Personnas - Poesia & Cidadania

Janeiro-Dezembro de 2000 * III - 6

Mural * Solidariedade

Infinitos esp�ritos dispersos,
inef�veis, ed�nicos, a�reos,
fecundai o Mist�rio destes versos
com a chama ideal de todos os mist�rios.
(Cruz e Souza, in: "Broqu�is")

LITANIA DOS POBRES

Cruz e Souza

Os miser�veis, os rotos
s�o as flores dos esgotos.

S�o espectros implac�veis
os rotos, os miser�veis.

S�o prantos negros de furnas
caladas, mudas, soturnas.

S�o os grandes vision�rios
dos abismos tumultu�rios.

As sombras das sombras mortas,
cegos, a tatear nas portas.

Procurando o c�u, aflitos
e varando o c�u de gritos.

Far�is � noite apagados
por ventos desesperados.

In�teis, cansados bra�os
pedindo amor aos Espa�os.

M�os inquietas, estendidas
ao v�o deserto das vidas.

Figuras que o Santo Of�cio
condena a feroz supl�cio.

Arcas soltas ao nevoento
dil�vio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
das culpas da Natureza.

� pobres! Solu�os feitos
dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
do fundo das sepulturas.

Imagens dos delet�rios,
imponder�veis mist�rios.

Bandeiras rotas, sem nome,
das barricadas da fome.

Bandeiras estra�alhadas
das sangrentas barricadas.

Fantasmas v�os, sibilinos
da caverna dos Destinos.

� pobres! o vosso bando
� tremendo, � formidando!

Ele j� marcha crescendo,
o vosso bando tremendo...

Ele marcha por colinas,
por montes e campinas.

Nos areiais e nas serras
em hostes como as de guerras.

Cerradas legi�es estranhas
a subir, descer montanhas.

Como avalanches terr�veis
enchendo plagas incr�veis.

Atravessa j� os mares,
com aspectos singulares.

Perde-se al�m nas dist�ncias
a caravana das �nsias.

Perde-se al�m na poeira,
das esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
com o seu solu�ar profundo.

Como torres formidandas
de torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
por toda a regi�o mais vasta.

E de tal forma um encanto
secreto vos veste tanto.

E de tal forma j� cresce
o bando, que em v�s parece.

� Pobres de ocultas chagas
l� das mais long�nquas plagas!

Parece que em v�s h� sonho
e o vosso bando � risonho.

Que atrav�s das rotas vestes
trazeis del�cias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
prelibam todo o carinho...

Que os vossos olhos sombrios
trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
v�m cheias de odor de rosas.

De torpores, d'indol�ncias
e gra�as e quint'ess�ncias.

Que j� livres de mart�rios
v�m festonadas de l�rios.

V�m nimbadas de magia,
de morna melancolia!

Que essas flageladas almas
reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
dos sopros que v�m do largo...

Radiantes d'ilusionismos,
segredos, orientalismos.

Que como em �guas de lagos
b�iam neles cisnes vagos...

Que essas cabe�as errantes
trazem louros verdejantes.


E a languidez fugitiva
de alguma esperan�a viva.

Que trazeis magos aspeitos
e o vosso bando � de eleitos.

Que vestes a pompa ardente
do velho Sonho dolente.

Que por entre os estertores
sois uns belos sonhadores.

(in: "Far�is", 1900 - 100 anos)
�

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