21 de Janeiro de 2000



A maldição das patacas


Macau parece estar indelevelmente sujeito a maléficas influências sobre as patacas, acabando o bruxedo por sempre viajar a Lisboa. Decorrido um mês sobre as cerimónias de transmissão de poderes, a Lusa informa que Edmund Ho, o chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Macau, nomeou uma comissão para analisar "o processo de financiamento da Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau à Fundação Jorge Álvares".

A questão parece merecer cuidados às novas autoridades, uma vez que um dos objectivos cometidos à comissão é também "rever o regulamento interno da FCDM no sentido de apertar mecanismos de controlo sobre o funcionamento da fundação".

Serão seguramente poucas as pessoas que em Portugal já tenham ouvido falar da Fundação Jorge Álvares, (do nome do primeiro português que, aportando a Cantão em 1513, chegou à China) e, de facto, a ela pouco ou nada se referiram os órgãos de comunicação. Coisa até bizarra, quanto agora se sabe que ela se destinará a "promover o intercâmbio cultural e científico entre Portugal e Macau", coisa deveras lógica que se referisse quando se encheram páginas e páginas sobre os "últimos dias da nossa presença no Oriente".

Mas a verdade também é que não se trata de instituição muito antiga: foi criada em Lisboa poucos dias antes de cessar a administração portuguesa, há um mês e tal portanto.

Conta porém desde início com duas dotações de vulto: 50 milhões de patacas da citada Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau - dádiva que desencadeou o inquérito - e outros 50 milhões da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, concessionária do jogo no território.

Tudo num total de cerca de 2,4 milhões de contos.

A Fundação possui um Conselho de Curadores constituído por personalidades relevantes e conhecidas como todos os ex-governadores de Macau, Stanley Ho e sua filha, sucedendo que o último governador, general Rocha Vieira, foi não apenas indigitado para agora presidir à Fundação Jorge Álvares como era o presidente da Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau à data da atribuição do referido donativo.

Tudo indica assim que o comum dos portugueses toma conhecimento da existência da nova Fundação graças ao desagradável facto de ela estar relacionada com uma investigação sobre patacas de Macau e entidades de Lisboa. O que colocará interrogações várias, que se poderão talvez resumir a duas.

A constituição da Fundação Jorge Álvares e os donativos a ela atribuídos foram concretizados sem conhecimento da parte chinesa?

Se assim foi, tendo em conta tudo o que se passou em Macau e até a consabida sensibilidade das autoridades chinesas em relação à Fundação Oriente, o menos que se pode dizer é que foi uma imprudência.

Se, pelo contrário, a parte chinesa tinha inteiro conhecimento da iniciativa e operações a ela ligadas e, em tempo, a elas nada obstou, não se justificará um esclarecimento oficial português cujos termos sejam - é o menos que se pode dizer - claros?

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
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