Governo pela negativa

   
João Amaral *

No discurso de encerramento do debate do Programa do Governo, António Guterres confessou explicitamente o que toda a gente sabia: que gostaria de ter tido uma maioria absoluta e que fez campanha para isso.

Não a teve. Talvez aí esteja a razão mais forte para o manifesto desencanto com que o Governo foi formado e se apresentou no Parlamento.

O primeiro-ministro explicou o Governo e a sua política como quem cumpre uma rotina por obrigação. O eleitorado quis um Governo PS sem maioria absoluta, mas isso para Guterres sabe mais a derrota do que a vitória.

Alguma coisa, entretanto, alterou o debate. De facto, com a apresentação das moções de rejeição do Programa, António Guterres encontrou finalmente a forma de virar o bico ao prego.

As moções de rejeição são um erro táctico imperdoável. Argumentar que no passado houve casos semelhantes é sinal de falta de lucidez. Os tempos são outros, a política amadureceu e fia mais fino. Nenhum eleitor aceita hoje a política do bota-abaixo.

A moção do PSD visava, no essencial, o PP. Barroso não se importa de se expor à crítica de que é radical e põe em perigo um Governo que ainda nem começou a governar, desde que com isso consiga dificultar a vida ao PP.

A actual estratégia de Durão Barroso de permanente marcação do PP encaixa bem na ideia de Paulo Portas de que é ele quem define a intervenção e lidera a Direita.

A moção do Bloco de Esquerda assenta na ideia simplista de que basta fazer diferente (do PCP, subentenda-se) para acertar. Ou pior ainda, na ideia de que basta tomar iniciativa para adquirir liderança (sobre o PCP, claro).

Se o jogo parlamentar do BE é um manobrismo táctico, visando o PCP, então o BE vai por péssimo caminho. Antes de pensar no PCP, convém que o BE pense no campo de minas que é o Parlamento e no efeito das "jogadas" em que se mete. A moção de rejeição não é um "símbolo" com que se possa brincar.

Se nas várias esquerdas que habitam o Parlamento (incluindo uma certa esquerda do PS) há necessidade de diálogo, o pior para começar é a política da casca da banana.

A rir-se ficou só o eng.º Guterres, que pode assim fazer o papel de potencial vítima e chantajar as oposições, apelando ao eleitorado que as castigue.

Uma esquerda como o PCP não se deixará condicionar. Fará a política da verdade, com todo o sentido da responsabilidade, mas pensando no mandato que os seus eleitores lhe conferiram. Será oposição de esquerda. Não está em exame para o provar.

Mas os efeitos das moções perdurarão: o primeiro-ministro já pode exibir, contente, um Governo pela negativa, isto é, um Governo que deve existir só para evitar que "oposições radicais e irresponsáveis" o derrubem!

(*) Deputado pelo PCP

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