|
À sua saúde, sr. Presidente!
A PRESIDÊNCIA Aberta sobre Saúde foi um êxito pessoal do Presidente. O dr. Jorge Sampaio não escondeu o seu entusiasmo. O Presidente não quer ser um espectador, e mostra gostar de meter as mãos na massa. Quer conhecer os problemas e procurar as soluções, juntando-se aos que sabem e trabalham nas questões concretas. Há dez anos, tudo poderia ter sido diferente. Admitamos que António Guterres tinha aceite o convite do secretário-geral do PS Jorge Sampaio para a Câmara de Lisboa, em vez de o deixar isolado e encurralado como fez. Admitamos que nas legislativas de 1991, Jorge Sampaio não tinha Guterres ao lado, como um abutre, a dizer ao país a frase assassina «estou profundamente chocado com o resultado do PS», e que assim podia superar a derrota, mantendo-se secretário-geral, na corrida para as legislativas de 1995. O resto adivinha-se. Guterres poderia ter sido presidente da Câmara, engolindo uma coligação que, não sendo do seu agrado, era a única hipótese para ganhar Lisboa. E, ambicioso, espreitaria a Presidência, que acabaria por ganhar. Quanto a Sampaio, beneficiaria da mesma vontade de mudança que levou Guterres para primeiro-ministro. Teríamos Sampaio no Governo e Guterres em Belém. Seria tudo igual? Definitivamente, não. E aí está a Presidência Aberta a demonstrá-lo. Para Guterres as coisas não seriam muito diferentes. Seria célebre pelos discursos verborreicos, e viajaria pelo mundo, como faz agora. Não falharia nenhuma cimeira, colóquio, ou visita de Estado. Em matéria de viagens conseguiria a proeza de suscitar a inveja de Mário Soares... Mas, para Jorge Sampaio, as diferenças seriam como entre o dia e a noite. Poderia dar o passo em frente que agora lhe está vedado. Não se ficaria pelo estudo das questões, pelos contactos, pela discussão das soluções. No Governo, Jorge Sampaio poderia finalmente executar as soluções que agora só pode sugerir. Jorge Sampaio poderia ser o que foi no seu primeiro mandato em Lisboa, o pólo de uma equipa que lançou as bases e as primeiras obras de uma profunda renovação da capital, assente em reformas estratégicas. É certo que no segundo mandato pouco se adiantou. Mas em 1994 e 1995, Sampaio já estava com o coração em Belém... A Presidência Aberta sobre Saúde não é um fenómeno isolado. Há pouco tempo, o dr. Jorge Sampaio visitou o interior do país, pondo a nu o fosso que vai entre os discursos governamentais e as assimetrias que se vão agravando. E os exemplos podiam repetir-se. Fica só outro exemplo. O Presidente inaugurou em Julho passado uma prática que creio inédita. Fez um artigo sobre a reforma das Forças Armadas portuguesas no «Diário de Notícias», que passou relativamente despercebido. É uma pedrada no charco de uma política militar feita ao sabor das pressões das «jotas» e dos cortes orçamentais populistas. O Presidente marca um rumo de reformas democráticas e por isso o Governo não esconde o incómodo. Apresenta soluções de mérito mas que obrigariam o Governo a decisões difíceis, tocando em interesses instalados. A ministra da Saúde comprovou esta má catadura do Governo. Faltou à chamada, para o debate em Coimbra. Arrastou-se na peugada do Presidente como uma patroa perante a visita da Inspecção de Trabalho. Ouvi-a dizer que não tinha desejos, tinha necessidades. Ainda bem que está aí um Presidente que assume, sem complexos, que tem desejos e sonhos. Um brinde, sr. Presidente: melhor saúde para os portugueses! E à sua saúde!
|