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Nas suas próprias palavras, "a primeira e mais óbvia - o que será Herman na SIC?"; "a segunda (...): o que será a RTP sem Hermann?". A terceira decorre do anterior e é uma interrogação sobre o futuro de uma RTP que "já teve poderes para gerar figuras de grande impacte nacional como... Herman José" e, agora, "que personalidades emblemáticas a RTP inscreveu na história do espectáculo desde que há canais privados em Portugal?". E ainda uma afirmação essencial: "Para pelo menos duas gerações de espectadores, o conceito português de televisão tornou-se inseparável do trabalho de Herman e, mais do que isso, a identidade da RTP é, desde que Júlio Isidro o revelou, devedora da sua simples presença." É na situação retratada nestes dois últimos parágrafos que parece residir a questão. Porque há uma outra leitura dos mesmos factos que João Lopes aponta: antes de Herman José, a RTP foi capaz de produzir outras personalidades televisivas e depois não; haverá alguma relação causa-efeito? Penso que sim. É evidente que o artista Herman e o seu talento desempenham aqui papel determinante. Herman introduziu um humor diferente, teatral e cenograficamente elaborado, fugiu dos estereótipos do trocadilho. Encenou sucessivas situações, criou e interpretou sucessivas personagens que, além do mais, fugiam de padrões envelhecidos. Digamos que, servido pela sua imaginação e cultura, Herman não introduziu, como era de certa forma hábito, o skectch de humor no espectáculo televisivo, antes fez sobre o humor todo um espectáculo televisivo, fez toda a televisão a partir do humor. Mas este talento e este seu tipo de criação surgiram no momento sociológica e culturalmente certo, num momento de mutações na sociedade portuguesa, tanto quanto nos seus universos culturais. Herman afirmou-se quando em Portugal a ideologia dominante cortava simultaneamente com o passado tristonho do salazarismo e com o empenhamento político e generoso dos anos 70. Herman é ele próprio, mas é também a TV a cores, o centro comercial, o vídeo, o walkman, o hipermercado, o turismo, a diversão, o vinho de marca. Se se quiser, a generalização de um hedonismo para que ele proporcionou um ciclo de passagem: a sua cultura não hostiliza incomodamente os padrões anteriores, a sua sensibilidade não torna ameaçadoramente excessivo o que se avizinha. Herman foi o artista certo no momento cultural certo. Por isso, como diz João Lopes, personificou o conceito português da televisão que havia, exactamente no momento em que ia deixar de haver. E por isso foi - certamente sem o querer - predador. Ao identificar e identificar-se com esse momento de transição, ao defini-lo à sua imagem e trabalho, Herman ocupou um espaço cuja conceptualização e protagonização quase só ele pôde fazer. Herman "vampirizou" o debate ideológico e político da TV dos anos 70-80 entrevistando estadistas e transformando essas entrevistas em espectáculo, "vampirizou" o espectáculo teatral introduzindo muito e bom teatro articulado nos seus shows, "vampirizou" o espectáculo musical, os concursos, a moda, recorrendo a todas as suas expressões, explorou um subtil equilíbrio, desconcertante para o crítico exigente, entre a piada soezmente grosseira e a referência elaboradamente culta. A RTP teve a sorte de ter tido Herman José - mas foi vítima de ter tido Herman José! João Lopes diz "estarmos todos perante o fim amargo de um capítulo da história do espectáculo em Portugal". Não estou certo. Que a RTP deixe de ter o pesado álibi Herman e tenha de se reinventar, que a SIC tenha de dialogar com Herman, talvez possa ser, mais do que um fim amargo, um recomeço estimulante.
Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras
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