
O general-chefe João Amaral
(*)
O general
Espírito Santo tinha anunciado o seu gosto em cessar funções em 25
de Julho. Relatam os jornais que lhe foi pedido pelo Governo que se
mantivesse até Outubro. Não foi isso que o impediu de fazer, no Dia
das Forças Armadas, o mais importante discurso da sua
carreira.
O destinatário não foi o presidente da República.
Este, em artigo no "Diário de Notícias" em Julho de 1999 (e creio
ser inédito o presidente utilizar essa forma para se dirigir ao
país), e no discurso na Assembleia no 25 de Abril, chamou vivamente
a atenção para as indefinições quanto à Defesa Nacional e à
instituição militar.
As palavras do presidente passaram pelos
responsáveis governamentais e pelos dirigentes do PS e do PSD como
se entrassem num ouvido e saíssem pelo outro. Assumiam assim a
responsabilidade pelo desgaste a que as Forças Armadas são
sujeitas.
O processo vem de longe. Não é possível esquecer a
irresponsabilidade do Governo PSD quando anunciou um imprestável
serviço militar de quatro meses. Como não se esquece a desastrosa
compra dos A7, a lei de "despedimento" dos coronéis, a venda forçada
de bens militares, as leis de investimento militar não cumprido, o
acordo com os Estados Unidos com contrapartidas que aquele país não
cumpriu, a degradação do estatuto profissional dos militares e
tantas outras afrontas à instituição militar.
Os últimos anos
foram os mais desastrosos. Os cortes orçamentais em termos reais
puseram as Forças Armadas em estado de sobrevivência. O modelo vive
uma espécie de purgatório. Já não é o do Serviço Militar Obrigatório
na sua plenitude. Mas também não é o de profissionais (permanentes e
contratados), pois a lei respectiva está por regulamentar há um ano.
Os investimentos militares não passam de anúncios. A discussão a que
apelou o presidente não se realizou e a instituição está sem
orientações nem definições. Os ministros sucedem-se, piorando de
caso para caso, cada vez com menos soluções.
O murro na mesa
do general- -chefe vem ainda a tempo? É preciso deixar clara uma
coisa. O problema é de falta de orientações e de vontade política.
Mas não bastam orientações e vontade política. É preciso também ver
se elas vão na direcção certa.
Por exemplo: a estabilização e
dignificação da instituição militar pressupõe que o estatuto dos
militares seja devidamente reconhecido. O que se passou na revisão
do Estatuto dos Militares (EMFAR), com o bloqueamento pelo PS da
maioria das propostas apresentadas pelas associações, é um mau
caminho. Como mau caminho é manter o artigo 31.º da Lei de Defesa e
o regime de desconfiança e ameaças sobre as associações. Aí, os
chefes militares têm tido um papel surpreendentemente imobilista. É
tempo de mudarem e, em vez de labéus, lançarem pontes e apoios.
Orientações claras significa privilegiar as missões de interesse
nacional. Por exemplo, o controlo dos mares e espaço aéreo sob a
nossa jurisdição. A efectiva cobertura de defesa de todo o
território nacional, com um dispositivo e meios de detecção e
destruição de ameaças com eficácia suficiente. No estado em que
estamos, temos de começar por garantir a casa. A projecção de forças
deve ser pensada em função dos interesses das comunidades
portuguesas e da situação dos países de língua
portuguesa.
Orientações claras significa também saber pensar
o modelo de Forças Armadas, sem roturas e mantendo a ligação ao
país.
Abençoado murro na mesa, sr. general!
(*)
Deputado do PS escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras
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