PSICOLOGIA DO TRABALHO

 

AJUSTAMENTO NO TRABALHO
 
 
 
1 - Introdução
 

Para procedermos a um estudo deste tipo, teremos que conhecer, antes, o significado de "ajustamento" e ter noção de o que queremos dizer quando falamos em "ajustamento ao trabalho".

Vejamos, antes, algo sobre o comportamento humano. O que o determina?

O comportamento de um indivíduo implica um dispêndio de energia que lhe vem do organismo. Esta energia é o que impulsiona o indivíduo a agir de determinada maneira, a exibir determinado comportamento. Ela pode originar-se de necessidades sentidas no organismo. Estas necessidades, consideradas como tensões internas, orientam o comportamento para um objetivo determinado. Para se atingir esse objetivo, alguma atividade deve ser realizada. Atingindo o objetivo, a necessidade estará satisfeita.

Assim o ajustamento nada mais é que a tentativa do organismo de satisfazer suas necessidades. Como nós vivemos tentando satisfazer nossas necessidades, podemos dizer que o ser humano esta, continuamente, em estado de ajustamento.

Por exemplo, de um ponto de vista amplo, João é um homem ajustado no trabalho. O sintoma disto é que ele se sente bem no ambiente de trabalho, gosta dos companheiros e aprecia o que faz dentro da empresa. Pode até mesmo ter suas dificuldades, momentos de desajustamento passageiro. Mas, em geral , sente-se satisfeito no e com o emprego.

Já Leonidas não encontra, no emprego, algo que satisfaça suas necessidades, como por exemplo: a tarefa propriamente dita, os companheiros ou o próprio ambiente de trabalho.

E alguns dos sintomas de um indivíduo desajustado são: a troca freqüente de emprego, ausências ao serviço, acidentes de trabalho. Sim, é muito provável que um indivíduo insatisfeito cometa atos inseguros, seja por negligencia, desatenção, ansiedade ou medo.

Atentemos, agora, para o seguinte: se João está satisfeito com o seu emprego na fabrica "x", quer isto dizer que ele jamais poderia almejar uma mudança de emprego ou de função? Se assim o quisesse, poderia ser ele chamado de desajustado?

o comportamento humano apresenta um dinamismo muito grande, o que justifica a quantidade de teorias que o tentam explicar. João comporta-se dinamicamente. Seu emprego na fabrica "x" lhe garante a satisfação de determinadas necessidades. Mas estas podem, quando satisfeitas, dar lugar a outras. E João poderá passar por um estado passageiro de desajustamento, o que poderá faze-lo procurar outro emprego, por exemplo.

Frisamos que o homem vive num continuo infinito de "desajustamento - ajustamento" desde a hora em que nasce; e é esse continuo que o impulsiona para a vida. Alguns teóricos preferem colocar a necessidade como sendo um motivo que impulsiona o indivíduo à ação. Vejamos, por exemplo, como se processa a necessidade de alimento: a fome rompe o equilíbrio e desenvolve o estado de insatisfação. Esta ultima move o organismo a procura de satisfação (procura de alimento). A satisfação é o encontro do necessário. Esse encontro reduz as tensões e restabelece o equilíbrio, ocorrendo a extinção daquela necessidade. Isto é, alimentado, o organismo não sente mais necessidade de comer.

O ajustamento implica o movimento do organismo procurando superar o estado de frustração.

Se todas as necessidades estivessem sempre satisfeitas, o homem não teria motivação para agir e, consequentemente, não existiriam tentativas de ajustamento. No entanto, sempre ternos necessidades momentaneamente não satisfeitas. Por conseguinte, sentimos frustrações e nos desequilibramos. Mas reagimos de alguma forma, a procura de melhor adaptação. Este "reagir de alguma forma" é o ajustamento. Todo homem, todo ser vivo esta em continuo processo de acomodação: viver é de algum modo ajustar-se.

O ajustamento humano é resultado de variáveis somáticas, psíquicas e sociais. Porém, as energias motivadoras do mesmo são as necessidades. Elas atuam como motores do ajustamento, são dinamismo vitais.

2 - Processo de Ajustamento e Barreiras

O processo de ajustamento, como já dissemos, ocorre quando o indivíduo tenta satisfazer suas necessidades, restaurando seu equilíbrio interno. Não havendo dificuldades ou barreiras, o processo de ajustamento completa-se por sua via normal.

