Bancada económica
Os Perigos do "Mar de Rosas"

Por OCTÁVIO TEIXEIRA, deputado do PCP
Segunda-feira, 6 de Março de 2000

O Governo e o PS são profusos no tecer de elogios à evolução da economia portuguesa nos últimos anos, assim pretendendo provar a "bondade" da sua governação. O ponto de partida (e de chegada) é o facto de o produto interno bruto ter já quatro anos consecutivos de crescimento superior ao da média europeia.

Os recentemente publicados relatórios do Banco de Portugal e do Departamento de Prospectiva e Planeamento vieram trazer actualidade à crítica que temos feito à optimista visão governamental. Convenhamos que se trata de uma visão distorcida da realidade e pobre face às necessidades.

Omite-se, por exemplo (e esta é uma questão importante no quadro da nossa inserção na UE), que o diferencial entre o crescimento da economia portuguesa e o da média da UE tem vindo consecutivamente a reduzir-se, situando-se em 1999 em cerca de 0,6 por cento. E a perspectiva oficial para o próximo futuro é da ordem dos 0,5 por cento. A este ritmo, talvez os filhos dos nossos netos venham a registar um produto per capita enquadrado na média da UE...

Tal como se omitem outros aspectos preocupantes da realidade económica nacional: a perda de quotas de mercado das nossas exportações; o reforço do grau de penetração das importações na economia nacional; a desaceleração do investimento em bens de equipamento e meios de transporte; o agravamento da deterioração das balanças comercial, corrente e de capitais; o crescente recurso ao crédito externo para financiamento da economia portuguesa e consequente deterioração da posição externa líquida do país, bem como a aceleração do endividamento das famílias e das empresas (com os riscos que daí podem advir no contexto de um aumento das taxas de juro).

Isto é, se não nos deixarmos apanhar pelo autismo de que dá mostras o Governo, há mais razões para preocupações (a exigirem políticas adequadas) sobre a real situação e evolução da economia portuguesa do que para lançar foguetes.

Preocupações que deverão ser acrescidas para os trabalhadores.

Nos últimos anos, apesar do aumento do emprego, a verdade é que não tem aumentado o peso dos rendimentos do trabalho no Rendimento Nacional. O que se tem registado é uma evolução dos salários reais abaixo do aumento da produtividade. E um crescimento dos rendimentos do trabalho claramente abaixo do crescimento dos outros rendimentos.

E se isto assim é quando, segundo o Governo, a evolução da economia vai de "vento em popa", o que não será quando essa evolução se deteriorar de forma que nem o próprio Governo e o PS o possam ignorar...

Ao Governo, a um qualquer Governo, exige-se menos visões idílicas e mais, muito mais, realismo. Sob risco de as medidas de política por si prosseguidas não ajudarem a combater as dificuldades, antes a agravá-las. A tese do "oásis" de um Governo do PSD teve os péssimos resultados que todos conhecemos. Impõe-se que o Governo do PS não navegue pelas mesmas águas, que aprenda com essa experiência, e que não substitua o "oásis" por um "mar de rosas".

Octávio Teixeira, deputado do PCP

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