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"o céu é nosso"

Endurecimento de Comandos de Vôo e Compressibilidade

por Otto Jaguar A1 <-ottc->

No WB, mais cedo ou mais tarde alguém comenta sobre o fato dos comandos de vôo dos aviões (ailerons, profundor e leme) ficarem duros devido à 'compressibilidade'. Na verdade, a 'dureza' dos comandos e a compressibilidade são fenômenos bem diferentes. Segue abaixo uma (não tão) breve explicação desses fenômenos e as maneiras de se sair dessa situação. Por favor, deve ser levado em conta que a explicação teve que ser bem simplificada, e que algumas 'heresias' podem ter sido cometidas para torná-la mais compreensível (se é que eu entendi o assunto direito, para início de conversa...)

Endurecimento dos Comandos

Praticamente nenhum avião de caça da segunda guerra mundial tinha comandos de vôo acionados hidraulicamente, ao contrário dos aviões de caça modernos (a única exceção que conheço é o último modelo do P-38 ( modelo L) que ganhou um atuador hidráulico auxiliar no aileron). Sendo assim, eles dependiam apenas do piloto e de (engenhosos...) recursos aerodinâmicos para gerar as forças que defletiam os comandos de vôo.

É impossível descrever todos esses recursos sem entrar em detalhes muito técnicos (e maçantes...) mas alguns deles consistiam em posicionar a articulação do comando mais para trás, modelar adequadamente o bordo de ataque do comando, colocar 'tabs' (compensadores) automáticos no bordo de fuga (que se moviam no sentido contrário ao da superfície), etc. O propósito de tudo isso era manter o nível de forças que o piloto fazia no manche dentro do humanamente possível. A baixas velocidades, o piloto normalmente tinha força suficiente para defletir os comandos sozinho. Era fácil fazer um dispositivo que ajudasse o piloto diminuindo as forças a médias velocidades, mas esse mesmo dispositivo poderia diminuí-las demais a alta velocidade, tornando o avião muito 'arisco' ou mesmo instável e perigoso. Da mesma forma, se o dispositivo fosse projetado para altas velocidades, ele poderia deixar o comando muito pesado a médias velocidades. O inverso disso tudo também podia ocorrer, isto é, um dispositivo bom para alta velocidade poderia deixar o comando muito leve a baixa.

A grande 'arte' era conseguir projetar um dispositivo que fosse satisfatório para toda a faixa de velocidades; poucos aviões conseguiram isso. Um exemplo clássico de dispositivo bem projetado é o aileron do FW-190, que era muito eficaz de 200 a 500 mph, com forças de manche excelentes. O exemplo contrário é o do Zero, que tinha ailerons imensos, propositadamente otimizados para ter uma eficiência máxima a baixas velocidades (100-200 mph, típicas de combate turn & burn), mas que eram grandes demais para que um piloto normal conseguisse defletí-los acima de 300 mph. O P-39, amaldiçoado por muitos, tinha comandos extremamente sensíveis (pouca força): alguns pilotos experientes achavam essa característica excelente, enquanto pilotos novatos a achavam perigosa... O ponto fundamental a ser notado (moral da história) é: os comandos continuavam com sua eficiência normal a 'qualquer' velocidade; o problema é que, dependendo desta última, muitas vezes o piloto não tinha força suficiente para defletí-los. A compressibilidade não tem nenhuma 'culpa' direta nesses aspectos... (Hay que endurecer, peró sin culpar la compressibilidad jamás!)

Compressibilidade

Acho que quase todo mundo já ouviu falar de aviões supersônicos, 'barreira do som', número de Mach, e ondas de choque causadas por aviões supersônicos em vôo rasante quebrando vidros de casas... Exagerados ou não, eles ilustram fenômenos que podem ser atribuídos à tal da compressibilidade.

A baixas velocidades (até uns 230 mph, ou 350 km/h, correspondendo a Mach=0.3 (30% da velocidade do som)) o ar é essencialmente incompressível: um avião abrindo caminho através dele apenas o 'empurra' para os lados, fazendo que ele acelere localmente ao contornar o avião. É como um esguicho de mangueira: ao se apertar o bocal com um dedo, a água (que é incompressível) acelera e vai mais rápido e mais longe.

