Por Miguel Urbano Rodrigues Desde as grandes jornadas do Abril portugu�s que n�o festejava pela noite adentro a vit�ria de uma Revolu��o. Aconteceu agora em Santiago no cen�rio caribenho capital do Oriente cubano. A escolha nasceu da hist�ria real. A primeira Rep�blica Cubana foi proclamada na Prov�ncia de Santiago ap�s a liberta��o dos escravos por Carlos Manuel de Cespedes, o pai da p�tria. Foi ali que se travaram as grandes batalhas da guerra dos Dez Anos, iniciada em 1868. Foi no Oriente que Mart�, Maceo e M�ximo Gomez desembarcaram em l895 na arrancada da Segunda Guerra de Liberta��o. � tamb�m no Oriente que se localizam o Quartel Moncada e a Sierra Maestra, cen�rio de uma saga que abriu o caminho � primeira revolu��o socialista da hist�ria das Am�ricas.
Santiago �, por direito hist�rico, a cidade
her�i de Cuba, ber�o de uma cadeia de revolu��es. Ningu�m lhe contesta o t�tulo.
Entre os convidados, vindos dos quatro cantos do mundo, havia gente de trinta pa�ses. Revolucion�rios como o portugu�s Vasco Gon�alves, o salvadorenho Shaffick Handel, da Frente Farabundo Mart�, o italiano Fausto Bertinotti, da Refunda��o Comunista Italiana. Entre grandes escritores que trouxeram a sua solidariedade � Revolu��o Cubana, dois Pr�mio Nobel, Jos� Saramago e Gabriel Garcia Marquez. Presentes tamb�m pintores de prest�gio mundial, como o equatoriano Guayasamin.
A meu lado, � direita, sentava-se Ram�n Pez Ferro, participante do assalto a Moncada, hoje deputado � Assembleia Nacional do Poder Popular e presidente da Organiza��o de Solidariedade dos Povos da �frica, �sia e Am�rica Latina (OSPAAAL). � minha esquerda tinha uma jovem boliviana de beleza deslumbrante. Era a sobrinha de Jos� Arana Campero, o Chapaco da guerrilha do Che, cujas ossadas haviam sido colocadas dias antes, em cerim�nia nacional, no Mausol�u de Santa Clara. Outros familiares de peruanos e bolivianos da guerrilha de �ancahuazu estavam igualmente na Pra�a, convidados pelo governo cubano. A Revolu��o cultiva a mem�ria dos seus mortos e daqueles que, como internacionalistas, assumiram os ideais do povo de Mart�.
A noite da vit�ria Numa atmosfera de sil�ncio absoluto Fidel
principiou por recordar a noite em que h� exactamente quarenta anos, daquele mesmo
balc�o, anunciou a vit�ria sobre a tirania de Batista e o in�cio de uma revolu��o que
se prefigurava profunda, radical.
Ap�s o desastre de Alegria del Pio, as duas dezenas de expedicion�rios do Gramma que, dispersos, escaparam ao massacre, dispunham apenas de 7 fuzis. E, contudo, o imposs�vel fez-se realidade com o tempo. Esse punhado de sobreviventes foi o n�cleo do chamado Ex�rcito Rebelde que em menos de 24 meses derrotou as For�as Armadas de Batista, financiadas e armadas pelo imperialismo norte-americano.
A �nica excep��o foi uma remessa de fuzis oferecidos pelo almirante Larrazabal, ap�s o derrubamento da ditadura na Venezuela.
O fecho dessa campanha foi a tomada de Santa Clara na sequ�ncia de uma caminhada de 400 quil�metros realizada em condi��es inimagin�veis atrav�s de territ�rios controlados pelas tropas do governo de Batista.
Um mundo diferente Fidel fez quest�o de dar �nfase �s diferen�as. Produziram-se no mundo transforma��es prodigiosas, umas boas, muitas inquietantes. A URSS desmoronou-se. A revolu��o tecnol�gica e cient�fica abre ao homem possibilidades quase infinitas de melhorar a vida das grandes maiorias. Mas isso n�o est� a ser feito.
Ele pr�prio lembrou que n�o � o mesmo homem que h� quatro d�cadas se dirigira ao povo daquele balc�o. Estava vestido da mesma maneira e as suas convic��es s�o as mesmas. Mas hoje o seu discurso e a sua mundivid�ncia reflectem as mudan�as ocorridas em Cuba e na Terra.
Citou n�meros, contrapondo o panorama de mis�ria, podrid�o, ignor�ncia e desigualdade social que Cuba ent�o exibia ao oferecido hoje por uma sociedade socialista onde mais de 600 000 cidad�os t�m diplomas universit�rios e o total de m�dicos ultrapassa os 64 000, a mais elevada percentagem do mundo. O ensino, antes privil�gio de uma minoria, � hoje obrigat�rio at� ao nono ano, e totalmente gratuito, bem como os cuidados de sa�de.
