28 de Janeiro de 2000




"O sr. é estalinista?..."


Jornais, comentadores, analistas, políticos têm, nos últimos tempos e a propósito do PCP, levantado com insistência uma questão: a posição do militante A ou do dirigente B face ao estalinismo. Do que essa posição possa ser, concluem-se posturas, projectos, alinhamentos, pontos de vista, futuros. A questão merece alguns reparos.

1. Dificilmente o estalinismo pode ser considerado um corpo coerente de ideias e práticas, políticas ou outras. Bebendo raízes num edifício consistente e desde início em constante evolução como é o marxismo-leninismo, o termo "estalinismo" acabou a ser aplicado a um conjunto complexo de soluções e práticas políticas e partidárias, opções estatais (administrativas, jurídicas, militares, de estratégia diplomática e militar, etc.) realizadas num determinado período da História do século XX, conjunto onde não é difícil encontrar contradições, inflexões de rumo ditadas por factores exógenos à sociedade soviética no qual ele essencialmente se desenvolveu, opções de evidentes resultados favoráveis e outras que impõem juízos negativos. Em rigor, o estalinismo é uma extraordinariamente complexa mescla de ideias, práticas, pessoas e situações. Só como tal pode ser encarado.

2. No tocante a pressupostos de ordem ideológica e programática, a mais elementar postura científica impõe que a análise neste campo não se baseie em opções ou proselitismos. Duzentos anos decorridos sobre a Revolução Francesa, ainda haverá quem se reconheça nos pontos de vista de Burke ou de Tocqueville ou, pelo contrário, de Marat e Saint Just.

Tentar construir um ponto de vista absoluto e definitivo, ainda por cima sobre uma realidade complexa três gerações decorridas sobre o seu apogeu, é cientificamente risível e só pode relevar de outros objectivos.

3. Se abandonarmos o corpus ideológico para passarmos ao plano estritamente político, ninguém hoje subscreve em absoluto aquilo que se designa por estalinismo - o que já de si seria bizarro pela própria complexidade que reconhecemos ao conceito.

Hitler não invadiu a URSS para salvar os soviéticos do criticado estalinismo, mas sim para escravizar os inferiores eslavos à superioridade ariana. As críticas consistentes ao estalinismo provêm da perspectiva revolucionária dos que nele encontram e apontam insuficiências, erros e mesmo crimes.

A verdadeira questão que se coloca nas nada ambíguas perguntas sobre "ser ou não ser estalinistas" não é aquela: é tentar colocar a análise e a crítica do estalinismo que estão feitas, não no campo da análise e da crítica revolucionária no qual se encontram - mas transformá-las numa opção pelo sistema e pelo capital.

4. As naturais referências de Carlos Carvalhas há algumas semanas sobre análises e decisões respeitantes ao estalinismo tomadas há uma dezena de anos pelo Partido de que é secretário-geral foram o pretexto para esta farândola.

Após o que aconteceu no Mundo, após, nos mais diversos termos, as forças de esquerda em geral e os comunistas em particular (nomeadamente o PCP) terem assumido posições claras sobre o assunto, de aos povos se colocarem problemas novos e inquietações gigantescas, pode imaginar-se que seja inocente tentar desta forma definir o centro do debate político de comunistas e democratas do Portugal do ano 2000?

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
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