7 de Janeiro de 2000



Herman


Com a finura que faz dele um dos mais interessantes críticos do audiovisual português, João Lopes escreveu ontem um artigo onde, no essencial, coloca três perguntas relacionadas com Herman José.

Nas suas próprias palavras, "a primeira e mais óbvia - o que será Herman na SIC?"; "a segunda (...): o que será a RTP sem Hermann?". A terceira decorre do anterior e é uma interrogação sobre o futuro de uma RTP que "já teve poderes para gerar figuras de grande impacte nacional como... Herman José" e, agora, "que personalidades emblemáticas a RTP inscreveu na história do espectáculo desde que há canais privados em Portugal?".

E ainda uma afirmação essencial: "Para pelo menos duas gerações de espectadores, o conceito português de televisão tornou-se inseparável do trabalho de Herman e, mais do que isso, a identidade da RTP é, desde que Júlio Isidro o revelou, devedora da sua simples presença."

É na situação retratada nestes dois últimos parágrafos que parece residir a questão. Porque há uma outra leitura dos mesmos factos que João Lopes aponta: antes de Herman José, a RTP foi capaz de produzir outras personalidades televisivas e depois não; haverá alguma relação causa-efeito?

Penso que sim.

É evidente que o artista Herman e o seu talento desempenham aqui papel determinante. Herman introduziu um humor diferente, teatral e cenograficamente elaborado, fugiu dos estereótipos do trocadilho. Encenou sucessivas situações, criou e interpretou sucessivas personagens que, além do mais, fugiam de padrões envelhecidos. Digamos que, servido pela sua imaginação e cultura, Herman não introduziu, como era de certa forma hábito, o skectch de humor no espectáculo televisivo, antes fez sobre o humor todo um espectáculo televisivo, fez toda a televisão a partir do humor.

Mas este talento e este seu tipo de criação surgiram no momento sociológica e culturalmente certo, num momento de mutações na sociedade portuguesa, tanto quanto nos seus universos culturais.

Herman afirmou-se quando em Portugal a ideologia dominante cortava simultaneamente com o passado tristonho do salazarismo e com o empenhamento político e generoso dos anos 70. Herman é ele próprio, mas é também a TV a cores, o centro comercial, o vídeo, o walkman, o hipermercado, o turismo, a diversão, o vinho de marca. Se se quiser, a generalização de um hedonismo para que ele proporcionou um ciclo de passagem: a sua cultura não hostiliza incomodamente os padrões anteriores, a sua sensibilidade não torna ameaçadoramente excessivo o que se avizinha.

Herman foi o artista certo no momento cultural certo. Por isso, como diz João Lopes, personificou o conceito português da televisão que havia, exactamente no momento em que ia deixar de haver. E por isso foi - certamente sem o querer - predador. Ao identificar e identificar-se com esse momento de transição, ao defini-lo à sua imagem e trabalho, Herman ocupou um espaço cuja conceptualização e protagonização quase só ele pôde fazer.

Herman "vampirizou" o debate ideológico e político da TV dos anos 70-80 entrevistando estadistas e transformando essas entrevistas em espectáculo, "vampirizou" o espectáculo teatral introduzindo muito e bom teatro articulado nos seus shows, "vampirizou" o espectáculo musical, os concursos, a moda, recorrendo a todas as suas expressões, explorou um subtil equilíbrio, desconcertante para o crítico exigente, entre a piada soezmente grosseira e a referência elaboradamente culta.

A RTP teve a sorte de ter tido Herman José - mas foi vítima de ter tido Herman José!

João Lopes diz "estarmos todos perante o fim amargo de um capítulo da história do espectáculo em Portugal". Não estou certo. Que a RTP deixe de ter o pesado álibi Herman e tenha de se reinventar, que a SIC tenha de dialogar com Herman, talvez possa ser, mais do que um fim amargo, um recomeço estimulante.

Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
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