A medida que a velocidade de vôo cresce, o ar, além de ser acelerado, começa a ser comprimido ou expandido. Duas coisas interessantes acontecem então: se a velocidade de vôo do avião for alta o suficiente (embora ainda abaixo da velocidade do som, Mach menor que 1), o ar que é acelerado (e expandido) pode chegar a velocidades SUPERSÔNICAS em alguns pontos do seu trajeto em torno do avião. Repetindo: o avião voa subsônico, mas existem algumas regiões de escoamento supersônico em torno dele (principalmente na parte de cima das asas).

Isso causa o segundo efeito 'interessante': uma vez que o escoamento local é supersônico, podem aparecer ali as tais das ondas de choque, que são a maneira que a natureza encontra para desacelerar (e recomprimir) rapidamente o ar. O problema é que se as ondas de choque ficarem muito fortes, elas provocam um turbilhonamento tão grande (‘descolamento da camada limite’, em jargão técnico) que isso diminui a sustentação da asa e afeta a eficiência dos comandos de vôo. Para efeitos práticos, é como se a asa ou comando de vôo tivesse estolado (perda de sustentação). Agora sim, os comandos de vôo podem ficar sem eficiência: mesmo se o piloto tiver força para defletí-los, eles podem não ser capazes de fazer que o avião execute a manobra prevista. Essa é uma situação muito grave, e a culpada aqui, finalmente, é a 'compressibilidade' do ar...

Nos aviões da segunda guerra mundial, esses efeitos de compressibilidade começavam a aparecer tipicamente a partir de Mach=0.65. Para colocar esse número em perspectiva, ele corresponde a uma velocidade de aproximadamente 500 mph (800 km/h) ao nível do mar ou um pouco menor (480 mph - 770 km/h) a 10000 ft. Ou seja, nas altitudes típicas e velocidades máximas encontradas nos aviões do Warbirds, os efeitos prejudiciais da compressibilidade estariam apenas começando a ser ligeiramente sentidos... Nas situações reais de problemas de compressibilidade durante a segunda guerra, os aviões estavam voando muito alto (na verdade, o que importa não é a altitude, mas sim a temperatura, que cai com a altitude...) e às vezes se recuperavam sozinhos quando chegavam a altitudes mais baixas (temperaturas maiores).

Para aqueles que já estão jurando que nunca mais vão colocar os pés num avião de verdade, aqui vão algumas observações finais tranquilizadoras: Todos os aviões comerciais subsônicos modernos (Boeing, Airbus, Embraer ;) voam entre Mach 0.7 e 0.9, com regiões extensas de escoamento supersônico sobre as asas (e algumas outras partes). No entanto, o enflechamento das asas, perfis de asa modernos e outros dispositivos projetados para tal fazem que eles sejam perfeitamente seguros e controláveis nessas velocidades. O mesmo não se pode dizer dos caças da segunda guerra mundial nessas mesmas condições...

Muito bem, quem resistiu bravamente, não dormiu até agora e ainda não se sente totalmente confuso (escoamento incompressível ou incompreensível?), pode dizer com segurança, quando vir aquele Zero se esborrachar sozinho no final de um mergulho ('maneuver kill'): NÃO FOI problema de compressibilidade...

Como Evitar a Perda de Controle em Mergulho no WB

Se o avião está num mergulho a alta velocidade com o profundor 'congelado', existem duas maneiras de tentar tirá-lo dessa situação:

1.Compensadores Automáticos:

Centralize o manche (isso mesmo: pare de cabrar!).

Aperte a tecla 'x' (auto-trim on level) e deixe o avião fazer o resto.

2.Compensadores manuais

Mantenha o manche na posição a cabrar.

Aperte repetidas vezes a tecla 'k' (elevator trim up) até sair do mergulho.

Notar que para as técnicas acima funcionarem, é necessário um mínimo de altitude para a recuperação. Nada vai salvar um avião a 500 mph mergulhando a 45 graus a 100 ft de altitude...

Atualizado em 20/Junho/1998 (WB 2.01r3)

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