De maneira geral, podemos esquematizar assim o processo de ajustamento:
 
 

 
 

1) - Indivíduo com necessidade ou motivo a ser satisfeito
2) - Atividades dirigidas no sentido de alcançar o objetivo
3) - Tentativas dirigidas no sentido de superar as dificuldades ou barreiras
4) - Barreira que dificulta ou impede a conquista do objetivo
5) - Objetivo (necessidade ou motivo a ser atingido

Quando o indivíduo atinge o alvo, satisfazendo suas necessidades, ocorre imediatamente um alívio de tensão, com concomitante diminuição ou cessação das atividades que são dirigidas à realização do objetivo final.

Assim, o indivíduo faminto, tão logo esteja saciado, pára de comer. Por isso dissemos que a necessidade ou motivo impulsiona o indivíduo para a ação.

No entanto, nem sempre o ajustamento ocorre da forma e/ou no tempo convenientes. Se o indivíduo consegue contornar a barreira de modo apropriado, ele esta tendo um bom ajustamento. Porém se o indivíduo não consegue contorna-la de forma adequada, o desajustamento se instala. Quando a barreira é muito poderosa e o indivíduo não atinge o alvo, aparece a frustração, com conseqüente tensão emocional.

A barreira pode ser:

As barreiras podem ser removidas de modo adequado. Para isso, existem os mecanismos de ajustamento. O que vem a ser? Mecanismos de ajustamento são todos os atos ou pensamentos que satisfaçam uma necessidade. São hábitos indiretos que levam a pessoa ao objetivo final e que substituem o processo de ajustamento em sua via normal.

3 - As necessidades

Conforme já citado neste trabalho, no texto "Planos promocionais: motivação e treinamento de pessoal", da Professora Maria Helena Passos Miraglia, Abraham Maslow, em seus estudos, concluiu que o homem possui cinco necessidades básicas, numa escala hierárquica: fisiológicas, de segurança, sociais, de auto-estima e de auto-realização.

Para que uma necessidade surja como mais importante na escala de valores, basta apenas que a anterior esteja parcialmente satisfeita.

Com relação ao trabalho, por exemplo, a necessidade de segurança é satisfeita com empregos estáveis, seguros de vida, aposentadoria, etc; a necessidade de auto-estima é satisfeita através da avaliação do trabalho pelos outros. E assim por diante. Vemos, portanto, que as referidas necessidades agem como motivadores da ação humana.

Por que estamos tão interessados nos motivadores da ação humana? Porque precisamos encontrar o motivador da ação humana de trabalhar. Para entendermos o ajustamento no trabalho, devemos, antes, compreender o que leva o homem a sentir-se satisfeito no trabalho. Por outro lado, para sentir-se como tal, o trabalho deve ser um meio para que o homem satisfaça suas necessidades básicas.

Por exemplo, Carlos é um universitário voltado para a Filosofia. Suas necessidades emergentes são as necessidades de auto-realização. Estas se constituem no motivador de sua ação de trabalhar. Para sentir-se satisfeito e, portanto ajustado será preciso que ele sacie no trabalho, tais necessidades. Se for posto a trabalhar numa função puramente técnica, que não lhe permita desenvolver suas potencialidades, certamente se aborrecerá, pois seu trabalho não satisfará sua necessidade mais premente, que é a de auto-realização.

Já Francisco está há dois dias sem comer, necessitando desesperadamente de dinheiro; certamente ele exigirá do trabalho apenas a remuneração líquida, através da qual conseguirá satisfazer sua necessidade básica, fisiológica, de alimentação.

Entretanto, a título de conhecimento, os estudos mais recentes mostram que os indivíduos que trabalham apenas para satisfazer as necessidades mais inferiores (em relação a escala de Maslow), não se sentem satisfeitos com o trabalho em si. É o caso do homem que trabalha somente pelo dinheiro que recebe no fim da semana ou do mês.

Já o indivíduo que trabalha para satisfazer sua necessidade de auto-rea1ização, é uma pessoa satisfeita consigo mesma, o que leva, por conseguinte, a um aumento do seu moral e da sua produtividade. Nesse caso, a necessidade de auto-realização é satisfeita através da execução do trabalho. Em outras palavras, não e apenas o ambiente físico e social, mas a tarefa em si, o conteúdo do próprio trabalho, que leva o indivíduo a uma auto-realização.

