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| 5 de Novembro de 1999 |
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Tempo para matar Na passada terça-feira, António Ribeiro Ferreira publicou nestas páginas um claro alerta sobre o que se configura ter sido uma gigantesca mistificação: os "massacres" sérvios no Kosovo, que deram cobertura à agressão contra a Jugoslávia, e que se verifica, afinal, envolverem um número de vítimas sem qualquer semelhança com os absurdos números invocados e, em última instância, legitimamente passíveis de serem postos ao lado dos que resultaram da "intervenção humanitária" das bombas e mísseis da NATO. O problema da dimensão da violência é uma dúvida que acompanha a nossa sociedade contemporânea. Milénios decorridos no sentido de controlar o comportamento violento do homem, de percorrer o que Norbert Ellias chamou processo civilizacional, a consideração da morte continua a sofrer de infindos relativismos e, paradoxalmente, parecemos cada vez mais longe de caminhar para padrões éticos comuns. O jornalista americano Jason Epstein publica na última edição da New York Review of Books um devastador trabalho sobre a morte e violência no século XX, na esteira dos grandes e pequenos conflitos armados. "Always time to kill", que se poderá traduzir por "Há sempre um tempo para matar", analisa casos e situações vividos pelo mundo, especialmente no último século. Desde esse espantoso livro (Ordinary Men, de Christopher Browning, publicado em 1992) com a história dos inteiramente comuns cidadãos alemães membros do Batalhão de Reserva de Polícia n.� 1, que, enviados para a Polónia, assassinaram pelas suas mãos 38 mil judeus entre Julho de 1942 e Novembro de 1943, até ao Vietname ou às personalidades de Ramzi Yusuf, o autor do atentado contra o World Trade Center de Nova Iorque, ou Timothy McVeight, o homem da bomba de Oklahoma. Jason Epstein não encontra respostas e o mergulhar nos meandros da mente continuará possivelmente a não as proporcionar. Mas a verdade é que essa pulsão violenta não pode ser separada das sociedades e nelas encontra tanto do que a contém como do que a estimula. A ânsia da riqueza desencadeia violências pessoais e colectivas, provoca o crime sórdido da ambição face à herança ou ao roubo, da mesma forma que desencadeia o massacre da guerra de rapina, mas igualmente a pobreza e a miséria não são apenas molduras explicativas. Quando se lê que um cidadão colombiano assassinou numa meia dúzia de anos centena e meia de crianças, não parece que sejam tanto os meandros da loucura e da demência que nos afrontam. Afinal, ninguém saberá se meandros semelhantes não caracterizam o homem ao nosso lado no autocarro; pelo contrário, a geografia não é para aqui chamada, os serial killers dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha aí estão para o demonstrar. Mas o que se torna gelidamente brutal é como foi possível que ao longo de cinco anos pudesse desaparecer sem deixar rasto centena e meia de crianças - e nada acontecer. O terrível significado desta aparente indiferença é que, na Colômbia devastada pelos capitais do narcotráfico, o desaparecimento de crianças e adolescentes não é estranho, não é anómalo. Limitou-se a ser anómalo que tivessem sido vítimas de um mesmo assassino, porque, de facto, também poderiam ter morrido avulsas em tiroteios entre pistoleiros. No fundo, não há apenas sempre um tempo para matar: a exploração e a pobreza geram sempre circunstâncias para o fazer. Ruben de Carvalho escreve neste espaço às sextas-feiras [email protected]
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