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Falta ainda o
Natal do cidadão
O JOGO subtil da
história levou a que os anos novecentos terminassem para Portugal com uma
revisitação do passado e de alguns temas que marcaram os anos de chumbo do
século XX português.
Pela opção da data da China para a recuperação de Macau, o Império
voltou a ser evocado. E, como bem se viu, com mais saudades que
distâncias.
Com o Império, regressaram também os três efes: o fado, com a morte da
Amália; o futebol, com a realização em Portugal do Euro 2004; e Fátima,
com a controversa decisão de beatificar os pastorinhos.
É desta maneira que dizem Portugal estar na moda e ser notícia no
mundo. Não por um progresso científico ou acontecimento cultural. As
esperanças de 98, onde Portugal avultou com o Nobel e a Exposição Mundial,
parece que se desvaneceram. Regressaram os ecos do pior Portugal do século
XX, como que espartilhado pela mentalidade rural vinda de Santa Comba.
Não há nestes temas um desafio que impulsione um Portugal de
modernidade. É como se voltassem a atar aos pés do país uma grilheta para
o manter com os mesmos mitos e o mesmo fado choroso.
A realidade deste último Natal de novecentos é que o país não tem um
projecto. Sinal disso é o estado caricato da política, que se arrasta
entre o «fungagá» que vai pelo PSD e o acomodamento de um PS a gerir
«jobs» em vez de políticas.
Aqui venho eu, crente, a pedir ao Pai Natal que neste final de
novecentos ponha no sapatinho de Portugal um vento forte, que varra os
fantasmas tirados do armário e traga uma mão-cheia de inquietudes.
Há dois mil anos foi tempo de ruptura. Nascia um menino que teve pouco
de conformado e bem comportado, e ficou conhecido por zurzir ricos,
vendilhões e fariseus.
A herança que se celebra não é a do conformismo, é da ruptura.
A mais importante ruptura a fazer em Portugal é a da construção da
cidadania. Fala-se mais de novas pontes e de melhores pensões do que de
cidadania. Fala-se mais de cidadania longe, na construção europeia, do que
aqui, na política portuguesa.
Os ecos do passado só reaparecem por ser débil o projecto de construção
de uma cidadania exigente. Continuamos a menosprezar os valores próprios
da cidadania, no reconhecimento dos direitos e na valorização dos deveres.
Nega-se na prática o direito de acesso aos tribunais e a uma justiça em
tempo útil. Organizam-se com criminosa desumanidade extensas listas de
espera nos hospitais. Veda-se a entrada das regras da democracia dentro da
empresa. Mas, em vez de respostas, ouvem-se as queixas corporativas de
juízes, médicos ou patrões, a que o poder político acorre de imediato.
A mesma falta de sentido de cidadania leva o caos às estradas, origina
abusos das autoridades e do poder burocrático, fomenta a
subsidiodependência e a desresponsabilização.
Há-de um dia existir um outro Natal, o Natal do cidadão. Neste último
Natal de novecentos fica um apelo: cidadãos, revoltem-se, como há dois mil
anos!
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