Esses resultados são muito importantes, na medida em que devemos promover o ajustamento do homem ao trabalho e, portanto, propiciar a ele oportunidade para que satisfaça suas necessidades básicas. Esse é também, o interesse da empresa.

O Instituto Lavistock de Relações Humanas, de Londres, desenvolveu estudos no sentido de levar em conta, no planejamento do trabalho, as necessidades psicossociais das pessoas que trabalham. Suas orientações gerais a respeito do conteúdo de uma atividade vem de encontro as "necessidades" apontadas por Maslow.

Vejamos quais são elas:

1. A atividade deve exigir do trabalhador razoável esforço e deve fornecer, pelo menos, um mínimo
    de variedade (e não necessariamente novidade).

2. O indivíduo deve poder aprender o trabalho e continuar sempre aprendendo. Naturalmente, essa
    aprendizagem deve ser dosada.

3. Deve haver uma área mínima de decisão que o indivíduo possa dizer que é dele.

4. Deve existir a necessidade de um grau mínimo de reconhecimento no seu ambiente de trabalho.

5. A tarefa deve ser tal que permita ao indivíduo relatar o que ele faz e o que ele produz para sua
    vida social.

6. Deve haver, na própria atividade, algo que faça o trabalhador sentir que o trabalho conduza um
    futuro desejável.

Concluímos, pois, o seguinte: podemos levar o trabalhador a sentir-se mais ajustado, se o tornarmos satisfeito com o trabalho e consigo mesmo. Para torna-lo satisfeito, devemos dar-lhe oportunidades para satisfazer suas necessidades de auto-realização.

Como isso pode ser feito? Vejamos, então:

As características das tarefas devem ser alteradas de modo tal que o trabalhador tenha maior autonomia, possa utilizar suas habilidades e capacidades e dar vazão às suas potencialidades. A tarefa deve ser enriquecida, com aumento intencional de responsabilidades, devendo haver ainda maior amplitude e desafio no trabalho.

Inferimos, então, que a administração de uma empresa pode ajudar seus empregados a se tornarem mais ajustados, se procurar, através de meios adequados, satisfazer suas necessidades básicas. Sabemos que os nossos trabalhadores (brasileiros) tem seu comportamento mais voltado para o atendimento das necessidades fisiológicas e de segurança, ao contrario do que ocorre com os trabalhadores de países super-desenvolvidos, que estão mais voltados para sua auto-realização. A administração deve, portanto, atentar para fatores como ambiente de trabalho, programas da empresa, supervisão, condições de trabalho, relações interpessoais, segurança na função.

Para tanto, deve realizar, antes de mais nada, uma seleção de pessoal eficiente, colocando o "homem certo no lugar certo", fazendo com que o funcionário esteja perfeitamente adequado às exigências do cargo para o qual foi escolhido.

Deve, também, recorrer ao treinamento como uma medida complementar a seleção e como uma medida de integração do trabalhador, fazendo-o reconhecer os objetivos da empresa e a importância do melhor desempenho do seu papel para o alcance de tais objetivos. Nesse treinamento, o administrador ou supervisor irá lidar com a necessidade de se mudarem os conhecimentos do empregado acerca de seu trabalho, suas atitudes, seu comportamento individual e grupal

Outras medidas podem ser tomadas pela administração, no que se refere a satisfação das necessidades sociais, de auto-estima e de auto-rea1ização de seus funcionários. Afinal, não podemos subestimar a capacidade do ser humano. E as mais recentes pesquisas confirmam que o homem pode dirigir a si mesmo, ser criativo no trabalho e gostar do que faz. A empresa tem apenas que despertar essa potencialidade humana, ajudando os empregados no seu processo de amadurecimento e permitindo-lhes assumir um autodomínio cada vez maior.

Quando ressaltamos a importância de a empresa possibilitar a satisfação de seus empregados estávamos pensando, também, nos objetivos do empresário. Senão, vejamos: a empresa deseja obter produtividade. Só há produtividade se os empregados são produtivos. Os empregados só se tornam produtivos quando estão interessados em seu trabalho. Estes só estão interessados quando o trabalho, em si, lhes traz a satisfação de suas necessidades. Conjugando-se os objetivos da empresa e do empregado, obtém-se o ajustamento de todas as partes.
 

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