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Este PS não é de
confiança
CICLICAMENTE, alguns
dirigentes do PS arrogam-se o direito de fazer uma espécie de exame ao
PCP, para declararem qual o seu estado de aptidão para ser parceiro na
solução de problemas políticos. Esse exame estende-se às vezes à
possibilidade de fórmulas de participação conjunta, PCP e PS, na gestão de
autarquias ou mesmo no governo do país.
Ainda há poucos dias, a propósito das próximas autárquicas, alguns
altos dirigentes do PS vieram declarar publicamente que, perante o que
entendem ser a evolução do PCP, já achavam possível o PS fazer coligações
com o PCP. Vale a pena comentar, em aparte, que, dizer no PS, com a pompa
das grandes novidades, que hoje é politicamente possível fazer coligações
com o PCP, quando há dez anos existe uma tal coligação na cidade de Lisboa
funcionando com geral satisfação, é no mínimo caricato. Mas, ridículo ou
não, o exame foi mais uma vez feito.
Com a mesma legitimidade que assiste a esses dirigentes do PS para
deitarem o PCP na marquesa médica e submetê-lo a exame, faço aqui também o
exame do PS, para saber se ele está em condições de participar com forças
políticas da esquerda em soluções políticas, no governo do país ou nas
autarquias.
Como é óbvio, este PS do engenheiro Guterres não é o mesmo PS do dr.
Jorge Sampaio, que foi quem fez a coligação com o PCP na capital do país.
Nem é o PS dos que continuam socialistas e acreditam em coisas, tão fora
de moda para o guterrismo, como o valor do trabalho, a luta social ou o
princípio da laicidade do Estado. O PS do engenheiro Guterres é este PS
dos negócios, um PS que não acredita na transformação da sociedade, um PS
que inspirado nas convicções do seu líder entende que justiça social é
copiar a Conferência de S. Vicente de Paulo, visitando os doentes e dando
esmola aos pobres.
É certo que este PS, como tudo na vida, não pode ser resumido na
fórmula preto ou branco. Por isso, aquilo que faz e que mereça ser
louvado, tem de o ser. Por exemplo, a forma descomplexada como encarou o
sindicalismo na PSP merece aplauso. Mas, a manutenção da GNR no obsoleto
estatuto de vinculação militar, que dá situações absurdas - como a recente
condenação penal de um guarda que não obedeceu à ordem... de servir duas
cervejas! - mostra que o PS nunca é capaz de levar nada até ao fim. O seu
reino são as meias-tintas. O seu maior gozo é ser baço e agradar a gregos
e troianos.
O estado deste PS não podia ficar mais à vista do que com o que foi
mostrado com o caso Cravinho. O que disse o ex-ministro da tutela das
Obras Públicas só pode significar o reconhecimento expresso de que quem
decide não é o Governo mas sim os «lobbies» que mandam neste Governo deste
PS.
O ex-ministro falou sem papas na língua ao país para dizer o que é este
PS do guterrismo e como é a «lobbydependência» de que padece. E para dizer
de frente ao PS que este não é o caminho de um Governo independente.
Se o anterior ministro da tutela das Obras Públicas diz que o Governo
cedeu aos «lobbies», não sobra espaço para o actual ministro das Obras
Públicas. O dr. Jorge Coelho já esteve no centro de toda a polémica dos
«jobs for the boys». Está agora no centro da acusação, que vêm do seu
próprio partido, da cedência deste Governo aos «lobbies» de interesses dos
grupos económicos, no caso os da construção civil.
Toma-se a decisão de construir um novo aeroporto na Ota como mera
decisão política, sem fundamento em estudos técnicos, que são
contraditórios e inconclusivos. O novo aeroporto será um óptimo negócio
para a construção civil e para especuladores de terrenos, não só na
própria construção do aeroporto e outras obras que exige, mas também na
construção de novas cidades à sua volta e na megaoperação de
aproveitamento urbano dos terrenos da Portela. Então, há ou não «lobbies»
a pedirem aeroporto?
Continuam as operações de saneamento das competências e sua
substituição por «boys», tudo feito com desprezo pelas pessoas e sem
qualquer pudor.
Continua o serviço dos grandes grupos económicos, cada vez mais donos
das decisões políticas governamentais.
Seguramente, este PS não é de confiança. Pela sua própria prática,
parece querer cortar as escassas possibilidades de diálogo à esquerda.
É pela esquerda, a quem dá cada vez mais espaço, que este PS acabará
por soçobrar. E é pela esquerda que se poderá construir uma alternativa.
Se a esquerda que sobra dentro do PS o compreender, isso acontecerá mais
cedo do que tarde!
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