É agradável ler uma reportagem que dá uma ideia aproximada do que se passa.

Diz que o menino se encontra "retido em Miami"; melhor será dizer sequestrado, não apenas em Miami mas também nos Estados Unidos.

A responsabilidade das autoridades estadunidenses neste caso é inegável e não pode, nem deve ser escamoteada.

Fosse o menino de qualquer outra nacionalidade e já há muito, de imediato, teria sido repatriado para o seu país.

Mas não, o Elián é cubano; e aí falaram mais alto os preconceitos, a mesquinhez política dos senhores de Washington.

Mesmo que isso significasse violar o Direito Internacional e acordos assinados com Cuba.

O que importava era aproveitar mais esta ocasião para continuar a patológica hostilização do pequeno país caribenho.

É uma criança de 5/6 anos? Mas que importância tem isso para o Poder que engendrou a sinistra operação Peter Pan?

O que parecia interessar era usar o pequeno para atrair o pai aos USA, na esperança de o convencer à deserção.

A partir daí foi a bola de neve.

Ante um pai e Cuba que não se calavam, exigindo justiça, os Estados Unidos - prisioneiros da sua própria teia, dos compromissos com a máfia de Miami e vendo falhar os actos de provocação a que logo deitaram mão - enredavam-se cada vez mais.

Os acontecimentos vieram demonstrar, entre muitas outras coisas, a profunda e preocupante dependência de amplos sectores do poder político de Washington da máfia de Miami.

Esta não hesita já em mostrar a sua arrogância e desprezo pelas posições dos sectores do governo mais directamente envolvidos neste caso.

Tem as "costas bem quentes".

E tira partido das hesitações e da falta de apoio institucional em que parece encontrar-se o Ministério de Justiça americano.

No fundo, joga nas contradições do sistema político/judicial estadunidense e faz valer os estreitos laços que estabeleceu com o Poder de Washington ao longo de dezenas de anos de estreita conivência política e cumplicidade nas provocações contra Cuba.

Beneficia também dos preconceitos, do sectarismo e do servilismo omnipresentes nos sectores 'bem pensantes' a nível mundial.

Em Portugal, estes começaram por ignorar os acontecimentos. Quando forçados a falar, aproveitaram a ocasião não para defender a justiça mas para mais umas (na situação presente, ignóbeis) diatribes contra Cuba.

Presentemente, pretendem colocar-se numa posição de "equidistância" (!).

Sempre com o cuidado de frisarem a sua antipatia por Cuba (apavorados com qualquer confusão que pudesse subsistir ou porque incapazes ou sem vontade de raciocinar fora do quadro da luta política, que dizem criticar) afirmam lamentar o aproveitamento político que, segundo eles, é feito pelos dois lados.

Se assim é, a estes bem pensantes só resta explicar como é que Cuba, a pequena Cuba está a levar a melhor sobre os Estados Unidos, a única e poderosa superpotência do mundo unipolar de hoje.

Para não referir que não fora a decidida reacção do pai, a firme posição de Fidel, a extraordinária mobilização do Povo Cubano e a solidariedade de muitos pelo mundo fora e a indignidade teria tranquilamente passado ante o silêncio de muitos destes bem pensantes ocupados com as suas prosas grandiloquentes.

O que é um facto é que, presos nos seus preconceitos, acabam por facilitar a vida à máfia de Miami e a todos os que nos Estados Unidos trabalham em prol da iniquidade.

Contraditoriamente, acabando por contribuir assim para o crescente desprestigio que este lamentável caso está a acarretar para os EUA.

O que se vai passar a seguir? Quero confiar na vitória da justiça. Mas quanto tempo mais vai ser preciso esperar?

Pessoalmente, nunca pensei que fosse possível descer ou ser tão baixo. Usar um criança de 6 anos para manobras "políticas".

Pobre Elián! O que te fizeram e fazem.

Não apenas os gusanos, não apenas certos senhores dos USA, mas também todos aqueles, como um diário aqui do norte, que não hesitaram em fazer títulos de grandes parangonas com as palavras que te colocaram na boca.

Oxalá bonito menino possas encontrar de novo a tranquilidade, o carinho e o amor de que precisas, agora mais que nunca, para cresceres feliz e em equilíbrio, apesar da tragédia que vivestes e vives.

Pobre pai, pobre Juan Miguel! Como eu compreendo o que sentes. Querem roubar-te a luz dos teus olhos!

Pobre Cuba! Em nome da liberdade, as baixarias que te fazem sofrer.

 

16/4/2000

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