem o que ele é: uma inadmissível ingerência, assim reforçando a situação que exactamente se pretende combater. O que, finalmente, poderá ainda conduzir a uma crise política, com eleições antecipadas num estado de espírito propício de ser explorado por Haider e consequências que com toda a clareza ontem referiu Luís Delgado nestas páginas. A situação não precisa de política de canhoneira governamental em versão euro e ano 2000. Precisa de mobilização da opinião pública, de intervenção e acção das forças políticas democráticas. Aliás, no quadro desta última, ignorando-se que gavetas possuem e o que têm lá guardado os socialistas austríacos, seria bom saber porque não foi ainda desmentida em parte alguma a declaração de Joerg Haider de que estes igualmente lhe haviam proposto uma coligação.
Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
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