Mas recordou que uma �extraordin�ria p�gina de gl�ria e de firmeza patri�tica e revolucion�ria foi escrita nestes anos�, exigindo do povo sofrimentos e sacrif�cios dur�ssimos. As dificuldades do presente foram no discurso ponte para a an�lise dos problemas angustiantes que a humanidade enfrenta na viragem do mil�nio. Preocupa-o muito o rumo que a humanidade est� a ser for�ada a seguir num contexto de unipolaridade. Enquanto fazem a apologia do capitalismo globalizado neoliberal e tratam de o levar �s ultimas consequ�ncias, os EUA sonham j� com col�nias futuras na Lua e em Marte. Na Terra, contudo, promovem uma pol�tica que empurra a humanidade para uma cat�strofe. Assistimos inclusive a uma perigosa agress�o ao planeta, que � a p�tria comum do homem.
Presenciamos, impotentes, o desenvolvimento sistem�tico de uma estrat�gia alucinat�ria, t�o perigosa que os defensores do sistema come�am a ter d�vidas sobre o resultado final, a sentir medo das consequ�ncias dos seus actos e da sua incapacidade para controlar as crises que desencadeiam.
Trata-se de uma aberra��o que faz do homem uma simples mercadoria. Ora, na realidade �sem igualdade e fraternidade, que foram lemas sacrossantos da pr�pria revolu��o burguesa, n�o pode nunca haver liberdade; a liberdade e a igualdade s�o absolutamente incompat�veis com as leis do mercado�. Este � cada vez mais marcado pela irracionlidade. A antec�mera da trag�dia Na opini�o de Fidel a humanidade est� a ser empurrada para a antec�mara do que pode ser uma trag�dia. Recorrendo a factos e n�meros esbo�ou o quadro em que se desenvolve e funciona o mercado, feroz como uma besta, irracional. Os te�logos do neoliberalismo actuam - afirmou - como fundamentalistas de um novo tipo cujo projecto de sociedade � devastador e invi�vel. No aprofundamento da an�lise citou, como exemplo esclarecedor, a instrumentaliza��o dos fundos de pens�o multimilion�rios que arrecadam nos EUA uma massa gigantesca de capitais que � utilizada no jogo especulativo das bolsas. A crise iniciada na �sia Oriental est� agora mais pr�xima; os seus tent�culos amea�am a Am�rica Latina, sobretudo o Brasil. O que se passou na Tail�ndia e na Coreia do Sul n�o serviu de emenda. O louco jogo do dinheiro prossegue. Os senhores do mercado exigem mais privatiza��es, mais desregulamenta��o. Continuam a investir contra o Estado do Bem Estar Social, tentando minar-lhe os alicerces. Pretendem que o Estado se demita da sua hist�rica fun��o social e reduza ainda mais a sua interven��o na �rea da economia.
Recordou tamb�m epis�dios pouco conhecidos como aquele que envolveu um gigantesco Fundo de Cobertura norte-americano dirigido por dois Pr�mio Nobel de Economia. Ao entrar em crise na sequ�ncia dos seus neg�cios aventureiros (em que estavam envolvidos 75 bancos tamb�m comprometidos em opera��es especulativas no valor de l20 mil milh�es de d�lares) foi salvo in extremis com a ajuda do Reserve Board dos EUA. A est�ria foi divulgada por Allan Grenspan, director desse poderoso banco central. Se o Fundo em quest�o fosse � fal�ncia, uma crise incontrol�vel explodiria, na opini�o de Greenspan, nos EUA, logo adquirindo dimens�o mundial.
Como reagir ante a amea�a de crises que rapidamente podem assumir uma dimens�o planet�ria, colocando em perigo a pr�pria continuidade da humanidade civilizada? Motivo de orgulho Do diagn�stico e da cr�tica, Fidel passou
para a exorta��o.O discurso voltou a tomar a juventude como interlocutora principal.
�Povo algum - disse -, por maior e mais rico que seja pode resolver os seus problemas isoladamente, menos ainda um pa�s pequeno ou m�dio. Mas o exemplo de Cuba � um guia na luta humanista contra a globaliza��o capitalista neoliberal, que dia-a-dia arrasta a humanidade para a beira do abismo.�
Nenhuma causa para os revolucion�rios cubanos � hoje mais importante do que a causa da pr�pria humanidade. A �distribui��o justa das riquezas que os seres humanos sejam capazes de criar� aparece-lhe como a �nica alternativa vi�vel ao neoliberalismo. �Que cesse a tirania - s�o palavras suas - de uma ordem que imp�e princ�pios cegos, an�rquicos e ca�ticos, que conduz a esp�cie humana ao abismo. Que sejam preservadas as identidades nacionais. Que em cada pa�s sejam protegidas as culturas. Que prevale�am a igualdade e a fraternidade e com elas a verdadeira liberdade. N�o podem continuar a crescer as insond�veis diferen�as entre ricos e pobres dentro de cada pa�s e entre pa�ses. Devem pelo contr�rio atenuar-se progressivamente at� cessarem um dia. Que seja o m�rito, a capacidade, o esp�rito criador e a contribui��o do homem para o bem estar da humanidade e n�o o roubo, a especula��o ou a explora��o dos mais fracos aquilo que determina o limite das diferen�as. Que o humanismo passe a ser praticado com actos e n�o com slogans hip�critas.�
Ningu�m imaginava tamb�m que o jovem comandante guerrilheiro que esmagara a tirania de Batista com os seus companheiros do MR-26 assumiria com os anos o perfil de um grande estadista, porta-voz de um novo humanismo num s�culo que finda num clima de medo e irracionalidade. E isso aconteceu.
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