Jorge da Rocha Gomes
INTRODUÇÃO
Os efeitos do chumbo sobre o organismo já são conhecidos praticamente desde que o homem aprendeu a trabalhar com este metal. Hipócrates (600 A.C.) já citou a cólica devida ao chumbo. Há inclusive estudo curioso de Gilfilian (1965) que atribuiu a decadência do Império Romano ao uso de condimentos manipulados em vasilhames de chumbo. Como não podia deixar de ser, Ramazzini (1700) também descreve a intoxicação crônica pelo chumbo. No Brasil cumpre ressaltar o trabalho de Germek (1951) que estudou exaustivamente os exames laboratoriais indicados para os expostos.
O chumbo é um metal de cor cinza, macio, maleável, encontrado na natureza sob a forma de minério chamado GALENA.
2. USOS
importante conhecer-se os, usos do chumbo, pois sem tal conhecimento é impossível chegar-se a um diagnóstico certo.
Indústria de acumuladores elétricos com placas de chumbo. Numa bateria comum cerca de 65% de seu peso é chumbo, seja em sua forma metálica ou seja sob a forma de óxido de chumbo. Com o grande incremento da indústria automobilística criou-se a necessidade de muito maior produção de acumuladores. Sabe-se que a vida útil de uma bateria é cerca de 26 meses, sendo portanto comum que um mesmo carro necessite 2 ou mais acumuladores. Em vista disto, é de se esperar ainda multas intoxicações nesta indústria, pois o aumento de produção não é seguido, via de regra, pelas medidas acauteladoras adequadas à manutenção de saúde.
Indústria automobilística.
Na área de funilaria, certos modelos necessitam uma correção das eventuais imperfeições de estamparia (prensas). O operário, com auxilio de maçarico, derrete a barra de chumbo e com uma espátula vai preenchendo os defeitos. Nesta fase, o desprendimento dos fumos metálicos do chumbo não é prejudicial. Posteriormente, porém, as irregularidades da superfície corrigida com o chumbo devem ser lixadas.
Agora a operação expõe o funcionário à poeira de chumbo, e, se medidas adequadas de proteção não forem tomadas, certamente aparecerão intoxicações.
Industria de pigmentos para tintas e estabilizantes para plásticos.
Neste tipo de exposição, há possibilidade de intoxicações graves e com o tempo de serviço curto o que indica a agressividade do trabalho. Na fabricação de zarcão e litargirio, a manutenção de condições adequadas de higiene ambiental é muito mais difícil do que em outras indústrias por motivos de ordem técnica.
Indústria tipográfica.
Tradicionalmente é incluída como área de exposição. Modernamente, os novos métodos e processos de trabalho praticamente eliminaram esta atividade das consideradas perigosas no que se refere ao chumbo.
Industria petrolífera.
Na fase de adição do chumbo tetra-etila à gasolina para aumentar o seu poder antidetonante.
Indústria cerâmica.
Certos tipos de cerâmicas vitrificadas usam chumbo. Recentemente, houve referência a intoxicação no Rio Grande do Sul de crianças que ingeriram laranjada contida em recipientes de cerâmica vitrificada.
Indústria de solda.
O risco maior das operações de solda com chumbo reside no trabalho de áreas confinadas com pequena aereação.
3. FISIOPATOLOGIA
Vias de absorção.
O chumbo pode penetrar no organismo pelas três vias de absorção mais comuns. A poeira e os fumos metálicos que são inalados chegam ao pulmão, onde são totalmente absorvidos sob a forma de carbonato de chumbo ou por fagocitose.
A via digestiva também é importante especialmente nos casos de maus hábitos higiênicos como fumar e comer no ambiente de trabalho. Chegando ao tubo gastrintestinal, o chumbo é absorvido sob a forma de cloreto e clorato. Embora a maior quantidade de chumbo ingerida seja excretada "in natura" pelas fezes, uma parte pode ser absorvida capaz de produzir uma intoxicação. Nos casos de intoxicações coletivas pelo uso de recipientes em canalizações à base de chumbo, a via digestiva será considerada preferencial.
A absorção cutânea de chumbo somente é possível nos casos de chumbo tetraetila, que é capaz de atravessar a pele íntegra.
Destino.
