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Jo�o Amaral (*) Se a fam�lia socialista precisa de reunir para discutir entre si a situa��o, ent�o � porque h� mesmo sinais de crise. S� que estes quase cinco anos na almofada do poder j� criaram maus h�bitos. O poder mal exercido rodeia os ministros, d�-lhes uma sensa��o de superioridade e torna-os insens�veis. Perante uma reac��o mais viva da sociedade, vem o espanto: "Ent�o essa popula��o n�o est� a ver como n�s somos bons?!" Quando um governo j� n�o percebe antecipadamente que certas medidas v�o provocar uma reac��o, fica feita a prova que est� a criar um fosso entre si e os cidad�os. Os casos de arrog�ncia e desprezo pelo pa�s e pelas institui��es sucedem-se. Por exemplo: a aus�ncia do primeiro-ministro no debate sobre os aumentos dos combust�veis foi feita com requintes de provoca��o. Ant�nio Guterres preferiu o aconchego de um grupo de reverentes camaradas num hotel ao debate pol�tico com o Parlamento, � vista do pa�s. A falta do primeiro-ministro n�o � s� uma fuga �s responsabilidades, � sinal de um autismo pol�tico em crescimento. A atitude do eng.� Guterres d� o mote para outros comportamentos, como sucedeu com a audi��o parlamentar sobre o Echelon, um sofisticado sistema de espionagem. O PS, contrariando a pr�tica tradicional das comiss�es, recusou a audi��o, votando contra ela. Dessa forma, o ministro Fernando Gomes foi dispensado e dispensou-se de ir ao Parlamento. O que � espantoso e chocante � que, escassos dias depois, meteu-se no avi�o e foi ao Parlamento Europeu falar aos deputados europeus sobre o tema que foi recusado aos deputados portugueses. �, ou n�o, desprezo e arrog�ncia? O Parlamento Europeu fez, em comiss�o, uma audi��o sobre o Echelon, durante a qual ouviu as den�ncias do jornalista Duncam Campbell. Um grupo de 167 deputados europeus requereu a realiza��o de um inqu�rito. O Parlamento Europeu, precisando de mais informa��o, chama ao plen�rio a Comiss�o e o Conselho. E l� vai, atento e venerador, o ministro fornecer � Europa, em nome da presid�ncia, o que recusa a Portugal em nome do Governo. O que o ministro e o comiss�rio disseram n�o deixa margem para d�vidas. Confirmaram a exist�ncia do Echelon e dos perigos que comporta, na �rea da espionagem, e na �rea das amea�as aos direitos fundamentais dos cidad�os. Ent�o isso n�o � raz�o suficiente para levar ao ministro � Assembleia da Rep�blica? O Echelon nasce na guerra fria, num acordo que envolve os Estados Unidos, o Reino Unido, a Austr�lia, a Nova Zel�ndia e o Canad�. Nos EUA, o sistema assenta no mais poderoso dos seus servi�os secretos. O objectivo � interceptar comunica��es, nas redes fixas e m�veis de telefones, no fax, na Internet. Pode fazer escuta a alvos determinados, ou a temas devidamente seleccionados. O jornalista Campbell relata casos de espionagem industrial, para benef�cio da ind�stria americana contra a europeia. O que � que Fernando Gomes quer esconder? A quest�o � que, no meio da documenta��o existente sobre o Echelon, aparecem not�cias sobre reuni�es internacionais, sigilosas e sem agenda transparente, onde Portugal tem participado. Talvez seja esta participa��o portuguesa que leva o Governo a fugir � Assembleia. Ou, pior ainda. N�o se pode excluir que as secretas "amigas" recebam informa��es obtidas pelo Echelon. Na audi��o proposta pelo PCP pedia-se o depoimento dos respons�veis pelas secretas portuguesas. Ser� esse o problema que leva o PS a recusar a audi��o? (*) Deputado do PCP, escreve no JN, semanalmente, �s segundas-feiras |