(17/4/99 às 21:55)
A cada dia que passa torna-se mais claro que a agressão contra a Jugoslávia é a guerra que os Estados Unidos decidiram fazer na Europa; hoje já poucos o negam.
A explicação para esta atitude reside, em meu entender, no caracter do regime estadunidense. O governo dos EUA é um governo beligerante por natureza, sempre pronto a promover intervenções militares em qualquer parte do mundo com exclusão, evidentemente, do seu próprio território.
Com os argumentos que se julgam mais apropriados para cada ocasião, esta é uma realidade sempre presente na sua política externa: Nicarágua, Granada, Líbano, Somália, Jugoslávia ...
É assim que, para lá das questões políticas da liderança mundial,
alimentam os lucros fabulosos do seu todo poderoso complexo militar-industrial.
Presentemente, asseguram nos Balcãs, onde descarregam quantidades maciças de
sofisticadíssimo armamento, um largo e rendoso mercado para a sinistra industria de
armamentos, preferencialmente americana.
No entanto, após a derrota no Vietname, as condições políticas nos Estados Unidos
tornaram difíceis a realização de operações onde se registassem baixas entre as
tropas norte-americanas. Daí o rápido abandono das zonas de conflito onde estas baixas
se verificaram: Líbano e Somália.
Os generais do Pentágono e os políticos da Casa Branca (branca por fora e negra por dentro) tinham um agudo problema entre as mãos: não se podiam deixar aprisionar pela sua opinião pública mas era-lhes difícil ignora-la nesta questão.
A campanha do Iraque pareceu fornecer a solução. Convenceram-se de que fazendo uso da sua enorme superioridade aérea, balística e tecnológica resolveriam todas as questões: garantiriam os lucros aos seus patrões da industria de armamentos, fariam a guerra, derrotariam o inimigo, colheriam os louros da vitória praticamente sem saírem do sofá de casa ou das acolhedoras salas de comando, a milhares de quilómetros da zona de conflito, com zero ou praticamente zero baixas.
Simplesmente, a admirável tenacidade do Povo Jugoslávo pôs em crise esta embaladora teoria.
Não reconsideraram. Não se decidem, embora ponderem a intervenção terrestre. Os medos são muitos. Pela frente está um extraordinário Povo, forjado na luta secular pelos valores pátrios.
Mobilizam então quase todo o seu potencial aéreo. É uma escalada sem precedentes. Está em causa a credibilidade da Nato, dizem. Qual credibilidade? Não a credibilidade para fazer a paz, para encontrar soluções justas e duradouras, mas a credibilidade para matar, para destruir, para esmagar o inimigo. Não é esta a credibilidade de qualquer chefe mafioso, da "cosa nostra" , que tanto sucesso tem nos USA?
Deste modo, renegando todos os valores por que diziam (e ainda dizem) lutar aprestam-se a destruir todo um país, a condenar todo um povo às maiores privações só porque este não se quer render, não se deixa humilhar, defende a sua dignidade e o direito de viver sem tutelas.
Os Estados Unidos (a Nato) são o problema. E ainda não é certo que obtenham a "vitória". O absurdo da situação, a enormidade dos meios utilizados, a resistência dos Jugoslavos, a consciência de que os bombardeamentos nada resolveram e tudo vieram agravar (não se apagam fogos com gasolina), a luta dos Povos, incluindo o dos Estados Unidos, pode acabar por ditar as adequadas soluções de que carecem as populações daquela região.