Toler�ncia quatrocentos

Jo�o Amaral (*)


Na sexta-feira dia 9 de Junho, fui a Faro participar num col�quio sobre as quest�es da paz e da defesa nacional. Fui falar sobre a paz, mas n�o podia imaginar que, atravessando o Alentejo desde Gr�ndola at� � Guia (Algarve), ia encontrar uma situa��o de guerra total.

S�o mais de cem quil�metros no IP1, com v�rios tro�os em obras. Toda a zona est� sob o regime de toler�ncia zero. Est�, mas n�o parece.

Durante todo esse percurso, vigiei ferreamente o mostrador de velocidade, mantendo-me nos 90 km/hora, ou nos 50, conforme ordens das placas de limita��o. Convencido da diferen�a entre a velocidade real e a indicada no mostrador, concedi-me numa pequena toler�ncia, nunca superior a 10%.

Mas foi uma tarefa absolutamente in�til. Ao longo de mais de hora e meia da trajecto, apesar das placas avisadoras da toler�ncia zero, fui ultrapassado por centenas e centenas de ve�culos, mesmo em tra�os cont�nuos, lombas e curvas. Um automobilista ultrapassou-me precisamente quando passei por uma brigada da Pol�cia, parada na berma. Aproveitou o facto de a minha viatura tapar o carro da GNR, e... a� foi ele, a voar baixinho.

Contei at� quatrocentas as viaturas que me ultrapassaram. �s quatrocentas, fiquei farto de contar. E n�o contei mais, como n�o contei as in�meras motas que me ultrapassaram. Os voadores s�o na sua maioria Mercedes, BMW, Audi e os todo-o-terreno de luxo, aqueles onde as "madames" v�o �s compras.

S� uma vez vi a Pol�cia de Tr�nsito em voo de ataque (com um agente a fazer-me gestos de punho fechado para eu me atirar para a berma e deixar passar a sua luminosa e barulhenta viatura). Dois ou tr�s quil�metros � frente, l� o vi, a multar um "Corsa" com pelo menos dez anos, de uma qualquer desgra�ado, desprovido de meios econ�micos para ganhar dist�ncia na persegui��o e se poder acolher na Quinta do Lago.

Sobre esta toler�ncia de gargalhada (por mim contei quatrocentos foli�es!), penso que � justo e necess�rio fazer dois coment�rios, um relativo ao ministro e � sua autoridade e outro sobre o valor e futuro da toler�ncia zero.

Quanto ao ministro da Administra��o Interna, digo-lhe que a toler�ncia zero (pelo menos naquele tro�o) � uma determina��o que s� serve para milhares de automobilistas se rirem do ministro, do Governo e da autoridade do Estado. E n�o s�: para se rirem da GNR e da sua Pol�cia de Tr�nsito. O ministro p�e uma for�a de seguran�a numa situa��o em que esta n�o pode fazer cumprir aquilo que, por experi�ncia o digo, uma grande parte dos propriet�rios de carros de alta cilindrada acham que n�o t�m de cumprir.

A segunda quest�o, a do valor t�cnico da toler�ncia zero, tem o que se lhe diga. Primeiro: pergunto ao ministro e ao comandante da brigada policial de tr�nsito da GNR se onde n�o h� toler�ncia zero � "leg�timo" infringir a lei. Em mat�ria de tr�nsito, a lei geral � a do mais ou menos?

Por outro lado, j� vi um alto-respons�vel da GNR dizer que a toler�ncia zero prolongada no tempo perdia efic�cia. Em que ficamos? Nos crit�rios de propaganda pol�tica dos ministros ou nos crit�rios de efici�ncia t�cnica para que alerta a GNR?

Por mim, continuarei a cumprir, onde houver toler�ncia zero e onde n�o houver. Eu como de certeza milhares de automobilistas que querem acabar com esta guerra estradal.

Mas saiba o sr. ministro que n�o faltam outros milhares que se riem de V. Ex.�, mesmo que seja � custa da matan�a de inocentes!


(*) Deputado do PCP; escreve no JN, semanalmente, �s segundas-feiras


Hosted by www.Geocities.ws

1