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Jo�o Amaral (*) Os partidos pol�ticos, como as pessoas, devem ter os seus princ�pios, que servem de orienta��o para a sua vida e cujo respeito � um tra�o essencial de car�cter. Quando os partidos pol�ticos abdicam dos seus princ�pios em nome da sua sobreviv�ncia no poder, caem no que se pode chamar uma corrup��o moral. Perdem o respeito por si pr�prios e perdem o direito ao respeito pelos outros. E d�o raz�o aos que dizem que o poder corrompe. O PS do engenheiro Guterres � hoje um partido com os seus princ�pios � deriva e � beira de uma descaracteriza��o total. A� est�, por exemplo, a vota��o do projecto de lei do CDS-PP sobre o chamado "mecenato para a vida" para demonstrar que o PS p�e os princ�pios no arm�rio desde que isso lhe pare�a servir os seus objectivos de sobreviv�ncia no poder. O projecto do PP sobre o tal "mecenato para a vida" � um daqueles casos de hipocrisia descarada que caracterizam a Direita portuguesa. De facto, perante o drama de sa�de p�blica que � o aborto clandestino, a Direita prefere ver as mulheres a continuar a ter de recorrer �s abortadeiras de v�o de escada, ou �s cl�nicas no estrangeiro, quando tenham dinheiro para isso. Vota contra a despenaliza��o e o devido apoio m�dico, s� para que as dificuldades das mulheres n�o lhe apare�am � frente e se mantenha a clandestinidade das situa��es. Esta � uma quest�o que divide com nitidez a Esquerda e a Direita. A Esquerda quer que a mulher tenha direito ao respeito e � dignidade pessoal. Perante o terr�vel drama do aborto, a Esquerda n�o assobia para o lado: enfrenta a quest�o, assume a realidade social da mulher e defende a sua sa�de e dignidade. Vota despenaliza��o. Estes s�o os princ�pios da Esquerda. Depois do debate que levou ao referendo e � derrota do projecto de despenaliza��o, o PP, como partido de Direita, sente a hipocrisia da sua posi��o. Sente a press�o das mulheres. Tem de fazer qualquer coisa que pare�a uma preocupa��o com o problema. Da� o projecto do mecenato para a vida. Trata-se de dar mais umas isen��es fiscais �s empresas e pessoas que d�em dinheiro a institui��es que a Direita diz combaterem o aborto. � a hipocrisia da Direita. Fizeram uma terr�vel campanha contra as mulheres e o reconhecimento dos seus dramas mais dif�ceis. Agora, aparecem sorrateiros, com l�grimas de crocodilo, a propor uma caridadezinha que conserve tudo na mesma, isto �, a mulher sem a devida protec��o de sa�de e sem ver reconhecida a sua dignidade. � por isso que, para uma esquerda de princ�pios, s� h� um caminho: votar contra, para n�o pactuar com a hipocrisia e com falsas "solu��es". Mas, s� para n�o ficar mal com o PP e para n�o ficar exposto ao eleitorado conservador, o PS votou a favor. Quer l� saber dos princ�pios! A dignidade das mulheres pode ir pelo cano de esgoto abaixo, v�tima da mais torpe hipocrisia, que isso para o PS vale o que vale. O essencial � a sobreviv�ncia. O voto. O poder. Mau caminho este. E erro colossal: s�o os princ�pios e o seu respeito que tornam uma institui��o cred�vel e mobilizadora. Sem princ�pios, um partido perde refer�ncias. Perde o direito � considera��o. E perde o apoio da sua base social. Condena-se a si mesmo. (*) Deputado pelo PCP |