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Honório Novo * A 3 de Novembro, o novo Parlamento reuniu-se pela primeira vez, após a sua tomada de posse. Discutiu, como se sabe, o programa do novo (?) Governo do presidente da Internacional Socialista e putativo candidato a líder da Comissão Europeia, António Guterres. Face à importância política do acto, houve mesmo transmissão directa no canal 2 da RTP. Quem a ela tenha assistido terá tentado reconhecer, ao longo das bancadas, os deputados eleitos a 10 de Outubro; penso mesmo que tal tentação terá até atingido muitos dos que naquele dia se abstiveram. Como espectadores, todos teriam natural curiosidade em rever alguns dos candidatos que durante semanas lhes tinham batido à porta, lhes tinham escrito cartas simpáticas, aqueles a quem apertaram a mão, ou a quem deram um beijinho na feira ou lhes apareceram em "out doors" ao virar de cada esquina. Só que terão visto poucos dos que mais insistentemente lhes tinham jurado ser deputados intransigentes e empenhados... De facto, a 3 de Novembro, mais de meia centena dos eleitos pelo PS e perto de vinte dos que o foram pelo PSD já não "moravam" na Assembleia da República, isto é, já tinham pedido a suspensão dos mandatos. Esta "debandada" seria naturalmente de esperar por parte de muitos deputados eleitos pelo partido mais votado, os quais seriam sempre obrigados a suspender mandatos pelo facto de irem integrar o governo. Mas, como em tudo, há sempre um "mas". E os que pediram suspensão de mandato e não foram integrar nenhum governo? E os doze presidentes de câmara (de Melgaço à Guarda, de Braga a Espinho, de Sintra a Vila Franca, do Montijo a Setúbal) que foram eleitos deputados pelo PS e suspenderam de imediato o mandato para o qual deram a cara e pediram votos? E os treze presidentes de câmara eleitos pelo PSD (entre os quais quatro no distrito do Porto, um dos quais o próprio cabeça de lista) que nem aqueceram os lugares para os quais se haviam candidatado? E os dois presidentes de câmara do CDS/PP (sempre tão impoluto nestas coisas da ética política), eleitos deputados a 10 de Outubro e que, a 25 do mesmo mês, quando tomavam posse, ... suspenderam o mandato? Mas não são apenas presidentes de câmara. Há também outros, muitos outros, abandonos, desde presidentes de governos regionais a presidentes de clubes desportivos ou altos funcionários da Bolsa de Valores. Que razão leva estas pessoas a candidatarem-se, e os respectivos partidos a apresentarem-nos como principais candidatos em eleições legislativas? O que as motiva a pedirem votos, sabendo de antemão que não vão exercer os cargos? Percebe-se que presidentes de câmara, ou de clubes de futebol possam influenciar mais facilmente. Percebe-se que dê resultados e votos fazer pensar às populações que estão a eleger certas pessoas, mesmo que isso nunca venha a ser realidade. Mas não deixa de ser feito. E pouco ético. E, sobretudo, não deixa de contribuir para que as pessoas tenham algumas razões para se afastarem da política. Embora também se prove, mais uma vez, que não são todos iguais, veja-se o exemplo da CDU. Mas o que mais espanta é que quem mais utiliza esta prática do "engano" é quem mais fala em alterar as leis eleitorais para "aproximar eleitos de eleitores"... Cumpre cada vez mais a quem elege saber reconhecer as diferenças entre aquilo que lhe mostram, aquilo em que pensa que vota e aquilo que lhe aparece na frente depois das eleições... (*) Deputado pelo PCP |