O
cibergoverno
Honório
Novo
"Entendi
ser este o momento adequado para me dirigir ao país..."
foi assim que o ciberprimeiro-ministro do cibergoverno
socialista (ou será governo ciber-socialista?) começou o seu
discurso desta semana na AR. Poucos dias depois de o Papa ter
estado cá e do Sporting ter sido campeão, até se pensou que
Guterres iria desvendar uma espécie de quarto segredo. Puro
engano. Era algo mais terreno: Guterres fez apenas algumas
promessas "para uma vida melhor"...
Fazer promessas não tem nada de especial, dirá o leitor. Mas
para quem, há bem poucos meses, tinha estado, em campanha
eleitoral, a tentar renovar o paraíso cor-de-rosa, para quem,
logo depois, tinha publicado dezenas de páginas com centenas de
promessas, intituladas programa do Governo, não seria assim tão
fácil descobrir mais algumas. Por isso, foi um acto de quase
divina inspiração o que levou Guterres a recriar e anunciar,
solenemente, novas-velhas novidades.
"Vou dar internet aos portugueses. Em 2004, metade dos
portugueses vão estar ligados à dita"...
Já não me lembro bem quando os portugueses vão ter (quase)
todos telemóvel com imagem. Também não sei já em quanto
tempo, milhões de portugueses vão receber formação cibernáutica.
Lá mais não sei quando, tudo neste país estará
"on-line", todos comunicarão pela net e até os
namorados o farão (espero bem que não apenas) por correio
electrónico. Uma revolução quase de graça, insistiu o
ciberprimeiro...
Que as novas tecnologias são fundamentais e que é essencial
aceder a elas em larga escala, já o sabíamos. Mas que o
Governo mandasse vir o ciberprimeiro dos seus afazeres mundiais
só para nos "dar música", quando o país tem
problemas concretos, ocasionados pela governação
ciber-socialista, é que os portugueses não mereciam.
Metade do país ficou sem luz durante horas? O cibergoverno só
sabe que a culpa foi da cegonha. Os combustíveis, o gás, os
transportes aumentam muito acima da inflação? Que há-de fazer
o ciber? A culpa é da OPEP e da Gás de Portugal. Os juros
disparam, as prestações dos empréstimos sobem dezenas de
contos? A culpa é do Banco Central e, ao contrário do que
tinha dito, o cibergoverno aí nada manda. Houve má-fé na
negociação salarial da função pública e de outros sectores?
A culpa da indignação social é dos comunistas (diz o ciber e
um email de Santa Comba), para o ano, que há eleições autárquicas,
falamos. Vão diminuir os impostos dos assalariados, vai
terminar o paraíso da banca e de mais alguns? Que diabo, o
cibergoverno já prometeu a reforma fiscal, vai diminuir o número
de escalões, não sabe é quando, nem a favor de quem.
Para o ciberprimeiro, isto são questões sem importância,
simples números. O que conta são as pessoas. Por isso, em
breve, o cibergoverno mandar-nos-á recados só pela net,
saudar-nos-á só por telemóvel. Mesmo que o ordenado não
chegue para o mês ou a precariedade continue a reinar neste país
cibernético.
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