Qualquer que seja a via de absorção, o chumbo vai ao fígado onde parte é excretada através da bile, parte é armazenada e uma terceira fração entra em circulação na forma de fosfato de chumbo indo depositar-se nos ossos (95%), fígado, rim, baço, gengiva, cérebro, músculos etc. O chumbo depositado nos ossos segue o metabolismo fosfo-cálcico. O fosfato de chumbo que circula sob a forma de sal complexo, no qual o chumbo substitui o cálcio dos trabéculas ósseos. Nos processos de descalcificação ou sob a ação de medicamentos, o chumbo ósseo pode ser mobilizado, ocasionando episódios agudos de intoxicação mesmo após a exposição ocupacional haver cessado. Outra ação tóxica do chumbo é conseqüência de sua afinidade pelos grupos "tiois" (SH), encontrado nas esclero-proteínas. Explica-se assim sua ação biológica sobre os sistemas enzimáticos.
Ação sobre o sistema gastrintestinal.
Age sobre as fibras musculares lisas, com aumento de permeabilidade celular a certos íons orgânicos com alteração de equilíbrio eletrolítico. Pensa-se também que exista uma ação sobre os vasos mesentéricos que irrigam os nervos (vaso nervorum) que explicaria o mecanismo da cólica satúrnica.
Ação sobre os demais órgãos.
Uma alteração neurológica muito citada como sinal de intoxicação é a paralisia do corpo. É conseqüência de lesão morfológica das células cornos anteriores medulares, embora alguns autores acreditem que o problema seja mais muscular que nervoso por distúrbios da fosfo-creatina. Além destas ações o chumbo é hipertensor por alterações enzimáticas que levam à vaso-constrição. Outra explicação para a hipertensão é o efeito do chumbo sobre o rim ocasionando nefrite crônica. Resta ainda lembrar a encefalopatia causada pelo chumbo e que ocorre principalmente em crianças intoxicadas acidentalmente e o efeito abortivo deste metal
ESTUDO CLINICO
A intoxicação pelo chumbo pode ser crônica ou aguda. Esta última dificilmente é ocupacional a não ser no caso de chumbo tetra-etila.
Sintomatologia.
O operário exposto ao chumbo passa por um período de acumulação do tóxico no organismo que é conhecido como fase de impregnação. Este período é variável com a concentração de chumbo no ar, das condições de trabalho, da suscetibilidade individual e outros fatores não bem estudados.
As primeiras queixas referem-se a uma fraqueza que inicialmente se limita aos membros inferiores para depois generalizar-se. As vezes, há referência a dores nos membros inferiores especialmente ao nível dos joelhos. A insônia também é freqüentemente referida, embora paradoxalmente haja queixas de sonolência durante o dia. A cólica abdominal não é muito freqüente. Quase sempre indica intoxicações graves, pode atingir grande intensidade e não cede aos antiespasmódicos comuns.
Como ocasionalmente acompanha-se de rigidez muscular do abdomem cria-se difícil problema de diagnóstico diferencial com emergência cirúrgica. A dor é generalizada e paroxística.
Outros sintomas referidos, porém com menos freqüência são: impotência sexual, gosto amargo na boca, vômitos, má digestão, inapetência, períodos alternados de diarréia e obstipação.
Exame físico.
Em linhas gerais, o paciente intoxicado apresenta-se emagrecido, pálido, com mucosas descoradas. A pressão arterial pode estar levemente aumentada.
Exame cárdio-respiratório, sem alterações. O abdomem é doloroso à palpação profunda especialmente nos quadrantes inferiores e epigrástico. O exame orológíco pode revelar a existência da orla gengival de Burton. É um sinal relativamente freqüente e constituí-se numa linha azulada da gengiva imediatamente por cima da implantação dos dentes. Aparece mais nas áreas dos caninos, mas nos casos de má higiene (tártaro) ou cáries junto ao colo costuma incidir mais nas áreas correspondentes aos dentes com patologia. A orla azulada é ocasionada pelo sulfeto de chumbo formado nos intoxicados pela presença do chumbo eliminado na saliva, que age com o ácido sulfidrico normalmente existente na boca vindo a formar o sulfeto de chumbo. Este sulfeto, que tem a coloração azulada, deposita-se na gengiva.
Mesmo nos casos crônicos, ocasionalmente há o aparecimento brusco da cólica abdominal já referida, vômitos e obstipação. Nestes casos há necessidade de internação hospitalar.
Exame laboratorial.
Os exames de laboratório disponíveis para diagnosticar uma intoxicação ou para controle de expostos são inúmeros. É talvez uma das doenças em que os subsídios laboratoriais são em maior número.