Descartáveis!

Honório Novo (*)


Num passado não tão distante como isso, respeitáveis pessoas viviam da escravatura, pretextando, provavelmente para tranquilizar consciências, que sempre fora assim, que nada havia a fazer, que era a vida!...

Mais recentemente foram os campos de concentração, onde a escravatura era a antecâmara do extermínio colectivo. O trabalho escravo lá estava, mão-de-obra garantida para as tarefas desqualificadas, que a economia de guerra do nazismo impunha, precedendo o aniquilamento. Já não serviam para trabalhar, serviam para os fornos crematórios. Enfim, descartáveis...

Ontem fomos nós, portugueses, a demandar as Franças, onde o "boom" económico do pós-guerra nos reservou "bidonvilles" e trabalhos que os residentes não queriam. E onde a falta de direitos foi, anos a fio, a contrapartida aceite para evitar o reenvio forçado para o rectângulo lusitano, subdesenvolvido e amordaçado. Éramos os descartáveis de um jogo sujo, criado pelas urgências do crescimento económico de então.

Hoje, a chamada Europa desenvolvida, a cujas franjas já pertencemos, continua mais do que nunca a atrair povos, a dar-lhes uma imagem de falsas facilidades. Para tal tem contribuído a chamada globalização, que não visa o desenvolvimento integral, apenas tem aumentado a riqueza dos que já eram ricos e o empobrecimento dos mais pobres.

De Portugal não dizemos o que é a precariedade laboral, moderno conceito de escravidão que dá trabalho ao mês, à semana, até ao dia, a um terço dos empregados portugueses. Não dizemos que neste "trabalho" se exige o silêncio e a ordem e se aponta o olho da rua ao menor sinal de alerta... De Portugal (e dessa Europa) não dizemos que também dispõe um exército de descartáveis para que a chamada economia competitiva se enriqueça e continue a obter do poder político a cobertura legislativa para a mais despudorada instabilidade laboral.

Mesmo assim não chega. Estes descartáveis são luxo, ainda muito caros para a voracidade de certa economia. Ainda têm certos direitos de cidadania.

Por isso são precisos descartáveis de segunda, imigrantes negros, marroquinos, do Leste ou do Oriente, que importa que venham quando a economia o exige, que importa recambiar logo que não sirvam.

E lá está o Governo, com o apoio da Extrema Direita parlamentar, a criar uma nova lei de imigração. Lá está o PS a criar novo exército de descartáveis, uma legião de excluídos com autorização anual de permanência, cuja existência e renovação dependerá das empresas que deles necessitem. Lá está o PS a aceitar quotas de descartáveis, a gerar novas "máfias/empresas" de trabalho escravo, prontas a receber parte dos míseros salários de quem quer para fazer parte dos contingentes de importação...

Descartável é esta Lei reaccionária. Descartável será este Governo se alguns socialistas que se recusaram a votar tal enormidade não passarem a ter a coragem de entrar na sala e dizer basta!...

(*)Deputado do PCP, escreve no JN, quinzenalmente, ao sábado


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