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Identidade e mudança no PCP HÁ NAS polémicas dois vícios, um a incapacidade de ouvir e outro o uso do insulto em vez de argumentos. Ao responder aos artigos do director e do director-adjunto do EXPRESSO, quero evitar esses vícios. Há uma aparente contradição nos artigos. José António Lima acha que não há futuro para o PCP, José António Saraiva acha que há futuro desde que o PCP seja outra «coisa». É uma contradição aparente. Ambos afirmam que o PCP está sem futuro se continuar a ser o que pensam que ele é. O que os distingue não é o que pensam ser o PCP, é o PCP deixar de ser isso. Há um erro de base nesses artigos: o PCP como o pensam, é uma fotografia temporalmente datada e sem dinâmica. Ora, nenhum organismo vivo é assim. Olho para fotografias minhas de há 30 anos, e conheço aí a minha identidade. E, no entanto, tanta coisa mudou, nas circunstâncias exteriores, na experiência acumulada, na leitura da realidade, nos objectivos definidos, até na composição do corpo onde todas as células completaram um ciclo de vida. As organizações são também assim, com uma identidade forçosamente sempre em mudança. A identidade não está nas aparências, sejam fórmulas ou rótulos. Está na razão de ser e na posição no mundo. Quando agora entrou na moda condenar o PCP à morte por ser o que pensam que é, esquece-se que o PCP interage com uma realidade social. Anoto quatro traços de identidade, vista dessa forma. É o PCP que assume que o sistema económico actual, o capitalismo, não é o fim da história, e que a humanidade pode superá-lo, organizando um outro sistema que não contenha a mesma injustiça estruturante. É o PCP que assume uma ligação preferencial ao mundo do trabalho e o valor insubstituível do trabalho. É o PCP que assume o igualitarismo (na visão de igualdade de oportunidades), reclamando para o Estado o papel da sua garantia. É o PCP que considera que a acção de luta é um elemento insubstituível da acção política, que concorre com a acção institucional no mesmo plano de legitimidade. Este é o espaço social, político e ideológico que dá identidade ao PCP e o torna necessário. Espaço que nenhuma outra formação política tem condições para ocupar, incluindo as que, reclamando-se da esquerda, assentam a sua acção em causas (particularmente de minorias), e não num programa global alternativo ao sistema. Claro que, se as características do sistema económico foram mudando e paralelamente o foram as realidades sociais, e se por outro lado também o código da política mudou (por exemplo, com a absolutização do valor da democracia política e dos direitos humanos), as organizações que interagem essas realidades também foram mudando, por maior que seja a resistência à mudança. Claro que se essa resistência impedir a adaptação às novas realidades, abre-se um fosso e perde-se a capacidade. Mas esse é outro problema. Quem define a sua identidade por denunciar que as injustiças crescem e por defender que elas podem ser superadas pela mobilização política dos cidadãos, não está em questão. Nem as brutais deformações de «modelos» banidos nem fracassos do caminho percorrido apagaram essa percepção de que é possível refundar a sociedade noutros critérios, de justiça, não alienação e igualitarismo (de oportunidades). Essa é uma causa que justifica quem a assume. É uma causa para as novas gerações, com uma organização que sinta e fale pela sua voz.
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