14 de Janeiro de 2000



Quinze zeros


A leitura de variados jornais e revistas, o acompanhamento de diversos canais de televisão ou a audição de diferentes rádios provoca frequentemente reacções inteiramente contraditórias.

Por um lado, tem-se a sensação de viver num círculo único de acontecimentos, repetidamente abordados pelos diferentes medias, quase só com as diferenças que lhes impõem ou proporcionam as suas características técnicas ou os padrões ideológicos e políticos que globalmente os enformam.

De há muito que na América se chama a atenção para este problema. Dwight MacDonald produziu sobre ele clarividentes observações há mais de meio século, escrevendo que o problema acabava por não ser fundamentalmente as ideias que os mass media transmitiam sobre os factos, mas sim a escolha dos factos sobre os quais transmitiam ideias. Mas é igualmente verdade que a multiplicação de órgãos informativos e de diversão forçam a procura de assuntos, mesmo que por vezes a sua importância se meça apenas no facto de poderem ser um elemento de concorrência.

Dir-se-á que é deformação profissional, mas assumo a condição de leitor compulsivo de imprensa. E a verdade é que, mais até do que o conhecimento deste ou daquele facto, a acidental consulta de uma publicação habitualmente sacrificada às imposições do tempo (e do dinheiro...) me proporciona com frequência fascinantes revelações iluminadas por reveladores contrastes.

Em todo o mundo ocupou lógicas primeiras páginas a notícia da fusão da AOL com a Time Warner, um negócio que movimentou a dificilmente imaginável quantia de 70 mil milhões de contos e abre caminho ao aparecimento da maior empresa da área, com um peso determinante no desenvolvimento da Internet e do cruzamento das indústrias de telecomunicações, informação e diversão.

Naturalmente, a dimensão do sucedido não se mede apenas em cifrões: estão em causa questões de ordem científica e tecnológica (definição de padrões, estratégias de desenvolvimento e também seguramente progressos), políticas e culturais (controlo de redes e fornecedores, definição e uniformização de conteúdos), militares, profissionais - e muitas outras.

No mesmo dia em que os srs. Steve Case e Gerald Levin anunciaram em em Nova York o evento, uma revista portuguesa, a Focus, publicou uma interessantíssima reportagem onde se revela a existência em Lisboa, no Campo Grande, de uma perfeita "praça de jornas" que Soeiro Pereira Gomes poderia descrever quase com as mesmas palavras que usou nos anos 40 para narrar a contratação dos operários agrícolas pelos latifundiários alentejanos.

Há engajadores, carros que chegam para levar os trabalhadores contratados à hora para obras de construção civil, total ausência de legalidade, de controlo, exploração desenfreada, manipulação das dificuldades linguísticas.

Há ainda mais um pormenor: muitos desses trabalhadores são originários de países do Leste, têm formações técnicas como piloto de aviões ou engenheiro químico. Trabalham como pedreiros, abrem valas e podem ganhar 650 escudos à hora oito horas por dia. Quando recebem.

Depois, entretive-me a verificar que 650 escudos precisa de três zeros e 70 mil milhões de contos de 15. E, apesar de ir enviar esta crónica através de um precioso e:mail, fiquei com a certeza de que vale a pena reflectir um pouco mais sobre isto.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
E-mail: Rubencarvalho@mail telepac pt









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