SALVO

	Acordou mas não conseguiu abrir os olhos. Sentiu que estava coberto 
com o que parecia um lençol. Inclusive o rosto. Não conseguiu afastar o 
lençol. Não conseguia se mexer. Ouviu vozes se aproximando. Não sabia onde
estava. Tentou se lembrar. Era como se o cérebro também fosse um músculo
que ele também não conseguia mover. Como tinha ido parar ali ?
	- É esse ?
	- É.
	As vozes estavam perto. Um homem e uma mulher. Um deles botou o dedo
no seu peito, sobre o lençol, e traçou uma linha até abaixo do umbigo. Era
o homem.
	- Vamos abrir aqui e tirar tudo. Coração, pulmões, tudo.
	Epa, pensou. Não sei o que está acontecendo, mas é obviamente um enga-
no. Tentou falar. Os músculos do rosto não funcionavam. Os pulmões não for -
neceram o ar necessário para um gemido. Nada nele funcionava. Só os ouvidos.
	- E o cérebro?-perguntou a voz feminina.
	- Depois.
	O dedo traçou outra linha, agora na sua testa.
	- Cortamos aqui e tiramos o tampo.
	Eu devo estar respirando,pensou ele. Tenho que estar respirando. Eles
vão ver que eu estou respirando. Vão se dar conta do engano.
	- É a sua primeira vez?
	- Em gente, é.
	Silêncio. Depois ruído de metal contra metal.Estão preparando os ins -
trumentos. Vai começar a minha autópsia!
	- Professor...
	- Me chame de Orestes.
	- Orestes, esta serra...
	- Não é possível. Eu falo, falo, mas não adianta. Deve ter uma lâmina
sobressalente ali. Você pode pegar, ahn...
	- Linda. 
	- Como ?
	- Meu nome.
	- Claro. Eu sabia.
	- O senhor guarda o nome de todas as alunas ?
	- Não. Só das Lindas.
	Risos. Eles estão rindo! Devem estar olhando um para o outro. Desse
jeito não vão notar a minha respiração. Se eu pudesse mexer pelo menos um
dedo. Onde está a minha mão? Olhem pra mim, pô!
	- O senhor nem olha pra mim, professor.
	- Orestes. É o que você pensa. Preciso me controlar para não olhar
pra você o tempo todo.
	- Ai, professor...Orestes...
	- Vem cá, vem.
	- Professor!
	Silêncio. Depois um risinho dela. Depois ela de novo:
	- Mas aqui, professor?
	- Por que não? Estamos sozinhos. Ele não vai se incomodar.
	"Ele" devia ser ele. Isso, me apontem. Olhem pra mim! Olhem pra mim!
Ela falou.
	- Deixa eu...
	- Assim...
	- Espera...
	- Aqui!
	- Deixa eu tirar a...
	O som de alguma coisa caindo no chão. Provavelmente a serra. A respi -
ração dela, ofegante.
	- Só afasta aqui um pouquinho...
	- Não! Sim! Não! Professor!
	- Orestes! Orestes!
	- Orestes! Ai meu Deus, ai meu Deus...
	A respiração dela num crescendo. Palavras indecifráveis do professor.
E subitamente...
	- Orestes, olha ali!
	- O quê?
	- O que é aquilo?
	- Agora não...
	- Mas o lençol está subindo!
	- Que lençol?
	- Do morto!
	O quê? O meu? Como?! Sentiu que tiravam o lençol de cima dele. Ouviu
um grito de mulher. E a voz do homem:
	- Mas esse cadáver está com uma ereção!
	- Ele está vivo! Eu vi o lençol subindo!
	- Não pode ser.
	Pode sim! Pode sim! Vejam se o meu coração está batendo.
	- Veja se o coração dele está batendo.
	O rosto da mulher encostado no seu peito. Ainda esfogueado.
	- Está batendo!
	Depois providenciaram ressuscitador, injeções, oxigênio, mas nos mi -
nutos que se seguiram ele ficou ali sorrindo por dentro, embora seus lábios
não se movessem, e pensando: meu herói. Mais uma vez, o velho pênis não fa-
lhara, e desta vez lhe salvara a vida. Depois pensou: também, depois de  a-
prontar tantas com sua insubmissão, estave me devendo uma. Não fizera mais
do que sua obrigação.

           ( Novas Comédias da Vida Privada - Luís Fernando Veríssimo ).
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ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO : 08.03.2000

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