A campanha alegre

Ilda Figueiredo (*)


H� quem queira transformar a pol�tica numa sucess�o de folhetins mais ou menos divertidos, de guerras de alecrim e manjerona entre as componentes de uma pequena elite que domina o pa�s, num processo mais ou menos rotativo, parecendo apostar na indiferen�a dos cidad�os para quem, naturalmente, o importante seria que os pol�ticos resolvessem os problemas do pa�s e cumprissem promessas eleitorais.

No PSD, s�o as habituais telenovelas sempre que est�o na oposi��o. N�o h� l�der que resista �s ambi��es da retoma do poder e das benesses que lhe est�o associadas.

No PS, enquanto se zangam as comadres e se descobrem as verdades, o pa�s assiste, at�nito, aos crescentes refor�os do poder econ�mico pela m�o e com apoio aberto de ministros como Pina Moura e Jorge Coelho, enquanto prosseguem as crises sucessivas na sa�de, na justi�a, na educa��o, e mantemos as m�dias salariais mais baixas da Uni�o Europeia.

No Governo, agora a viver, talvez, a �ltima presid�ncia portuguesa da Uni�o Europeia, procuram-se as palavras grandiloquentes para sublinhar os actos portugueses, como se, finalmente, dobr�ssemos o Cabo das Tormentas do desemprego prec�rio e de cada vez mais escassos direitos, das discrimina��es permanentes de mulheres trabalhadoras e do desfazer de sonhos de jovens para quem um emprego seguro e de qualidade � cada vez mais uma miragem.

No Porto, e na respectiva �rea metropolitana, j� come�ou a luta pelo lugar de presidente, apesar de se estar apenas a meio do mandato aut�rquico, dos projectos, mil vezes prometidos e mil vezes anunciados, n�o sa�rem do papel, e dos problemas das popula��es nas �reas da habita��o, do saneamento, do tr�nsito e transportes se arrastarem penosamente. Importante, mesmo, parece ter sido festejar o fim de ano com atraso de oito dias. E apostar em quem vai ser o candidato no Porto, em Gaia, Matosinhos ou Gondomar. As obras do metro, essas, podem esperar. As casas degradadas podem continuar a cair. E nem as cenas de tiros e mortes nos bairros conseguem alertar para a gravidade crescente dos problemas sociais.

Parece ser destino do pa�s. J� h� cerca de 130 anos, E�a de Queir�s, em ''Uma campanha alegre", escrevia: " N�s n�o quisemos ser c�mplices na indiferen�a universal". E interrogava: "N�o � verdade, leitor de bom senso, que neste momento hist�rico s� h� lugar para o humorismo? Esta decad�ncia tornou-se um h�bito, quase um bem-estar, para muitos uma ind�stria... Vamos rir, pois. O riso � uma filosofia. Muitas vezes o riso � uma salva��o. E em pol�tica constitucional, pelo menos, o riso � uma opini�o".

Ser� que neste contexto ainda vale a pena lembrar que, no Porto, na Rua das Musas, h� cem anos, nasceu um dos maiores poetas portugueses de sempre, Jos� Gomes Ferreira, de quem h� ainda um importante esp�lio por publicar? Foi ele quem escreveu:

" A palavra revolu��o.

Encontrei-a na esperan�a dos homens a constru�rem novos segredos com l�grimas e areia - para a palavra Deus decifrar".

(*) Deputada do PCP no Parlamento Europeu


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